terça-feira, 3 de novembro de 2015

JEJUM: PRÁTICA DA LEI OU DA GRAÇA?

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1 - INTRODUÇÃO
Na atualidade, o número de críticos do dízimo e da igreja, enquanto realidade institucional, tem se multiplicado. Suas argumentações estão espalhadas pela internet, em redes sociais, blogs e sites. Nelas, os polemistas afirmam categoricamente que tanto o dízimo, quanto as instituições são elementos estranhos ao Novo Testamento. Seguindo esse raciocínio, acusam os que discordam de suas opiniões de serem alienados, imbecis, burros, manipulados ou manipuladores.
O curioso, entretanto, é que quando o assunto é jejum predomina o entendimento de que se trata de uma prática eminentemente cristã, e, portanto, válida para os discípulos de Jesus. Isto ocorre tanto entre “desigrejados” como entre “igrejados”, uma vez que ambos enxergam a contemporaneidade do jejum, praticamente, como um axioma. Assim, mesmo que muitos não o pratiquem, esse rito é visto com bons olhos perante a grande maioria da cristandade.
Isso não significa, contudo, que não haja discordâncias. Porquanto, ainda que a maioria concorde sobre a validade do jejum há uma série de divergências acerca de sua observância e seus resultados. Uns pensam que a prática deve ser caracterizada pela abstinência completa de alimentos e líquidos, enquanto outros entendem que os líquidos são permitidos durante a prática; porém, ainda há aqueles que compreendem que o jejum pode ser a privação de um elemento apenas, que não precisa, necessariamente, ser um alimento, podendo englobar, inclusive, o costume de assistir TV ou acessar a internet.
Da mesma maneira, no que tange às consequências do jejum, os pensamentos são igualmente diversos. Apesar disso, não há dúvida de que a ideia mais popular é a que associa a abstenção de alimentos à aquisição de bênçãos. Contrariando esse conceito, alguns compreendem que o jejum contribui apenas para a santificação e fortalecimento espiritual do crente. Com base nisso, há quem creia que para evangelizar ou visitar pessoas “possivelmente endemoninhadas” é necessário jejuar antes. Essa diversidade interpretativa, entretanto, não diminui a crença na atualidade e validade do jejum para a igreja. Pois, até mesmo quem não o pratica defende sua atualidade.
Em face dessas perspectivas, uma infinidade de indagações permeia as mentes de muitos cristãos sinceros: será que essas pessoas estão certas? Será que o jejum é uma atividade cristã? É verdade que só podemos expulsar demônios se o observarmos? O jejum é necessário para que tenhamos poder? Se não jejuarmos, damos brecha para o Diabo? Temos que jejuar para recebermos uma bênção?
Todavia, por mais que haja muitas visões e questionamentos, nossa única regra de fé e prática continua sendo a Bíblia Sagrada. Por conseguinte, é nela que devemos buscar as respostas. Destarte, na tentativa de oferecer o respaldo bíblico pelo qual anseiam muitos evangélicos, analisar-se-á o testemunho das Escrituras acerca do tema em questão. Entrementes, antes dessa análise, será apresentado um panorama da observância do jejum na história universal.

2 – O JEJUM NA HISTÓRIA
 Ao contrário do que se pensa, o jejum nunca foi exclusividade da cultura judaico-cristã. Entre os hindus, no primitivo culto védico, antes do nascimento de Siddharta Gautama (560 – 480 a.C), a ascese já estava vinculada à obtenção do poder mágico-religioso. Isto porque, cria-se que “os deuses alcançaram a imortalidade não só pelo sacrifício, mas também pela ascese” (ELIADE, 2010, p. 225). Entre os ritos ascéticos mais comuns na Índia pré-budista estavam o jejum, a vigília ao pé do fogo e a exposição ao sol (op. cit.).
Outrossim, nas antigas religiões de mistérios[1] praticadas entre gregos e egípcios, o jejum era parte integrante do cerimonial de iniciação. Segundo Eliade (2010, p. 281), no mundo grego, para ter acesso aos famosos “mistérios de Elêusis”, “os aspirantes jejuavam e ofereciam sacrifícios”. O mesmo ocorria no culto prestado à deusa Cibele, no qual seus seguidores, a cada primavera, lamentavam a morte de Átis, seu consorte, através de atos de jejum e flagelação. De modo semelhante, nos mistérios egípcios recomendava-se ao neófito que se abstivesse, “durante dez dias seguidos, de comer carne e de beber vinho” (ELIADE, 2011, p. 256).
A presença do jejum sempre foi marcante também no xamanismo, religiosidade tribal que remonta aos primórdios da humanidade. A razão disso era a busca por visões espirituais, as quais constituíam um dos requisitos fundamentais para obtenção do título de xamã, cuja função era mediar o relacionamento entre os seres humanos e o mundo sagrado. Ainda hoje, os candidatos a xamã se lançam nesse “[...] processo solitário de jejum e oração, em um local distante, pelo qual [..]” esperam “[..] alcançar uma visão de um espírito guardião” (WILLIS, 2007, p. 226). Isso, de fato, acontece porque “o jejum e o isolamento são formas relativamente comuns de privação que, geralmente, conduzem a estados visionários” (BATALHA, 2005, p. 266).
À guisa dos segmentos supracitados, no islamismo a abstinência alimentar é uma prática religiosa observada pelos fiéis. Durante trinta dias, no nono mês do calendário lunar (conhecido como Ramadã), os muçulmanos, entre o nascer e o pôr-do-sol, se abstêm de comida, bebida, fumo e relações sexuais. Assim o fazem porque, de acordo com a fé islâmica, “foi o mês em que Maomé teve sua primeira revelação”. (GAARDER; HELLERN; NOTAKER, 2000, p. 139).
À luz dessas informações, fica patente a universalidade e historicidade do jejum. Não obstante, apoiá-lo como componente necessário para uma espiritualidade plena com base nisso é, no mínimo, temerário. Até porque, a crença de que a observância de um rito, por si só, pode conceder benefícios espirituais, jamais foi ensinada por Jesus ou por seus apóstolos. Aliás, como vimos até aqui, a ideia de que o jejum pode criar “o tipo correto de abertura diante da influência divina” (COENEN; BROWN, 2000, p. 1066) era uma crença, predominantemente, pagã.
Ademais, penso ser difícil encaixar o jejum no contexto da graça. Porquanto, ao contrário da oração, o jejum está intimamente ligado ao mérito humano. Afinal, como não são todos que conseguem jejuar, o que, supostamente, é concedido através do jejum baseia-se na capacidade do jejuador. Todavia, antes de chegarmos a quaisquer conclusões, é preciso analisar aquilo que as Escrituras afirmam sobre o tema em questão.

3 – ETIMOLOGIA
A palavra traduzida como jejum, no Antigo Testamento, é tsûm, cujo significado aponta para a privação voluntária de alimentos como sinal de grande tristeza, por um período limitado. Curiosamente, esse termo técnico é, com frequência, substituído pela expressão “afligir a alma”, considerada em muitos textos (Lv 16.29,31; 23.27,32; Nm 29.7; 30.14) como equivalente ao termo jejum, o que revela o caráter introspectivo do rito. Já no Novo Testamento, emprega-se o grego nēsteia, que, tal como o termo hebraico, refere-se à abstinência de qualquer tipo de comida por um tempo determinado, seja por necessidade ou rito cultual.

4 - O JEJUM NO ANTIGO TESTAMENTO
Em primeiro lugar, cabe salientar que a Bíblia, em momento algum, ordena o jejum como prática diária, semanal ou mensal. Na verdade, só havia, na Antiga Aliança, um único dia no ano em que todo o povo de Israel deveria jejuar, a saber: o dia da expiação. “Neste dia, quando o templo ou o Tabernáculo ainda existiam, o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos para fazer expiação pelos pecados de Israel. Atualmente este dia é chamado de Yom Kippur” (TENNEY, 2008, p. 705). Isto era realizado por meio do sacrifício de um animal a fim de cobrir (ou esconder) os pecados de toda a nação (Lv 16.30), tal como sugere a raiz do verbo hebraico traduzido por “expiação” (kippur).
Esse evento anual não era somente um rito vazio. Além de apontar para a obra redentora de Cristo, o dia da expiação também sublinhava a gravidade do pecado, o qual era apontado como uma ofensa à santidade divina. Por conseguinte, precisava “[...] ser coberto, oculto da santa contemplação de Deus, mas nada pode fazer isso senão o sangue - o sangue de Cristo” (BANCROFT, 1986, p. 68). Esse aspecto da transgressão humana deveria produzir tristeza no homem. Em razão disso, os israelitas eram convocados a se entristecer, a afligirem suas almas (Lv 16.31; 23.27). Ao invés de festejar deveriam lamentar sua condição miserável através do jejum; não para se fortalecer espiritualmente ou para alcançar bênçãos de Deus, mas para reconhecer o caráter hediondo do pecado.
 O jejum estava tão intimamente ligado ao Yom Kippur, que o autor do livro de Atos referiu-se ao evento como “o jejum” (At 27.9), e o profeta Jeremias mencionou-o como “o dia do jejum” (Jr 36.6). Fílon chamou-o de “a festa do jejum” (TENNEY, op. cit., p. 706). Mesmo assim, como ressalta o Pr. Dinelcir de Souza Lima (2014), “ficar sem comer (no dia da expiação) não era um ato religioso em si, porém a consequência de um sentimento de profundo pesar pelo sacrifício do Cordeiro e, consequentemente, por causa dos próprios pecados”. Não havia a intenção de tornar Deus propício ao homem por meio do jejum. Isto era realizado pelo sacrifício oferecido. O jejum era, conforme foi dito acima, apenas uma expressão do lamento e tristeza pela iniquidade do povo.
No entanto, diante disso tudo, surge uma indagação: se os sacrifícios oferecidos pelo pecado eram limitados em seu caráter expiatório, sendo, na verdade, como destaca McGrath (2005), apenas o anúncio da morte sacrificial de Cristo, tendo, por isso, sido extintos; por que o jejum, prática associada diretamente à expiação veterotestamentária, deveria ser mantido, já que o evento que o justificava foi eliminado com o sacrifício vicário de Jesus?
Acerca disso, Tenney (op. cit., p. 706) assevera: “todas as cerimônias e rituais realizados naquele dia deviam simbolizar, o máximo possível, a expiação completa do pecado e a total remoção da causa do desagrado divino”. Seguindo esse raciocínio, também o jejum pode ser visto como um símbolo da tristeza pelo pecado que deve caracterizar os servos de Jesus Cristo (Mt 5.4), os quais lamentam pelos seus próprios pecados (Sl 51.4)  e pelos dos outros também (Fp 3.18).
      A despeito da coerência das ideias apresentadas acima, é provável que ainda pairem alguns questionamentos. Um deles, sem dúvida, é a respeito das outras ocorrências do jejum registradas no Antigo Testamento. Porque, como pensam alguns, esses textos justificam a utilização do jejum para a aquisição de bênçãos, para a busca de santidade, além de legitimar as convocações para abstinência coletiva. Porém, antes de analisarmos esses relatos, é importante fazer menção de um princípio hermenêutico que não pode ser negligenciado: um texto narrativo não é necessariamente normativo. Portanto, levando em conta que os demais textos onde o jejum aparece são narrativas históricas, não podemos, indiscriminadamente, tomá-los como regra. “As narrativas registram o que aconteceu – não necessariamente o que deveria ter acontecido ou o que deve acontecer todas as vezes” (FEE; STUART, 1998, p. 69).
      Nada obstante, é digno de nota que grande parte dos registros veterotestamentários acerca do jejum preserva a motivação original da abstinência, a saber: a tristeza (fosse pelo pecado ou por alguma outra espécie de mal). Isto porque, conforme ressalta Hendriksen (2001, p. 479), “havia uma base natural para os jejuns [...], uma vez que a tristeza esmagadora ou angústia produz a perda do apetite [...]”. Esta “base natural” fica patente na história de Ana, mãe de Samuel, a qual, diante da irrisão de Penina, “chorava e não comia” (1Sm 1.7). O mesmo acontece com Davi por ocasião da enfermidade de seu filho com Batseba. O texto bíblico relata que o rei ficou sem comer e sem dormir (2Sm 12.16,17).
Também nos jejuns coletivos, o lamento e a tristeza são os fatores propulsores, e não a busca de uma bênção especial. Em 1Sm 7.1-6, por exemplo, conquanto não haja uma convocação nacional, todo o povo jejua, reconhecendo sua iniquidade e lamentando por ela, tal como ocorria no dia da expiação. Não há indicação alguma de que o propósito do jejum era fazer com que Deus se voltasse para o povo. A condição apresentada por Samuel para a intervenção divina era a conversão ao Senhor (1Sm 7.3), e não a abstinência de alimentos. De igual modo, em Juízes 20.26, encontramos a mesma motivação para o jejum, uma vez que, após serem derrotados pela tribo de Benjamim, os demais israelitas manifestam sua tristeza diante do Senhor, derramando lágrimas e jejuando.
Até mesmo nas convocações nacionais, tão comuns no antigo Israel, a motivação era a tristeza; ainda que esta estivesse associada à aflição e à angústia. Sobre esse aspecto, Harris, Archer e Waltke (1998, p. 1272) asseveram que os jejuns públicos eram convocados “nas épocas das piores crises, tais como em tempos de pragas, de ameaça militar ou da morte de um rei”. Isto é visto claramente no episódio em que o rei Josafá, diante da ameaça dos Moabitas e Amonitas, promulgou um jejum em todo o país (2Cr 20.1-4). Seguindo esse raciocínio, o rei Jeoaquim proclamou um jejum na ocasião em que o exército babilônico avançava contra Israel (Jr 36.9). Esses jejuns, no entanto, não eram um meio de convencer Deus a intervir, mas a expressão de extrema dependência do Senhor associada ao lamento e o arrependimento pelo pecado.
Além do mais, nesses “jejuns nacionais”, o que se vê, de um modo geral, é a compunção e o arrependimento pelo pecado, e não um rito mágico que confere graças. Porquanto, para que Deus fosse com a nação de Israel, era necessária a observância dos mandamentos. Assim, quando algo ruim vinha sobre o povo, eles entendiam que estavam em pecado. Era hora de reconhecer o erro e se arrepender. Nesse ambiente de contrição, o jejum era adequado, não como meio para convencer Deus a ajudar, mas como expressão de um coração arrependido pelos delitos cometidos, tal como no dia da expiação.
Por conta dessa vocação melancólica, o jejum foi naturalmente introduzido nos ritos funerários[2]. Vemos isso de maneira bem clara no falecimento do rei Saul e de seus filhos, diante do qual jejuam Davi (2Sm 1.12) e os habitantes de Jabes (1Sm 31.13). De igual modo, por ocasião da morte de Abner, Davi não se alimentou até o pôr-do-sol (2Sm 3.35). Também, no livro de Ester, quando os judeus tomaram ciência do decreto real que ordenava o genocídio idealizado por Hamã, fizeram “grande luto” (heb. ēbhel - luto), com jejum, e choro, e lamentação” (Et 4.3), deixando claro que jejum e luto estavam associados. O estranho, entretanto, é Davi não jejuar pela morte de seu filho (2Sm 12.20,21).
Em síntese, sempre que o povo ou um indivíduo enfrentavam situações desesperadoras ou angustiantes recorriam ao jejum a fim de expressar seu lamento. Indubitavelmente, com o desenvolvimento da religião israelita, houve uma alteração nessa compreensão, como resultado do sincretismo que por muito tempo os caracterizou. Durante o reinado de Acabe, por exemplo, sua esposa, Jezabel, apregoou um jejum nacional de caráter religioso, desvirtuando o propósito estabelecido por Deus para o dia da expiação (1Rs 21.9). Essa convocação, de acordo com Philbeck Jr. (1986, p. 238), indicava “alguma culpa coletiva que traria calamidade, a menos que fosse eliminada da comunidade”. Deus nunca ordenara algo assim! Além disso, o objetivo daquela abstenção nacional era maléfico, a saber, o assassinato de Nabote (1Rs 21.10).
O mais interessante no episódio citado acima é que Acabe, que era israelita, após ser interpelado por Elias sobre o latrocínio que cometera com sua esposa, lamentou vestido de panos de saco e jejuou (1Rs 21.27), trazendo à tona o verdadeiro significado do jejum, a saber: o pesar pelo pecado. O jejum do rei, em momento algum, se caracterizou como um ato religioso. Ele não usou a abstinência como um meio para obter bênçãos ou para se tornar mais santo, mas para lamentar.
Possivelmente, o sincretismo religioso metamorfoseou o jejum em uma prática meritória e ritualística, condenada severamente pelo Senhor por intermédio de seus profetas. Um exemplo dessa degradação é registrado em Isaías 58, onde é dito que o povo, embriagado pela corrupção, buscava o favor divino através do jejum, chegando ao absurdo de cobrá-lo (Is 58.3). Por consequência, o profeta, a plenos pulmões, “[...] destacou que eles jejuavam não movidos pelo arrependimento, ou para observar festas religiosas importantes, mas apenas por prazer próprio. E o que lhes parecia prazeroso visava obter as bênçãos divinas” (CHAMPLIN, 2001, p. 2.953). A disposição íntima necessária ao jejum estava ausente! Conseguintemente, Deus usa Seu profeta para mostrar-lhes o jejum que O agrada. Este, com efeito, não consistia em sinais externos de lamentação, mas em manifestações de amor na relação diária com o próximo (Is 58.6-11). Mais do que deixar de comer, o Senhor queria que Seu povo vivesse a lei do amor, o maior de todos os mandamentos (Dt 6.5; Lv 19.18). “A essência está, não em coisas externas, mas na conversão de coração e vida; a pessoa deve rasgar o seu coração, e não as suas roupas” (RIDDERBOS, 2006, p. 474).
Mesmo quando o próprio Deus solicita que o povo jejue isto nada tem a ver com meras manifestações exteriores, mas com uma mudança interior: “convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto. E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus” (Jl 2.12,13a).  Perceba que, no referido texto, o jejum é acompanhado pelo choro, remetendo o povo ao propósito original da abstinência alimentar, a saber: a tristeza e o lamento pelos pecados cometidos.
Curiosamente, depois do exílio babilônico o número de jejuns calendáricos aumentou. Passou de um dia por ano para quatro (Zc 8.19). Entretanto, em cada uma dessas datas, mantinha-se o propósito original do rito. O jejum do quarto mês trazia à memória o dia em que a cidade de Jerusalém fora tomada por Nabucodonosor (Jr 52.6-11); o do quinto mês remetia o povo à destruição do templo (2Rs 25.8-10); o do sétimo mês, apontava para o assassinato de Gedalias, governador imposto por Nabucodonosor (2Rs 25.22-25); e o do décimo mês relembrava o dia em que Nabucodonosor iniciara o cerco contra Jerusalém.
Conquanto a observância desse calendário aparentasse fervor religioso, o remanescente judeu que retornara da Babilônia acabou se tornando apático em seu relacionamento com o Senhor. Essa apatia redundou em múltiplos pecados. Em virtude disso, Zacarias confrontou o povo, tal como fizera Isaías, acusando-o de jejuar ritualisticamente, visando interesses particulares (Zc 7.5,6). Em adição, o profeta denunciou as diversas transgressões que vigiam à época, as quais estavam muito mais ligadas à relação com o próximo do que com práticas litúrgicas. Ora, Deus nem havia ordenado aqueles jejuns!


Por que eles se preocupariam com algo que Deus não tinha ordenado, quando eram tão negligentes com aquilo que Ele exigira de maneira tão explícita tantas e tantas vezes através dos profetas pré-exílicos? É muito melhor obedecer a Deus em lugar de amontoar jejuns sobre jejuns (FEINBERG, 2001, p. 368).


Lamentavelmente, com o desenvolvimento do judaísmo, o jejum se estabeleceu, definitivamente, como prática meritória que os hipócritas usavam para mostrar sua santidade. “Os fariseus jejuavam duas vezes por semana (Luc. 18.12) e faziam disso um teste de piedade” (TURLINGTON, 1998, p. 153). Para tanto, evocavam a tradição de que Moisés subira o Sinai na segunda-feira e descera na quinta. Desse jeito, a adoração a outros deuses, problema que parecia ter ficado para trás com o exílio babilônico, ressurgiu sob nova roupagem. Agora as divindades eram “mamom, orgulho, provincialismo, sábado, jejum, rituais de purificação, e coisas semelhantes. Esses ‘deuses’ são mais sutis e mais perigosos do que os deuses grotescos e estranhos do paganismo” (op. cit., p. 192).

5 –  JESUS E O JEJUM
Como vimos até aqui, a Lei de Deus só prescrevia um único jejum ao longo do ano. Porém, com o passar do tempo, os jejuns se multiplicaram, sendo observados nas mais diversas circunstâncias: luto, emergência nacional, memorial, etc. Com o surgimento das sinagogas, “o ensino regular da Torah levou a uma ênfase renovada sobre o sábado, a circuncisão e o jejum” (BROADUS, 1983, p. 8), que culminou na predominância de uma concepção ascética da abstinência alimentar. “A ‘fome’ de jejum, porém, foi aumentando, a ponto de os exageros terem de ser proibidos. Havia rabinos que passavam fome em 300 dias do ano, sempre das 6 às 18 horas” (POHL, 1998, p. 94).
Para os fariseus, o jejum, como sinal de lamentação pelos pecados, “ganhava a aprovação de Deus em preparação para o dia do julgamento. Eles não somente assim praticavam e ensinavam, mas em seu papel de defensores das tradições, protestavam quando outros não o faziam” (MULHOLLAND, 2005, p. 61). Inobstante, o jejum individual, além do preconizado pela Lei (que era coletivo), não era exclusividade da religiosidade farisaica. Muitos judeus piedosos observavam essa prática. O próprio João Batista “se apresentou como asceta, sendo o jejum característico de sua seita” (BULTMANN, 2005, p. 39). Decerto, o Batista encorajou esse rito como uma expressão de tristeza pelo pecado, e não como meio de obter bênçãos ou persuadir Deus. Da mesma sorte, os essênios[3] jejuavam habitualmente. Assim também procediam algumas mulheres piedosas (Lc 2.37).
Estranhamente, em um ambiente em que grande parte da população jejuava com frequência, o Messias prometido não incentivava seus discípulos a fazê-lo. Percebendo isso, os seguidores de João Batista[4] foram até Jesus e indagaram: “por que jejuamos nós, e os fariseus, muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam” (Mt 9.14)? Esta pergunta, contudo, não possuía apoio nas Escrituras, uma vez que o único jejum normativo era o do dia da expiação. Ademais, “de acordo com o ensino de Isaías 58.6,7 e Zacarias 7.1-10, não era um jejum literal que Deus requeria, mas o amor, tanto no sentido vertical, quanto horizontal” (HENDRICKSEN, 2003, p. 133).
A despeito da compreensão de seus inquiridores acerca do jejum, Jesus, retomando seu significado original (lamento e tristeza em situações desesperadoras), respondeu que o jejum só teria lugar quando o “noivo” (Cristo) fosse tirado deles (Mt 9.14,15). Com isto se referia à Sua crucificação. “Então, os seus discípulos experimentariam intensa tristeza, por algum tempo, até que a sua tribulação fosse transformada em alegria pela ressurreição” (TASKER, 2006, p. 78). Mas, enquanto o “noivo” permanecesse, não haveria necessidade de jejuar. Porque, “na época messiânica da alegria os velhos ritos de lamentação não fazem mais sentido” (BULTMANN, 2005, p. 77). Note que, em momento algum, o Mestre ordena que seus discípulos jejuem, apenas assevera que, diante de tamanha tristeza, inevitavelmente, jejuariam. Afinal, o Consolador só seria concedido após a ressurreição e ascensão de Cristo (Jo 16.7).
A analogia usada pelo Mestre é bem própria, visto que, durante o cortejo nupcial, “o noivo, com a cabeça adornada com um diadema, Ct 3.11; Is 61.10, acompanhado por seus amigos com tamborins e músicas, I Mb 9.39, dirigia-se à casa da noiva” (VAUX, 2004, p. 56). Por ocasião dessa celebração, os convidados ficavam dispensados da obrigação de jejuar, para que a alegria não fosse esmaecida. Com isso, Jesus liga o jejum à tristeza e sua presença a uma alegria tão grande que leva ao festejo, mostrando que jejuar na Sua companhia seria praticamente uma ofensa; o mesmo que os amigos do noivo não o acompanharem no cortejo. Certamente, isso deve ter mexido com a cabeça dos ouvintes, haja vista que, no Antigo Testamento, o noivo de Israel era o próprio Deus (Os 2.14-20).
Semelhantemente, as parábolas do remendo e do vinho novo empregadas por Jesus naquela ocasião (Mt 9.16,17), salientavam que as boas novas trazidas por Ele não tinham nada a ver com o ritualismo judaico. “O que ele viera fazer era dinâmico e revolucionário, e não podia ser contido em velhas fórmulas como jejum e sabatismo” (TURLINGTON, 1988, p. 168). O novo Israel é incompatível com o velho.  “O vinho novo do perdão messiânico não seria conservado nos remendados odres do legalismo judaico” (TASKER, 2006, p. 78).
Outra verdade que salta aos nossos olhos nesse episódio é o fato de que o próprio Cristo doutrinara seus seguidores a não jejuar. Isto fica evidente quando levamos em conta alguns elementos. Primeiro: alguns dos seguidores de Jesus haviam sido discípulos de João Batista (João 1.35-40); segundo: todos os discípulos eram judeus (e o jejum fazia parte da cultura judaica). Ora, os discípulos de João jejuavam. Por que os que se passaram a seguir Jesus abandonaram essa prática? Além disso, todo judeu piedoso costumava jejuar. Por que eles não jejuavam? Jesus ainda nem havia dado aquela explicação e eles já não observavam o jejum fora do dia da expiação. Creio que a única razão plausível para essa anomalia era o ensinamento e o exemplo dado pelo Mestre. Do contrário, por qual razão agiriam dessa forma? E, se Jesus era a favor do jejum, por que não chamou a atenção deles? Afinal, a Bíblia diz que eles não jejuavam (Mc 2.18).
Por conta dessas e de outras questões, concluo que os cristãos não precisam jejuar. O Mestre nunca exigiu isso de seus discípulos! Na verdade, como vimos, Ele ensinou que na presença do noivo o jejum é desnecessário. A noiva (a igreja) está sempre na presença do noivo! O Cristo ressurreto nos garantiu isso quando disse: “eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt 28.20). Em adição, o sacrifício vicário realizado por Jesus eliminou por completo a necessidade de um “dia da expiação”.
É importante frisar também que, em João 14.16, Jesus asseverou aos discípulos que o Pai daria “outro consolador”. O contexto da passagem em pauta dá a ideia de outro da mesma natureza, ou seja, um substituto à altura. Quando Jesus estava fisicamente presente, seus discípulos não precisavam jejuar. Agora que o Espírito Santo, que é igualmente divino, está conosco, por que teríamos essa necessidade? Somos habitação do Espírito Santo (1Co 3.16), por que andaríamos tristes?
  A esse respeito, considero a afirmação de Rudolf Bultmann, renomado teólogo alemão do século XX, bastante relevante:


[...] Jesus não pedia nenhum tipo de ascese, e isso é bem característico de toda sua atitude e mostra como Ele vê a posição do ser humano perante Deus. Pois a exigência da ascese baseia-se na concepção de que, por meio de seu comportamento, o ser humano pode angariar para si mesmo uma certa qualidade ideal ou santa, que adere a ele como estado do ser (BULTMANN, 2005, p.110-111).


      Seguramente, o ascetismo não coaduna com o ministério de Jesus. Ele próprio foi chamado de “comilão e beberrão” (Mt 11.19)! Se jejuar fosse um recurso para o fortalecimento espiritual ou para o aumento da santidade, por que Jesus e seus discípulos não o observavam? Se somente Jesus, o Deus encarnado, não jejuasse, seria bem fácil de compreender; mas, por que Ele não motivou seus seguidores (homens falhos, pecadores) a fazê-lo? Não é estranho que o Novo Testamento registre várias ocasiões em que o Filho de Deus orou (Mt 26.39; Mc 1.35; Lc 5.16; 6.12; 9.18; 11.1; Jo 17.1), enquanto existe apenas um episódio (que analisaremos mais adiante) em que, por força das circunstâncias, Ele teve de abster-se de alimentos (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13)? Ademais, se o jejum é uma prática válida para a igreja, por que nenhuma das epístolas neotestamentárias nos concita a realizá-la?
O mais estranho, entretanto, é que Jesus, mesmo tendo orientado seus discípulos a não jejuar, ensinou, no sermão do monte, como deveria ser feito o jejum (Mt 6.16-18). Seria isso uma contradição? De maneira nenhuma. Seu discurso trata daquilo que era comum entre os judeus da época, os quais ainda observavam dois jejuns coletivos: o dia da expiação e o nono dia do mês de Aḇ (julho/agosto), promovido com o propósito de recordar a destruição do templo por Nabucodonosor (em 586 a.C.). Como o dia da expiação só seria extinto mediante o sacrifício perfeito oferecido pelo Filho do Deus vivo, fazia todo sentido, antes da crucificação, tratar de algo diretamente vinculado àquele dia. Até porque, seus ouvintes, inevitavelmente, participariam daquela cerimônia. No entanto, sua intenção não era ratificar ou incentivar a observância do jejum, mas condenar a hipocrisia farisaica levada à cena por meio das três expressões de “justiça” reconhecidas pela comunidade judaica daquele tempo, a saber: a contribuição caritativa, a oração e o jejum.     
Por certo, Jesus queria que seus discípulos compreendessem que a verdadeira religião deveria ter Deus como centro, e não o homem. Portanto, quando, na prática de sua tradição religiosa, tivessem de jejuar, teriam de fazê-lo da maneira mais discreta possível, ungindo a cabeça e lavando o rosto, ao contrário dos fariseus, que buscavam o reconhecimento do povo. Essa admoestação se aplica também às esmolas e à oração, as quais deviam ser realizadas em secreto, como atitudes sinceras de adoração a Deus.
Todavia, ainda que concluamos que Jesus, em Mateus 6.16-18, não incentivou o jejum, mas apenas redirecionou o foco da devoção religiosa, e que, na Nova Aliança, jejuar é desnecessário, resta uma pergunta: por qual razão Cristo jejuou? Para responder a esse questionamento é necessário recorrer à narrativa evangélica, a qual declara: “então, foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mt 4.1).
 O texto é claro, Jesus foi ao deserto para ser tentado, não para jejuar. Contudo, no deserto, água e comida são coisas escassas. Sendo assim, mesmo que Jesus quisesse comer ou beber, seria difícil conseguir alimento ou bebida. Não obstante, surge outra pergunta: Ele não poderia ter levado mantimentos? Ora, a sua ida ao deserto tinha como objetivo submetê-lo à tentação. Como fazê-lo se a própria Bíblia afirma que Deus não pode ser tentado (Tg 1.13)? O único meio de tentá-lo seria através da fraqueza inerente à natureza humana, visto que, na ocasião, Jesus estava na condição de Deus-homem. Por conta disso, Ele não se alimentou. Embora na narrativa de Mateus o diabo só apareça quando Jesus sente fome, Lucas relata que, durante os quarenta dias nos quais Ele “não comeu coisa alguma” (Lc 4.2), satanás o tentou constantemente. Apesar disso, a ênfase nos dois textos é que, a partir do momento que Ele teve fome, as investidas satânicas se intensificaram.
O “jejum” de Jesus não teve nenhuma conotação cerimonial ou religiosa. Na realidade, não faria sentido algum se Ele jejuasse, até mesmo, dentro da perspectiva original do jejum, haja vista que não possuía pecado (1Pe 2.21,22). Logo, não poderia lamentar ou se entristecer por seus pecados, como fazia o povo. Analogamente, jejuar em razão de uma crise seria completamente impróprio, visto que o Espírito Santo acabara de descer sobre Ele como uma pomba, por ocasião de Seu batismo, e o Pai pronunciara a famosa frase: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Um jejum em busca de fortalecimento espiritual também está fora de cogitação, porque, como destacou Lucas, Ele estava “cheio do Espírito Santo” (Lc 4.1).
À semelhança de Moisés, Jesus jejuou por quarenta dias e quarenta noites (Êx 34.28; Mt 4.2). Aparentemente, o episódio aponta para Cristo como o Moisés maior, que se retirara a fim de trazer boas novas ao Seu povo. Acerca disso, Hendricksen sublinha que Jesus


estava bem consciente de ter seu Pai desejado submetê-lo à disciplina deste jejum precisamente pelo mesmo propósito de Israel ter “sofrido fome” no deserto; foi para que a suprema lição pudesse ser aprendida, no sentido de que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor (Dt 8.3). O Pai, que o havia chamado e submetido à tentação, haveria de prover a bom tempo as necessidades físicas de seu Filho. O dever de Jesus era ser obediente ao chamado, e não decidir por si próprio quanto ao momento ou à maneira como seu jejum haveria de terminar (HENDRICKSEN, 2001, p. 42).


Definitivamente, sentir fome é algo terrível. Uma pessoa faminta é capaz de qualquer coisa para saciar sua fome. É o instinto de sobrevivência! Levando isso em conta, pense comigo: qual seria o melhor momento para satanás tentar Jesus? Quando estivesse tudo bem, ou no momento em que seu corpo estivesse debilitado? É claro que a segunda opção seria a mais atraente. Portanto, a conclusão lógica diante do texto em pauta é que o “jejum” de Jesus foi o que deu ocasião para a tentativa de Satanás. Ademais, diferente de Mateus, que escreve para um público judeu, Lucas diz apenas que Jesus não comeu coisa alguma, não que jejuou. Alguns podem objetar, dizendo: - ah, mas ele só não destacou isso porque escrevia a um gentio. Porém, em Lc 5.33-39, é relatado um episódio onde a palavra jejum é usada, sem se explicar o significado. Isto porque, o evangelista entendeu que seus leitores saberiam exatamente do que se tratava. Afinal de contas, conforme foi explicado anteriormente, jejuar nunca foi uma prática exclusiva do judaísmo. Assim, o fato de Lucas não utilizar a palavra jejum no capítulo 4, reflete sua compreensão de que a abstinência alimentar de Jesus tinha um propósito diferente do jejum judaico.
A vitória do Filho de Deus sobre as tentações diabólicas não foi resultado do jejum. Este, ao contrário, foi o que forneceu o cenário perfeito para a ação do príncipe deste mundo. Jesus venceu com uma arma mais poderosa: as Escrituras Sagradas. Estas devem, sem dúvida alguma, fazer parte de nossas vidas. O jejum, por outro lado, não é necessário. Isto não quer dizer, contudo, que devamos abraçar a glutonaria. A Bíblia é bem clara ao alistar a falta de moderação na comida como pecado (Lc 21.34; Cl 3.5).
Mas, se é assim, por que Jesus asseverou que existem castas de demônios que só podem ser expulsas mediante a oração e o jejum (Mt 17.21)? Sinceramente, considero esdrúxula a ideia de que a expulsão de espíritos imundos só possa ser executada por cristãos de barriga vazia. Mais estranho ainda é o fato de que nos três evangelhos em que esse episódio é narrado, também é relatada a declaração de que, enquanto o Noivo estivesse com os discípulos, o jejum seria desnecessário. Ao que parece, os defensores do jejum não levam isso em consideração. Até porque, se levassem, deveriam perceber a aparente contradição entre os ditos de Jesus. Em um dado momento diz que o jejum é desnecessário, mas noutro afirma que é imprescindível! Como resolver isso?
   Bem, acredito que o propósito de Jesus não era regulamentar o jejum como instrumento para expulsão de demônios. Porquanto, se fosse esse Seu objetivo, creio que, ao proferir suas últimas palavras antes de ascender aos céus, teria inserido essa doutrina, dizendo: “em meu nome, e fazendo jejum, expulsarão demônios”. Entrementes, apenas declarou: “em meu nome, expulsarão demônios” (Mc 16.17b). É óbvio que a fé em Cristo era o diferencial, não o jejum. Por isso, o Mestre afirmou: “estes sinais seguirão aos que crerem” (Mc 16.17a).
Quanto à narrativa em que Jesus fala sobre a necessidade do jejum e da oração (Mt 17.14-21), penso que há alguns aspectos de suma importância, que, geralmente são desconsiderados. O primeiro deles é que, embora Jesus tenha feito a advertência acerca do jejum, Ele mesmo não jejuou (pelo menos o texto não dá indicações disso). Como expulsou o demônio, então? O segundo aspecto a ser levado em conta é que a afirmação de Jesus diz respeito somente àquela casta. Em momento algum, Ele aponta sua observação como regra geral para a expulsão de demônios. Daí surge, naturalmente, algumas dúvidas: como podemos saber quando estaremos diante daquele tipo de casta? Mesmo sabendo, como jejuaremos antes? Marcaremos horário para expulsão de demônios? O terceiro ponto é que, anteriormente, os mesmos discípulos haviam expulsado demônios, sem jejuar (Mc 6.12,13). Por que nesse episódio não conseguiram fazê-lo?
Decerto, as respostas para os questionamentos acima se encontram no texto bíblico. Senão vejamos, em Mateus 17.17, Jesus deixa transparecer a razão da incapacidade dos discípulos, pois diz: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei eu convosco e até quando vos sofrerei”? Com essa assertiva, Cristo mostra sua insatisfação com todos os presentes:


com o pai, a quem faltou fé suficiente no poder de Cristo para curar (Mc 9.22-24); com os escribas, que, em vez de demonstrar alguma piedade, estavam com toda probabilidade se deliciando maliciosamente com a incapacidade dos discípulos (Mc 9.14); com a multidão em geral, que é retratada nos Evangelhos como estando geralmente mais preocupada consigo mesma do que com os outros (Jo 6.26); e, por fim, mas não menos importante, com os nove discípulos, porquanto haviam deixado de exercer a sua fé, e de se dedicar totalmente à oração perseverante (Mc 9.29) (HENDRICKSEN, 2001, p. 42).


Foi justamente nesse ponto que o demônio encontrou ocasião para resistência: na falta de fé. Ao que tudo indica, eles não confiavam integralmente no Senhor. Isto é claramente exposto por Jesus em sua resposta aos discípulos, que o interrogavam sobre a razão de seu fracasso: “Por causa da vossa pequena fé” (Mt 17.20a). Essa referência à pouca fé também aparece nos relatos de Marcos e Lucas, quando Jesus os chama de “geração incrédula” (Mc 9.19; Lc 9.41). Semelhantemente, em seu diálogo com o pai do menino endemoninhado, Jesus destaca: “tudo é possível ao que crê” (Mc 9.23c).
A falta de fé é tão evidente que Jesus ressalta: “se tiverdes fé como um grão de mostarda...” (Mt 17.20). O uso da conjunção condicional “se” (grego ean), indica que se trata de uma fé que os discípulos não possuíam. Nessa comparação Cristo se remete a uma semente minúscula que dá origem a uma conspícua árvore, tão grande, que diversas aves fazem nela seus ninhos. Por conseguinte, o ensinamento dessa parábola é que eles precisavam ter um “tipo de confiança em Deus que não desiste imediatamente nem cede ao desespero quando seus esforços não alcançam êxito imediato” (HENDRICKSEN, 2001, p. 245), levando o indivíduo a um relacionamento íntimo e ininterrupto com o Criador, que o fará “orar fervorosamente, sabendo que Deus, em seu tempo próprio e a seu próprio modo, concederá a bênção” (loc. cit.). Jesus conclui sua metáfora com a frase: “e nada vos será impossível” (Mt 17.20). Ou seja, se eles tivessem aquele tipo de fé, até aquilo que lhes parecera impossível (expelir a casta de demônios), poderia ser realizado.
  Visto isso, fica patente que os discípulos tentaram expulsar o demônio por sua própria autoridade, sua própria força. Mas o homem não possui autoridade própria. A autoridade é prerrogativa do Filho de Deus (Mt 28.18). Foi Ele quem amarrou o valente (Mt 12.28,29)! Os discípulos nem mesmo oraram! Tentaram resolver do seu jeito! Tanto, que Jesus diz que faltou oração (Mt 17.21).
Indubitavelmente, “se há uma fé pequena, há também uma oração pequena. Da mesma maneira, onde existe uma abundância da fé perseverante e genuína, também há uma oração incessante e fervorosa” (HENDRICKSEN, 2003, p. 447). “A oração é a expressão verbal da fé em Deus e da dependência completa nele (11.22-25). Pela oração se pede a Deus fé para vencer a descrença” (MULHOLLAND, 2005, p. 147).
Inobstante, qual o lugar do jejum nesse contexto? Bem, de acordo com teólogos de grande envergadura, tais como William Hendricksen, Adolf Pohl, R.V.G Tasker, Frank Stagg e Russel Norman Champlin, o versículo que diz que a “casta de demônios não se expulsa senão pela oração e pelo jejum” (Mt 17.21), não consta dos manuscritos gregos mais antigos do Novo Testamento. Estas palavras seriam, segundo esses escritores, acréscimos feitos por copistas que viveram num tempo no qual o jejum gozava de grande prestígio. Por essa razão, em algumas versões das Escrituras, o versículo citado aparece entre colchetes. O mesmo acontece com o texto de Marcos, pois, “a adição de ‘e jejum’ não aparece nos dois manuscritos gregos mais antigos (Aleph e B) [...] Mas é desnecessária e também infiel. Foi a oração que os nove discípulos não fizeram” (ROBERTSON, 2011, p. 459). A Bíblia de Jerusalém, inclusive, nem traz essa palavra. Em Marcos 9.29, seu texto diz assim: “Ele respondeu: essa espécie não pode sair a não ser com oração”. Partindo dessa premissa, alguns descartam o jejum como instrumento para viabilizar a expulsão de demônios.
É bem verdade que essa conclusão se baseia na edição do texto grego, conhecida como Novum Testamentum Graece, produzida por Eberhard e Erwin Nestle e Kurt Aland, entre os séculos XIX e XX, que se trata de uma reconstrução do Novo Testamento a partir de manuscritos considerados mais antigos. Chamada também de texto crítico, essa edição, posto que seja bem aceita no meio acadêmico, não goza de unanimidade. A ala mais conservadora do Protestantismo prefere o Textus Receptus, obra baseada nas edições de Boaventura Elzevir e Abraão Elzevir, realizadas no século XVII, que sucedeu as edições de Erasmo de Roterdã (1516) e de Teodoro Beza (1565). Por conta disso, muitos rejeitam a interpretação mencionada no parágrafo anterior.
Todavia, penso que, mesmo baseados na versão tradicional das Escrituras, o Textus Receptus, podemos concluir que Jesus não ensinou a aquisição de “poderes espirituais” por meio de hábitos ascéticos. Para tanto, basta recorrer a um dos princípios básicos da hermenêutica, a saber: a consulta de passagens paralelas. Quanto a estas, Lund e Nelson (2001, p. 40) observam que “há paralelos de palavras, paralelos de ideias e paralelos de ensinos gerais”. Em relação aos paralelos de palavras, os autores citados esclarecem que se trata de buscar o verdadeiro significado de uma palavra ou expressão “consultando outros textos em que ela ocorre” (loc. cit.). No tocante aos paralelos de ideias, eles comentam:


Para conseguir a ideia completa e exata do que ensina a Escritura neste ou naquele texto determinado, talvez obscuro ou discutível, consultam-se não só as palavras paralelas, mas os ensinos, as narrativas e fatos contidos em textos ou passagens esclarecedoras que se relacionem com o dito texto obscuro ou discutível. Tais textos ou passagens chamam-se paralelos de ideias (op. cit., 2001, p. 46).


    Seguindo essa linha, a fim de interpretar corretamente a passagem bíblica em tela, temos de levar em conta a maneira como Jesus empregou o termo “jejum” em outras ocasiões. Porque, provavelmente, o sentido pretendido em Mateus 17.21 e Marcos 9.29 é o mesmo.
 Ao vasculhar as Escrituras, encontramos quatro episódios nos quais Jesus usa a palavra grega nēsteia (jejum). A primeira vez ocorre em resposta ao questionamento feito pelos discípulos de João Batista (Mc 2.18-22, Mt 9.14-17, Lc 5.33-39). Naquela ocasião, como já foi elucidado anteriormente, o termo foi usado no contexto cultual, aludindo à expressão de tristeza e lamento diante de uma situação desesperadora, tal como ocorria no dia da expiação. Em seguida, no Seu famoso “sermão da montanha”, Jesus, lançando mão das três práticas associadas à retidão (esmolas, oração e jejum), condenou a hipocrisia farisaica e motivou uma devoção sincera (Mt 6.1-18). Nessa perícope, o grego nēsteia também é empregado no seu sentido cultual, cuja motivação era conjuntural, não tendo nenhuma relação com o acúmulo de “poder” para expelir espíritos malignos. No terceiro momento em que Jesus profere o termo, Sua intenção era, claramente, destacar que as pessoas estavam famintas (Mt 15.32; Mc 8.3). Não há nenhuma referência a práticas religiosas. Já em Mateus 17.21, esta última aplicação, definitivamente, não se enquadra no contexto. Logo, Cristo mencionou o jejum tendo em mente o relacionamento com Deus. Mas, como Ele entendia esse tipo de devoção? Do jeito que a Lei normatizara: o jejum como manifestação da alma aflita, angustiada, triste por ter ofendido a santidade divina.
Observando a resposta de Jesus ante o fracasso dos discípulos, a partir dessa perspectiva, fica fácil concluir que a menção ao jejum (Mt 17.21) ressalta o sentimento de criatura, que deve caracterizar o seguidor de Cristo, levando-o a reconhecer sua miséria e dependência do Todo-poderoso. Isso tem tudo a ver com o dia da expiação, visto que naquela cerimônia a miserável condição humana ficava patente. Todos, inclusive o sumo sacerdote, precisavam do sacrifício de um animal para cobrir seus pecados (Lv 16.11-15). Isto é, todos eram pecadores. Todos careciam da misericórdia divina para não serem consumidos (Lm 3.22). É esse sentimento de nulidade, de dependência que Jesus esperava de Seus discípulos, e não mero rito. Isso sim é necessário para expelir qualquer casta demoníaca: uma fé perseverante e extremamente dependente do Pai. Até porque, à luz do contexto, é isso que podemos depreender.


Contudo, não há vitória automática para aqueles que seguem a Jesus. Deus continua mantendo o controle sobre seu poder. Imaginar que seja nosso poder, sob nosso controle, e à nossa disposição, ‘é o mesmo que descrença, pois seria, de fato, confiar em nós mesmos em vez de em Deus’ (Cranfield, 305). Um ministério eficaz não é conseqüência de habilidade pessoal, sucessos anteriores ou programas. Um ministério eficaz começa com dependência em Jesus que se expressa na oração confiante e leva os que sofrem à fé em Jesus e à libertação do domínio satânico (MULHOLLAND, 2005, p. 147,148).


      O problema principal no episódio em questão não era o “poder” ou a “resistência” da casta de demônios, mas a pequena fé dos discípulos (Mt 17.20; Mc 9.19). Eles estavam cheios de si, achando que, porque haviam expulsado demônios noutras ocasiões (Mc 6.12,13), poderiam fazê-lo outra vez. Por isso, Jesus os alerta sobre a necessidade de reconhecer sua verdadeira condição de pecadores, a miséria de sua alma. Pois, só assim, dependendo do Senhor, poderiam expulsar demônios. Foi desse jeito que foram enviados em Mateus 10. Afinal, como diz o texto, Ele mesmo lhes deu “poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem” (Mt 10.1). Ou seja, o poder é dEle (Sl 62.11)! Só podemos expelir demônios na dependência dEle! Não foi o jejum que proporcionou isso em Mateus 10, mas a liberdade soberana de Cristo. Aliás, se você atentar para o texto citado, verá que até Judas recebeu esse “poder”. Isto revela que não há como merecer isso por meio de práticas rituais ou consagratórias. Dependemos da benevolência de Deus.
     Se acharmos que o jejum nos concede “poder” para expelir espíritos imundos, estaremos confiando no que fazemos, e não no Senhor. Por isso, Jesus destaca a importância da oração e da fé, as quais têm muito mais a ver com a graça do que o jejum. Este, na verdade, permanece fincado na lei, sendo um de seus aspectos exteriores, tal como a circuncisão.
    Enfim, Jesus não queria que seus discípulos jejuassem para expulsar demônios, mas que trouxessem à tona o sentimento que caracterizava o jejum originalmente, a saber: a tristeza e o lamento pelo pecado. Isto é, só o reconhecimento da miséria humana, enquanto raça pecadora, pode levar à dependência do Senhor, e só Ele pode conceder poder para expelir espíritos imundos.
      Não estou afirmando, com isso, que o Mestre os proibiu de jejuar. Absolutamente. Acredito que Ele não proibiu e nem motivou. Apenas disse que era desnecessário (Mt 9.14-17; Mc 2.18-22). Em algumas poucas ocasiões utilizou o exemplo do jejum, como elemento da cultura a que se dirigia, visando transmitir uma mensagem mais profunda, que apontasse para a verdadeira devoção a Deus, como fica evidente em Mateus 6.1-18. Nada mais do que isso.

6 - O JEJUM NA IGREJA PRIMITIVA
Após a ascensão de Cristo, muitos de seus discípulos mantiveram diversos costumes e ritos judaicos. Em consequência disso, houve embates e discussões acerca da viabilidade de algumas práticas. O Concílio de Jerusalém (At 15) é um exemplo claro disso. Esses debates visavam estabelecer os limites entre a lei judaica e a espiritualidade cristã. Isto porque, naquela época, a maioria ainda via a lei como elemento determinativo de sua religiosidade, dado que o Novo Testamento ainda não havia sido escrito.  
Assim, na comunidade de Jesus Cristo, “logo surgiu o costume do jejum regular como imitação do costume judeu de jejuar dois dias por semana; mas, para essa comunidade, esse costume tampouco constituía um sinal de ascese, isto é, um meio de atingir a santidade” (BULTMANN, 2005, p.110). Essa assimilação de práticas judaicas foi tão forte que em um manuscrito não canônico chamado didaqué (escrito perto do final do primeiro século), tanto o jejum quanto a oração foram normatizados com base na cultura judaica.
Acerca do jejum, o manuscrito mencionado traz a seguinte declaração: “Os seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Porém, você deve jejuar no quarto dia e no dia da preparação (sexta-feira)” (Did. 8.1). Esta frase refere-se, claramente, ao costume farisaico de jejuar duas vezes na semana (Lc 18.12), na segunda e na quinta. A fim de evitar comparações, os cristãos primitivos deveriam jejuar na quarta e na sexta. A mesma orientação é dada na Didascalia Apostolorum, documento redigido no início do terceiro século d.C.
Não se trata, no entanto, de uma apropriação cultural, mas de enxergar o cristianismo como continuação do judaísmo. Isto é tão evidente que, no mesmo capítulo do referido livro, os leitores são orientados a orar três vezes ao dia, tal como faziam os judeus. “Não ore como os hipócritas, mas como o Senhor ordenou em seu Evangelho. [...] Orem assim três vezes ao dia” (Did. 8.2,3). Jesus e seus apóstolos não ordenaram nada disso! Inclusive, no evangelho de João, escrito no final do primeiro século, quando “as relações com o judaísmo tinham-se deteriorado até o ponto de ruptura” (HULL, 1988, p. 238), a abstinência alimentar com fins religiosos nem ao menos é mencionada. Isto, certamente, é resultado do desenvolvimento de uma teologia marcadamente cristã, fundamentada no Antigo Testamento, mas divorciada do judaísmo.
Outro manuscrito apócrifo, conhecido como “epístola de Barnabé” (escrito entre 134 e 135 d.C), pertencente ao códice sinaiticus (cerca de 350 d.C), um dos exemplares mais antigos das Escrituras, trata do jejum nos mesmos termos do profeta Isaías, destacando que o que agrada a Deus não é a mera abstinência de comida, mas a prática diária da justiça. O mesmo é afirmado em outro livro apócrifo, também presente no códice sinaiticus, denominado “o pastor de hermas” (Escrito entre 142 e 155 d.C).
Ao nos voltarmos para as Escrituras neotestamentárias, verificamos também que, fora os evangelhos, há várias ocorrências da palavra jejum, mas em nenhuma delas jejuar aparece como uma ordenança para a igreja. Em Atos dos apóstolos, por exemplo, encontramos uma referência direta ao dia da expiação (At 27.9), o que não constitui uma ordenança, uma vez que essa cerimônia perdera seu valor após o sacrifício vicário de Cristo. Da mesma maneira, por ocasião do comissionamento de Paulo e Barnabé para o campo missionário, é relatado que os crentes antioquenos jejuavam enquanto cultuavam a Deus (At 13.1-4). Obviamente, por ser um texto narrativo, apenas relata aquilo que alguns dos primeiros cristãos faziam (os quais eram, em sua maioria, de origem judaica). Lembre-se: um texto narrativo não é necessariamente normativo. Não há indicação alguma no livro de Atos de que devamos imitar o procedimento daqueles cristãos. Este não era o propósito do texto, mas sim destacar a chamada missionária de Paulo e Barnabé. Se tivéssemos que jejuar simplesmente porque eles jejuaram, teríamos de rapar a cabeça também, pois Paulo rapou (At 18.18). Você percebe o absurdo que é?
O mesmo acontece em relação ao jejum de Cornélio. Porque, conquanto fosse gentio, 


No decorrer de sua carreira militar, Cornélio havia se inteirado da religião judaica e a havia abraçado como alguém temente a Deus. Isso quer dizer que ele frequentava os cultos dos sábados na sinagoga local e observava o sábado como dia de descanso. Cumpria as leis judaicas de restrições alimentares, dava generosamente contribuições materiais para aliviar as necessidades dos pobres e orava diariamente em determinados horários No entanto, não consentia com a circuncisão e o batismo e se abstinha de oferecer sacrifícios. Desse modo ele seguia o exemplo de inúmeros gentios que adoravam a Deus, mas não eram admitidos na comunidade judaica (KISTEMAKER, 2003, p. 485).


     Essa tensão entre a fé judaica e outras etnias, acabou adentrando a igreja primitiva. Assim, a fim de delimitar o que era exclusivamente para o judeu e o que englobava os cristãos gentios, foi convocado um concílio na cidade de Jerusalém. Naquela ocasião, ficou estabelecido que os aspectos exteriores da lei, como a circuncisão, não seriam observados pelos gentios. Estes, porém, teriam de se abster dos elementos fundamentais do paganismo: os alimentos oferecidos aos ídolos, a imoralidade sexual, animais estrangulados e o consumo de sangue. Veja: nessa relação não aparece nenhuma orientação sobre o jejum. Afinal, ele pertencia à lei cerimonial, a qual fora extinta de uma vez por todas por Jesus Cristo. Por consequência, todo o ritualismo veterotestamentário deve ser extirpado da igreja. A fé cristã não deve ser ritualista, exterior, mas viva, plena, interior. Devemos circuncidar os prepúcios de nossos corações (Dt 10.16)!
      Contudo, muitos pensam que, já que o apóstolo Paulo jejuou, os cristãos atuais devem praticar o jejum. Apesar disso, os textos citados para justificar os “jejuns paulinos”, na realidade, não os justificam. Senão vejamos: em Atos 9.9, embora alguns digam que o apóstolo jejuou, a palavra grega traduzida como jejum (nēsteia) não é empregada. Utiliza-se apenas esthío (comer) e píno (beber). Porquanto, “sua abstinência não foi uma forma de exercício espiritual. Mas devido a um estado de choque, consequente à experiência recente” (SMITH, 1994, p. 79).
     A mesma ideia está presente nos outros dois textos em que Paulo diz ter jejuado. Em 2Coríntios 6.5, posto que o grego nēsteia apareça, pelo contexto podemos facilmente depreender que a relação apresentada diz respeito às “dificuldades que Paulo arrostava voluntariamente, ao se desempenhar do seu ministério” (BEASLEY-MURRAY, 1988, p. 66), e não a uma prática cultual. O apóstolo sofreu de fato fome. Isto foi relatado aos coríntios em sua primeira carta (1Co 4.11).
     Em 2Coríntios 11.27, nos deparamos com um texto paralelo ao supracitado. Por conseguinte, como dissemos acima, ainda que o termo técnico para jejum (nēsteia) seja empregado, não se trata de uma observância religiosa. “Ele suporta essas privações pela causa de Cristo, não no sentido de jejum voluntário, mas por penúria. Contudo sabe que não tem motivo para se preocupar, porque Deus satisfará todas as suas necessidades” (KISTEMAKER, 2003b, p. 550).
   Finalmente, concluímos que não há no Novo Testamento nenhuma ordem relativa à observância do jejum. Por outro lado, existem ordens sobre a prática da oração (1Ts 5.17), do batismo (Mt 28.19), da Ceia (Lc 22.19) e do estudo das Escrituras (2Tm 2.15). Se fosse tão importante quanto alguns advogam, com certeza, algo seria dito a respeito. Fiquemos, portanto, com o jejum de Isaías 58. Este, sem dúvida, agrada o Senhor.

7- CONCLUSÃO
Confesso que, ainda que entendesse o jejum como um rito válido para os cristãos, teria dificuldades para jejuar, uma vez que não encontraria motivação para fazê-lo. Nenhuma das justificativas apresentadas por quem jejua é suficiente para legitimar a prática. Não dá para encaixá-la na Nova Aliança. Afinal, conforme foi sublinhado, o dia da expiação, cerimônia à qual o jejum estava atrelado, já findou.
Muito mais do que um momento de abstinência, o cristão deve oferecer-se por completo no altar do Senhor (Rm 12.1), abstendo-se, não de comida, mas de toda a aparência do mal (1Ts 5.22). Não precisamos de ritos para nos aperfeiçoarmos na fé, só de Cristo e de Sua Palavra. “Porque, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10.14). “A comida, porém, não nos torna aceitáveis diante de Deus; não seremos piores se não comermos, nem melhores se comermos” (1Co 8.8).
Os sacrifícios que Deus requer de nós não são mais físicos, como no Antigo Testamento, são espirituais (1Pe 2.5). Os aspectos exteriores da lei (circuncisão, jejum) ficaram para trás. Tudo o que fazemos agora deve ser para glória dEle! Não podemos viver de momentos. “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus”.
Todavia, se, mesmo assim, você quiser jejuar, tudo bem. Como ressaltamos acima, Jesus não proibiu a prática. Porém, lembre-se: é algo desnecessário. Ninguém vai “alcançar uma bênção” ou “se tornar mais santo” porque jejuou. É Deus quem nos aperfeiçoa (Fp 1.6), não nós. É bem mais neotestamentário orar, visto que a oração expressa a completa dependência do Senhor. Apenas pedimos, Ele faz se quiser. Assim, respondendo ao questionamento que intitula este artigo, declaro: - o jejum é uma prática da lei. Não cabe na ambiência da graça.

   Pr. Cremilson Meirelles



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[1] Seitas pagãs caracterizadas por cerimônias secretas, somente conhecidas por aqueles que se submetiam a um ritual de iniciação.  
[2] Há quem defenda, porém, que o jejum originou-se como rito funerário.
[3] Seita judaica que cresceu entre os séculos 1 a.C. e 1 d.C., e que formava a terceira importante escola de pensamento nos tempos de Cristo (com os fariseus e saduceus).
[4] Certamente, João Batista já havia sido preso.

4 comentários:

  1. Pr. então quando os apóstolos no novo testamento, na Igreja Primitiva, que é descrita em Atos 13 e 14, jejuavam eles estavam sob a velha aliança?

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  2. O artigo é importante uma vez que jejuar tem sido considerada por muitos como uma disciplina espiritual importante, muito embora com objetivos equivocados, como foi dito na conclusão. Agradeço pela contribuição nesse estudo. Gostaria de indagar apenas com base nessa declaração: "Na atualidade, o número de críticos do dízimo e da igreja, enquanto realidade institucional, tem se multiplicado. Suas argumentações estão espalhadas pela internet, em redes sociais, blogs e sites. Nelas, os polemistas afirmam categoricamente que tanto o dízimo, quanto as instituições são elementos estranhos ao Novo Testamento. Seguindo esse raciocínio, acusam os que discordam de suas opiniões de serem alienados, imbecis, burros, manipulados ou manipuladores." >>
    Devo entender que o caro pastor discorda das argumentações apresentadas sobre a questão do dízimo no AT?

    Contudo gostaria de deixar o convite ao meu blog, pelo que adianto os meus agradecimentos.

    http://agenuinateologia.blogspot.com.br/2017/02/a-lei-do-antigo-testamento-segundo-o.html

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    1. A intenção ao destacar as críticas ao dízimo e ao aspecto institucional da igreja, foi sugerir que o jejum, embora seja uma prática veterotestamentária, é tida como preciosa e válida, até mesmo por aqueles que condenam as práticas da Antiga Aliança.
      Não obstante, se quiser saber o que penso sobre o dízimo, leia os textos listados abaixo:

      http://pastorcremilson.blogspot.com.br/2015/07/dizimo-o-que-e-isso-parte-i.html

      http://pastorcremilson.blogspot.com.br/2015/08/dizimo-o-que-e-isso-parte-ii.html

      http://pastorcremilson.blogspot.com.br/2015/08/dizimo-o-que-e-isso-parte-iii.html

      http://pastorcremilson.blogspot.com.br/2015/08/dizimo-o-que-e-isso-parte-iv.html

      http://pastorcremilson.blogspot.com.br/2015/08/dizimo-o-que-e-isso-parte-v.html

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