terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O PODER DO PAGANISMO

            Sempre que o fim do ano se aproxima, começam os discursos contrários às celebrações que têm lugar nessa época. Uns criticam apenas o excessivo apelo comercial que envolve esses eventos, enquanto outros condenam tudo e todos que fazem parte deles. Estes últimos justificam sua postura asseverando que todas essas festas, bem como os elementos que as constituem, são de origem pagã. De acordo com essa visão, quem participa delas está adorando os demônios que outrora eram cultuados nessa data, atraindo, assim, maldições sobre sua vida. Além disso, os adeptos desse pensamento entendem que a simples utilização de objetos e símbolos de origem pagã pode trazer uma série de malefícios espirituais e físicos sobre o indivíduo.
            Todavia, por mais que procure fundamentação bíblica para essas crenças, não consigo encontrar. Talvez seja porque essa doutrina não está lá, visto que nunca foi um pensamento cristão. Provavelmente, esse é o motivo pelo qual só encontro essas ideias em filmes de terror, em histórias de duendes e fadas, no filme do Shrek, do Harry Potter, Senhor dos Anéis, etc. Até porque, elas só fazem sentido nesse contexto. Do contrário, estaríamos atribuindo ao paganismo um poder que ele não tem. Não podemos fazer mais nada, pois tudo é pagão, em todo lugar tem um demônio escondido, tem um símbolo do Diabo. Cruzes!!! Não há lugar seguro! Parece que Satanás domina tudo! Não sobra nada para Deus! Somos levados a viver com medo, porque o demônio pode estar escondido em objetos, em palavras, em atitudes. Podemos estar adorando o inimigo sem sabermos! Por mais que eu nunca tenha ouvido falar em Mitra, Janus, Semíramis ou qualquer outra divindade pagã, posso estar adorando a elas agora, sem saber! Ai meu Deus! Será que o computador também é de origem pagã? Bom, a escrita alfabética é. Então, devo estar adorando mesmo. E a roupa que estou vestindo? Será que quem a fez era cristão? E se não era?!? Estou numa enrascada!
            Você percebe o absurdo dessa crença? Não faz sentido algum! Se crermos assim, ficaremos loucos. Pois, cedo ou tarde, descobriremos que tudo o que existe, um dia, foi empregado para fins religiosos. Conforme explica Mircea Eliade (2008, p. 18),

tudo quanto o homem manejou, sentiu, encontrou ou amou pode tornar-se uma hierofania[1]. Sabemos, por exemplo, que no seu conjunto os gestos, as danças, as brincadeiras das crianças, os brinquedos têm origem religiosa: foram, no tempo, gestos ou objetos cultuais. Sabemos, do mesmo modo, que os instrumentos de música, a arquitetura e os meios de transporte (animais, carros, barcos, etc) começaram por ser objetos ou atividades sagradas. Podemos pensar que não existe nenhum animal ou planta importante que tenha participado da sacralidade no decurso da história.  


Se formos eliminar de nossas vidas tudo o que já foi usado no paganismo, tudo o que é de origem pagã, é melhor deixar de viver. Veja bem, até os nomes dados aos dias da semana, assim como os nomes dados aos meses do ano são de origem pagã. O que fazer? Dar novos nomes para “quebrar a maldição”? De acordo com Viola (2005, p. 30),

Janeiro refere-se ao deus romano Janus; Março ao deus romano Marte; Abril vem de Aprilis, o mês sagrado de Vênus; Maio à deusa Maia; e junho à deusa Juno; Domingo (Sunday) celebra o deus sol; Segunda-feira (Monday) é o dia da deusa lua; Terça-feira (Tuesday) refere-se ao deus guerreiro Tiw; Quarta-feira (Wednesday) ao deus teutônico Wotan; Quinta-feira (Thursday) ao deus escandinavo Thor; Sexta-feira (Friday) à deusa escandinava Frigg; e sábado (Saturday) refere-se a Saturno, o deus romano de agricultura.


            O próprio corpo humano já foi usado em cultos pagãos; o sexo também foi largamente empregado para esse fim. O que vamos fazer, abraçarmos o celibato? Nada escapa ao paganismo! Até a calça que você usa originou-se em um contexto pagão. Sabia disso? Ela surgiu entre os antigos persas, por volta do século VI a.C. Os persas eram pagãos. Como a calça era o traje típico deles, naturalmente, usavam-na em seus cultos. E aí, vai continuar usando? O códice, precursor dos modernos livros, surgiu no século I da era cristã, entre os gregos, que eram pagãos. Vamos parar de ler livros por causa disso?
            Muita gente abraça essas baboseiras, mas nem sabe o que significa ser pagão. Este termo vem do latim pagani, que se referia aos camponeses, à gente do campo, do interior. Estes eram assim chamados por habitarem o pagus, ou seja, o país (MABIRE, 1995). Como os interioranos foram os últimos a abandonarem a antiga religião greco-romana, o nome paganismo tornou-se a designação dada pela igreja a toda e qualquer religião nacional. Porquanto, como o Cristianismo tinha aspirações universais, contrastava com as religiões da época, que, em sua maioria, eram limitadas geográfica e culturalmente. Por isso, passaram a ser chamadas de pagãs. Contudo, mesmo que o Cristianismo tenha prevalecido, seu surgimento se deu em mundo dominado pelas crenças pagãs. Muito do que já existia naquela época havia sido produzido por pagãos (os judeus não inventaram tudo). Logo, é natural que alguns elementos culturais tenham sido assimilados. Isso ocorre até hoje. Basta ver os ritmos e instrumentos utilizados pelos músicos em nossas igrejas. Já existe pagode gospel, pop gospel, rock gospel, forró gospel, hip hop gospel, etc. As guitarras, os baixos, as baterias, os teclados... você acha que isso tudo surgiu em um contexto cristão? Você consegue imaginar Jesus cantando com as três Marias fazendo backing vocal, Pedro tocando guitarra, João na bateria e Tiago nos teclados? É claro que não! Essa prática é produto da cultura na qual estamos inseridos.
            Só porque os romanos dedicavam o dia 1º de janeiro a Janus, deus dos portões, eu não posso mais celebrar o ano novo? Que absurdo! O fato de reunirmos nossas famílias e agradecermos a Deus pelo alvorecer de um novo ano, não significa que estamos adorando um deus pagão. A maioria das pessoas nunca ouviu falar nesse tal de Janus, como podem, pois, estar adorando-o? O mesmo se aplica a Mitra. Fala sério! Quem pensa assim, está limitando a Deus. Nosso Deus é o Todo-poderoso, ninguém é maior que Ele! Tudo pertence a Ele: dias, lugares, objetos, animais, plantas; são as pessoas que atribuem significados a essas coisas, mas, no fim, são apenas coisas, inanimadas, não há deuses nem demônios nelas. O uso que fazemos das coisas é que determina seu significado para nós.
            Essa crença de que objetos utilizados em qualquer forma de magia, ocultismo ou religião idólatra ficam impregnados de emanações malignas, como se demônios de fato residissem nos mesmos, assim como a ideia de que há dias fastos e nefastos, é a maior expressão do antigo paganismo. Esse conceito de espíritos malignos habitando em árvores, casas e objetos, nada tem a ver com as Escrituras. Estas mostram demônios atuando exclusivamente em seres vivos, humanos ou animais.
Por causa do pavor das maldições, um monte de crentes se privam das celebrações de fim de ano, quando, na verdade, deveriam aproveitar o ensejo para proclamar o evangelho. Não é errado comemorar. Errado é esquecer o real significado do que fazemos. Mais errado ainda é não comemorar com base nessa besteirada. Ninguém vai ser “amaldiçoado” por objetos, palavras, ou festas. A Bíblia diz que “aquele que é nascido de Deus o maligno não toca” (1João 5.18). É hora de parar de bobeira e adorar ao Senhor todos os dias, inclusive, no natal e no ano novo!

Pr. Cremilson Meirelles





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. Tradução de Fernando Tomaz e Natália Nunes. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

MABIRE, Jean; VIAL, Pierre. Os Solstícios: história e actualidade. Tradução de Nuno de Ataíde. Lisboa: Hugin, 1995.

VIOLA, Frank A. Cristianismo Pagão: analisando as origens das práticas e tradições da igreja. São Paulo: Abba Press, 2005.











[1] Uma manifestação do sagrado. Ao referir-se a esse “sagrado”, Eliade não tem em mente o Deus cristão, mas toda e qualquer forma de sobrenatural, pessoal ou impessoal. Ele quer dizer, portanto, que o homem utilizou tudo o que existe para adorar deuses. 

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