sábado, 21 de outubro de 2017

É CERTO DAR DINHEIRO PARA A IGREJA? – PARTE IV

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa




           

            Nos textos mencionados anteriormente, pudemos perceber que os primeiros cristãos não estavam tão apegados ao dinheiro. Isso é patente em sua postura ante a aplicação dos recursos doados, visto que não faziam questão de exercer ingerência sobre coisa alguma; e, fazendo isso, como já salientamos, não se sentiam lesados. Decerto, essa perspectiva era resultado dos ensinamentos de Jesus, transmitidos pelos apóstolos. Porquanto, em um de seus discursos mais longos, o Mestre orientou seus discípulos a não se apegarem aos tesouros desta terra, uma vez que são perecíveis (Mateus 6.19-21). Foi justamente esse desapego que os levou a doar tudo o que tinham.
            Todavia, na atualidade, muitos, afirmando viver como a igreja primitiva, entendem que, se entregarem qualquer quantia para a igreja, ainda que o destino seja evidentemente nobre e justo, estarão sendo lesados. Conseguintemente, optam por doar seu dinheiro somente para moradores de rua e centros de recuperação de dependentes químicos, mas nunca para uma igreja local. Pois, concluem que o emprego dos valores doados na construção e melhoria do prédio que abriga a igreja, bem como no sustento missionário e pastoral, são aplicações impróprias desses recursos.
Na ótica desses indivíduos, a única utilização lícita e cristã do dinheiro é a assistência social prestada por eles mesmos a algum necessitado. Afinal, só assim podem ter certeza da destinação correta de seus bens. Essa conduta geralmente está associada a uma perspectiva religiosa anti-institucionalista, que olha com desconfiança para todo tipo de organização eclesiástica, e vê a assistência social como única ação relevante e digna de investimento.
Não obstante, embora saibamos que, como servos de Deus, não devemos limitar o exercício da liberalidade às contribuições dirigidas à igreja local, não existe também fundamentação bíblica para limitá-lo a ações sociais individuais. Até porque, como vimos, as doações mais abundantes no princípio da igreja eram entregues diretamente ao grupo apostólico, que as usava a fim de atender às necessidades do Corpo de Cristo. Além do mais, não se pode negar que o esforço conjunto permite-nos realizar muito mais. Isso é verdadeiro tanto na esfera eclesiástica quanto no âmbito secular. Senão vejamos: foi justamente por causa do somatório de forças, tanto no serviço quanto nas contribuições, que os cristãos primitivos puderam prover o necessário para os órfãos e as viúvas. Isso é claramente demonstrado em Atos 6; haja vista que o autor sacro relata que havia uma distribuição diária de alimentos, da qual as viúvas se beneficiavam  (Atos 6.1). Outrossim, foi a partir de uma grande coleta de dinheiro, que contou com a participação efetiva das igrejas da Macedônia e da Acaia (Romanos 15.25,26), que os pobres de Jerusalém tiveram suas necessidades supridas. A esse respeito, inclusive, vale ressaltar que os valores doados foram concentrados com o apóstolo Paulo, que, posteriormente, os entregou aos necessitados daquela cidade (Atos 24.17).
Da mesma forma, a ideia de que a assistência social é o único destino relevante para o dinheiro doado às igrejas, constitui um completo afastamento das Escrituras. Afinal, o sustento missionário e o pastoral são igualmente destacados no Novo Testamento; de modo que, negligenciá-los, é o mesmo que desprezar o ensino bíblico, que diz: “devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Timóteo 5.17).
Acredito que muitos dos que procedem dessa maneira, lá no fundo, receiam que, ao outorgar à liderança de uma comunidade local o direito de gerenciar os bens doados, estarão deixando de exercer o controle sobre o numerário que, na verdade, nunca doaram, pois continuam querendo dispor dele.
Continua...
Pr. Cremilson Meirelles