sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

É CERTO DAR DINHEIRO PARA A IGREJA? - PARTE X

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
 
             Tendo analisado o ensino bíblico acerca das doações destinadas ao serviço religioso, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, concluímos que dar dinheiro para a igreja é uma prática legítima, e deve ser observada por todos os cristãos. No entanto, ainda que isso seja explícito nas Escrituras, há quem defenda o oposto, ou seja, que ninguém tem de dar nada para a igreja. Os que pensam assim, geralmente justificam sua postura argumentando que, uma vez que os mandamentos relativos à entrega do dízimo tinham sua vigência limitada à antiga aliança, e que o mesmo não era dado em dinheiro, mas em produtos agrícolas e pecuários, contribuir regularmente para o sustento de uma comunidade cristã local é desnecessário e antibíblico. Contudo, esse raciocínio é claramente incoerente com a Palavra de Deus. Até porque, as contribuições financeiras do povo eleito nunca se limitaram ao dízimo. Ademais, como vimos até aqui, doações em dinheiro estão registradas em ambos os testamentos. Logo, não há fundamento para não dar nada para a igreja.
            Essa conclusão, entretanto, não dirime todas as dúvidas referentes às contribuições. Afinal, conquanto saibamos que é certo dar dinheiro para igreja, é necessário saber também o valor e a periodicidade dessa doação. Essa informação, tal como tudo o que já estudamos acerca desse assunto, só pode ser encontrada na Bíblia.  Porquanto, ela é a nossa única regra de fé e prática.
            A despeito dessa certeza que norteia a ortodoxia cristã, alguns, ao invés de buscarem as Escrituras como referência, tomam por base os modelos seculares de arrecadação e aplicação de recursos. Por essa razão, sugerem que as igrejas deveriam proceder da mesma forma que os condomínios, dividindo as despesas entre os membros, em quotas iguais. Essa “gestão condominial”, porém, fere um dos princípios bíblicos mais básicos no que tange ao dinheiro entregue à comunidade religiosa: o princípio da proporcionalidade. Pois, o sistema de quotas condominiais não leva em conta a imensa diferença social que há no seio das congregações cristãs. Porque, embora nos condomínios haja condições sociais mínimas para o pagamento dessa taxa, nas igrejas isso não acontece; haja vista que uma mesma comunidade local congrega pessoas com alto e baixo poder aquisitivo. Sendo assim, a adoção de uma quota condominial por parte das igrejas, além de ser antibíblico é também injusto, visto que ricos e pobres teriam de pagar o mesmo valor.
            O sistema bíblico de contribuições, ao contrário, sempre considerou essas diferenças. Até mesmo o sistema sacrificial concedia ao mais pobre o direito de ofertar algo de valor inferior. Senão vejamos: no livro de Levítico, Deus, ao normatizar os procedimentos a serem observados por quem cometesse pecados não intencionais, concedeu aos mais pobres o direito de ofertar “a décima parte de um efa de flor de farinha” (Levítico 5.11), enquanto os que gozavam de melhores condições tinham de sacrificar “uma fêmea de gado miúdo” (Levítico 5.6). O “efa” era uma unidade de medida de capacidade que equivalia a 22 kg. A décima parte dessa unidade, portanto, seria 2,2 Kg. Ora, seria muito mais fácil adquirir essa quantidade de flor de farinha (farinha muito fina) que um animal para o sacrifício.
            Encontramos esse princípio também presente no Novo Testamento. Paulo, por exemplo, ao organizar uma coleta de dinheiro com o objetivo de suprir as necessidades dos cristãos de Jerusalém, orientou os coríntios que cada indivíduo ofertasse “conforme a sua prosperidade” (1Co 16.2). Obviamente, o rateio das despesas entre os crentes, nos moldes condominiais, jamais se enquadraria nessa orientação.
Em adição, vale salientar que o princípio bíblico da proporcionalidade é também um princípio constitucional em nosso país, o qual prevê um valor fixo para a alíquota (percentual usado como base para calcular um tributo) dos tributos. Seguindo essa linha, se um imposto for fixado em 10% dos rendimentos, cada indivíduo contribuirá com um valor adequado à sua capacidade contributiva. Há injustiça nisso? É claro que não.
Continua...
Pr. Cremilson Meirelles