segunda-feira, 21 de julho de 2014

REVISITANDO AS BODAS DE CANÁ

Uma análise de João 2.1-11
 
Quem nunca ouviu falar do episódio no qual Jesus transformou água em vinho? Mesmo aqueles que não professam a fé cristã conhecem essa história. Até porque, ela já foi retratada no cinema, livros a mencionaram, além de ser largamente empregada nas cerimônias de casamento. Aliás, existe uma conhecida expressão popular referente às mudanças radicais que se baseia no primeiro milagre de Jesus. É o famoso dito: “fulano mudou da água para o vinho”!
Contudo, embora o uso frequente do texto revele o apreço que a cristandade tem por essa narrativa, penso que grande parte dos sermões fundamentados nela não reflete a realidade expressa nas páginas do evangelho de João. Basta atentar para o protagonista de muitas dessas homilias: o vinho. Este elemento vem roubando a cena já há muito tempo. Porquanto, usando e abusando das alegorias, vários pregadores o transformaram na alegria da vida conjugal, no Espírito Santo, entre outras coisas. Dificilmente, o vinho é tratado como apenas vinho. Além disso, a bebida produzida por Jesus também tem sido alvo de debates a respeito da abstinência do álcool. Uns dizem que ela não era fermentada, enquanto outros argumentam o contrário. Enfim, o Messias, o Salvador da humanidade, o Deus Todo-poderoso, é deixado de lado e o vinho assume o papel principal.
Pensando assim, alguns chegam a sugerir que o Cristo teria ido àquela festa somente para transformar a água em vinho, devolvendo assim a alegria furtada pela ausência da bebida. Não obstante, ao analisarmos honestamente o texto, a conclusão lógica e inevitável é que tal assertiva não faz sentido algum. Sem dúvida, Jesus foi até Caná por outro motivo. O problema é que sua motivação era tão óbvia e simples que muitos a desprezaram. Ora, o Mestre dirigiu-se até àquela pequena aldeia apenas para participar da festa e se alegrar com os nubentes. Afinal, foi para isso que o convidaram, não é? Era uma festa de casamento, oras. Por que temos que “enfeitar o pavão” e metamorfosear um relato tão bonito?
Penso que isto ocorre porque, para alguns, parece algo estranho imaginar que o messias prometido, o próprio Deus encarnado, teria tempo para se socializar com as pessoas, tal como nós fazemos. Contudo, é exatamente isso que narra o evangelista João. Ele diz que Jesus e seus discípulos foram convidados para as bodas em Caná da Galileia (Jo 2.2). Só isso. Não diz que o vinho representava a alegria, e, muito menos, o Espírito Santo. Na verdade, nenhum trecho da Bíblia diz isso! Na verdade, a beleza do texto não está nessas aplicações alegóricas, mas sim no exemplo que Jesus nos dá. Pois, o mestre mostra que devemos enxergar o ser humano não só como uma alma que precisa de salvação, mas como um ser completo, com necessidades físicas, sociais, psicológicas e espirituais. Precisamos valorizar todos os aspectos da vida humana. A salvação é a maior das necessidades, mas não exclui as outras. Jesus veio para nos salvar, mas considerou importante se alegrar conosco; e nem por isso suas atividades deixaram de ser espirituais.
Todavia, é muito comum, no contexto evangélico, supervalorizar aquilo que se faz no templo e atribuir menos valor ao que se faz fora dele. Para que uma atividade seja considerada espiritual deve ter alguma relação com o templo ou com o que se faz lá. Talvez, por conta disso, alguns decidiram alegorizar esse episódio. Até porque, embora Jesus tenha realizado um milagre, o contexto do evento nada tinha a ver com a espiritualidade templária do Cristianismo posterior. A narrativa mostra, ao contrário, o Mestre se divertindo com seus discípulos e amigos. Que magnífico exercício da comunhão, tão exaltada nas Escrituras (Sl 133.1)! Não dá para dizer que isso não é espiritual!
É necessário compreender que ser igreja é muito mais do que frequentar templos. É estar junto, ter tudo em comum (At 2.44). Nas bodas de Caná, os discípulos estavam reunidos, literalmente, em nome e ao redor de Jesus. Eles estavam em comunhão com o Mestre e uns com os outros, mas não estavam no templo. Creio que esse é o ponto principal, essa é a base para o milagre: Jesus como centro e cada crente como parte de um organismo vivo, dinâmico, que ultrapassa os limites geográficos e temporais. Assim, anunciamos as boas novas e mostramos como é bom servir a Cristo.
Não estou afirmando, entretanto, que devemos abandonar as reuniões no templo e os compromissos relacionados à comunidade de fé da qual fazemos parte; ao contrário, quero te convidar a enxergar a espiritualidade como algo maior do que os momentos que vivemos no interior do templo, a entender que nosso relacionamento com Deus tem de ultrapassar esses limites. Não podemos encenar, temos de viver isso o tempo todo. Nas festas, no trabalho, em casa, no colégio, etc.
Dando sequência à análise do texto, algo curioso salta aos olhos quando atentamos para a declaração de João acerca de Maria. O evangelista não diz se ela foi convidada ou não, só afirma que ela já estava lá (Jo 2.1). Penso que isto ocorre por haver entre ela e os noivos algum grau de parentesco. Portanto, possivelmente, Maria, como parte da família, estava ajudando nos preparativos para a celebração. Por isso, já estava presente. Até porque, Segundo R. de Vaux, naquele tempo “a festa (de casamento) durava normalmente sete dias, Gn 29.27; Jz 14.12, e podia se prolongar por até duas semanas...” (2004, p. 57). Uma festa dessas proporções certamente requereria uma grande provisão de suprimentos, bem como uma boa administração destes. Acredito que a mãe de Jesus estava auxiliando nessa área. Daí a razão de sua preocupação com a falta de vinho. Isto é, nem para Maria o vinho era tão importante; seu desassossego era por causa da festa, não da bebida em si. A ausência do vinho marcaria negativamente a festa de casamento do casal.
O mais interessante, no tocante à suposta tragédia da ausência do vinho, é que os noivos nem tomam conhecimento do fato. Ou seja, a “alegria” não acabou em momento algum! Como podem, então, afirmar alguns pregadores que a alegria havia acabado, e que Jesus a devolveu? Não faz sentido algum! Nem o mestre-sala soube do ocorrido. Tanto, que, ao invés de exaltar Jesus pelo milagre, ele elogia o noivo pela qualidade da bebida. Portanto, fora Jesus, seus discípulos e Maria, somente os empregados contemplaram a escassez do vinho.
Além de não “devolver” a alegria à festa, a presença de Jesus não levou alegria à celebração. Ao ler isso, é possível que você esteja me chamando de herege, haja vista que a grande maioria dos pregadores afirma justamente o oposto. “A presença de Jesus trouxe alegria ao casamento”. A despeito dessas frases feitas, pense comigo: eles estavam numa festa! Você já viu uma comemoração sem alegria? Eles estavam felizes por causa do matrimônio, oras. Jesus não os fez ficarem felizes, eles já estavam! Não estou dizendo, com isso, que a presença de Jesus não traz alegria. Pois traz sim. Só estou afirmando que o texto não trata disso. Mas do que o texto fala então? Ah, chegamos ao ponto: do que João está falando? Qual o seu propósito? Sabe, há muitas interpretações sobre o texto. Não tenho a presunção de apontar a minha como a perfeita. Desejo somente lançar luz sobre alguns aspectos que, a meu ver, têm sido relegados a um segundo plano.
Vamos pensar um pouco. Jesus acabara de recrutar seus primeiros discípulos. Dois deles haviam sido discípulos de João Batista. Isto é, até então, seguiram um homem que não tinha casa (possivelmente, morava numa caverna), que não se vestia como a maioria e que mantinha uma dieta peculiar. Agora, entretanto, eram seguidores de um homem que tinha uma casa (João 1.38,39), não seguia nenhuma dieta e se vestia como qualquer outro judeu (tanto que a mulher samaritana o reconhece como judeu – João 4). Para complicar ainda mais a situação, a primeira atitude de Jesus na condução daqueles homens é leva-los a uma festa. Ora, todos esperavam que Ele agisse diferente. Afinal de contas, Ele era o messias prometido. Contudo, ao invés de ir pregar, como fazia João, ou reunir um exército, de acordo com a expectativa de muitos, Jesus os convida para ir a uma festa na Galileia. Provavelmente, isso contribuiu para que os discípulos questionassem: será que Ele é mesmo o messias? O próprio João Batista, em dado momento, chega a ter dúvidas (Mt 11.2,3). Não é à toa que o texto mostra que, antes do milagre, faltava-lhes fé (Jo 2.11).
Percebendo que seus discípulos enxergavam a partir de uma concepção limitada de seu ministério, Jesus realiza um milagre, a fim de elevar a fé deles a uma nova dimensão. O Filho de Deus não baseou suas atitudes naquilo que as pessoas queriam. Maria queria repor o vinho, os discípulos esperavam um comportamento ascético, mas o que todos precisavam era de fé. Sabendo disso, Ele transformou a água em vinho; não por causa do casamento, dos convidados, da festa e, nem mesmo, para atender ao pedido de Sua mãe. Ele o fez para que os discípulos cressem nele, não apenas como um guerreiro, não somente como humano, mas como o Filho de Deus.
À luz dessa interpretação, fica uma mensagem evidente: Jesus tem que ser o centro sempre! Só Ele sabe o que realmente precisamos. Temos de seguir a orientação de Maria e “fazer tudo quanto Ele disser”. Mesmo que falte vinho, ainda que nossos desejos e expectativas não se tornem realidade... o que Jesus tem para nós é sempre melhor! Não podemos focar os milagres. O próprio Cristo não fez. Ele transformou a água em vinho por causa das pessoas. Não houve cerimonial, nem rito, nem uma performance teatral. Simplesmente, ele disse que enchessem as talhas.
Jesus não gostava do show que vemos hoje em dia. Para um milagre acontecer, é necessário todo um aparato simbólico e ritual. Tem dia marcado e tudo. Será que isso está acordo com a Bíblia? Acho que não. Mesmo assim, o povo continua sendo arrastado por esse tipo de manifestação fenomênica. Como diz a Escritura: “o meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento” (Os 4.6). Que pena...

Pr. Cremilson Meirelles


BIBLIOGRAFIA

CHAMPLIM, Russel Norman, 1933- O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo: volume 2: Lucas, João. São Paulo: Hagnos, 2002.

DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004. 

YANCEY, Philip; BRAND, Paul. A imagem e semelhança de deus. uma analogia entre o corpo humano e o corpo de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2003.






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