quinta-feira, 20 de junho de 2013

O SUPER DIABO


Infelizmente, na atualidade, tem sido bastante comum vermos pessoas que se dizem cristãs atribuindo super poderes ao Diabo. Dizem crer em Deus, no entanto têm um tremendo medo de Satanás. Há um discurso, inclusive, que evidencia tal postura. Diz-se que não se pode orar verbalmente. A oração eficaz deve ser realizada em pensamento, pois do contrário Satanás poderá ouvir. E se ele ouvir... Ai meu Deus! A bênção será impedida. Isto porque, segundo os defensores dessa idéia, ele pode ouvir o que falamos, mas não o que pensamos.
A despeito dessas declarações, cabe-nos indagar: será que a Bíblia fundamenta esse pensamento? Obviamente, a resposta é não. Porquanto, existem inúmeros trechos das Escrituras que relatam orações audíveis e eficazes. Por exemplo, por ocasião da dedicação do templo, O rei Salomão pôs-se diante do altar e orou verbalmente (1Rs 8.22-53). De igual modo, Ezequias, quando ameaçado por Senaqueribe, orou de maneira audível (2Rs 19.15-19) e Deus lhe respondeu. Outrossim, Neemias, diante da desolação de sua terra natal, ora verbalmente ao Senhor (Ne 1.3-11), que o ouviu dando-lhe graça aos olhos do rei. O próprio Jesus ora ao Pai em voz volta (Mt 26.39; Jo 17). Será possível que todas essas pessoas, inclusive, Jesus, agiriam de tal forma se não fosse eficaz? No Getsêmani, Jesus expôs seus sentimentos, porém não há indícios de que Ele tenha ficado com medo do Diabo ouvir. Seja sincero, você consegue imaginar Jesus, o próprio Deus, com medo de orar em voz alta por causa de Satanás? Desculpe-me, mas isso é conferir muito poder ao Diabo.
 É inadmissível que alguém que pede algo a Deus, tema que isso não se realize porque Satanás ouviu. Se pensarmos assim, temos que concluir que com Satanás, nem Deus pode. Ora, vamos raciocinar: eu estou pedindo a Deus, o soberano, o todo-poderoso, aquele que criou tudo o que existe, inclusive Satanás. Portanto, se Ele quiser que algo aconteça ninguém poderá impedir. Satanás pode ouvir, pode até ver, mas não pode fazer nada que contrarie a vontade de Deus. Um exemplo clássico disso é o texto de Jó, onde Deus delimita a ação do Diabo na vida do seu servo (Jó 1.12; 2.6). Além disso, como fica o texto de Isaías 43.13 ([..] operando eu, quem impedirá?), se Satanás pode impedir o agir de Deus? Como fica a soberania de Deus? Complicado, não é?
Outro problema relacionado a essa concepção é a invalidade das orações públicas feitas em nossas igrejas. Até porque, já que Satanás pode ouvir e impedir a “bênção”, por que oramos em voz alta em nossos cultos públicos? O mais interessante é que orações públicas são realizadas em todas as igrejas, inclusive nas que crêem nessa heresia. Contraditório, não é? Como pode um ponto de vista que não é fundamentado pela Bíblia e nem pela prática conseguir tantos adeptos? Só uma coisa pode fazer isso: a falta de conhecimento. Por isso, Deus afirma em Oséias 4.3a: “o meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento”.
De fato, o desconhecimento da Escritura tem dado a Satanás mais poderes que o Superman. Nada pode detê-lo. Ele não pode mais apenas ser expulso, tem de ser “amarrado” (com cordas espirituais?!?!?). Nem o que a Bíblia diz (1Jo 5.18) é capaz de impedi-lo, visto que, conforme defendem alguns, ele pode “possuir” até crentes genuínos. Sabe, parece até aqueles filmes norte-americanos, nos quais ninguém consegue vencer o Diabo. Pode ir padre, pastor, caça-fantasmas, etc. Não há como vencê-lo. Ele entra em igrejas, rasga Bíblias, bate em pastores, etc.
De acordo com os idealizadores do Super Diabo, para que consigamos prevalecer, é necessário aprendermos as estratégias do Inimigo. É a partir daí que ex-satanistas passam a ensinar nas igrejas receitas para enfrentar a “batalha espiritual”, deixando a Bíblia de lado e tomando por base o que diz o satanismo sobre a ação de Satanás. Olha só que absurdo! A Bíblia não é mais suficiente. O ensino agora tem de vir do próprio Satanás! Isso lhe confere mais autoridade que a Palavra de Deus.
O pior de tudo é a idéia, defendida por alguns crentes, de que em um culto só há manifestação de poder se pessoas ficarem endemoninhadas. Tal pensamento revela a primazia de Satanás no coração dessas pessoas. A transformação que Deus opera nos corações não é tão relevante, não proporciona entretenimento. Isto porque, nos dias de hoje, poder está associado a show, a efeitos especiais, a performances teatrais. Nesse contexto, uma mera conversão não chama atenção. É triste, mas esse é o pensamento de muitos no meio “evangélico”.
Ademais, há pessoas que tem tanto medo do Diabo que a simples menção de um de seus nomes já causa temor. Por conta disso, surgem diversos apelidos eufêmicos, tais como: encardido, capiroto, vermelhinho, bicho ruim, etc. Há, inclusive, quem se refira a ele sem dizer nada, só fazendo um sinal com a mão, apontando para o chão. Muitos agem assim por pensarem que pronunciar o seu nome atrai coisas ruins. Como exemplo, quero citar uma frase que ouvi de um evangélico após a pregação de um pastor: “não gostei da mensagem daquele pastor. Ele falou muitas vezes no Diabo. Que coisa horrível! Igreja não é lugar disso! Atrai até coisa ruim!”
Sem dúvida, o argumento supracitado carece de base bíblica. É um absurdo dizer que referir-se a Satanás verbalmente, pode atraí-lo ou atrair coisas ruins. Primeiro, porque a Bíblia diz que ele já “anda em derredor” (1Pe 5.8), ou seja, não há a necessidade de atraí-lo, pois ele já está “buscando a quem possa tragar”. Segundo, porque as Escrituras se referem inúmeras vezes, de forma direta, a Satanás. Só no Antigo Testamento, o hebraico Satan aparece 27 vezes (MITCHEL, 1996). No Novo Testamento, Jesus (Lc 22.31), Paulo (1Ts 2.18), Pedro (1Pe 5.8) usam o nome Satanás. Em adição, o nome Diabo, de acordo com Russel Shedd (1995, p. 87), aparece “nada menos de 35 vezes na Biblia”. É importante frisar também que as Escrituras usam outros nomes para referir-se a esse personagem. Shedd (Ibid.) enumera alguns deles, a saber: tentador (Mt 4.3), Belzebu (Mt 12.24), Belial (2Co 6.15), Serpente (2Co 11.3), Dragão (Ap 12.12), Leão que Ruge (1Pe 5.8), deus deste mundo (2Co 4.4), Maligno (Mt 13.19), etc. Ora, se a própria Bíblia fala tantas vezes de Satanás, por que eu devo ter medo de proferir um de seus nomes, achando que isto pode atraí-lo ou mesmo trazer coisas ruins? Se assim fosse, quando lêssemos, em nossas igrejas, esses textos em voz alta, estaríamos atraindo Satanás ou trazendo “maus fluidos”.    
O mais espantoso é que tal comportamento demonstra um respeito muito maior para com o Diabo do que para com Deus. Porquanto, referências ao Senhor são freqüentes nas interjeições (Ai meu Deus! Jesus!), nas respostas (se Deus quiser!), nas piadas, nos jargões pentecostais (Fala Deus! É Jeová! Êta Jeová!), os quais são muitas vezes empregados em gracejos, etc. É como se o pensamento fosse esse: “com Deus eu posso brincar, posso deturpar a Sua Palavra, fingir que sou crente, roubar sua Igreja, desobedecê-lo, fazer piadas com seu nome, porque Ele é bom demais. Mas com Satanás... ah, com esse não se brinca, pois ele arrebenta mesmo!”
Olhando por esse prisma, parece que há uma batalha desigual. Parece que Deus é semelhante a um menino “nerd” e Satanás equivale ao espertalhão que espanca os amigos desse menino. Parece que o “mal” é sempre mais poderoso. É por advogar esse pensamento que muitos crentes andam por aí com medo de macumbas, feitiçarias, buscando refúgio em palavras mágicas (Tá repreendido!) e em amuletos (rosa ungida, sal grosso, etc). Existem cristãos que tremem de medo quando vêem alguém endemoninhado. A primeira coisa que fazem é chamar o pastor. Dizem crer em um Deus todo-poderoso, que os guarda, mas vivem com medo de uma das criaturas desse Deus. Como isso é possível?
A Bíblia não confere super poderes ao Diabo. Ao contrário, ela afirma que “o poder pertence a Deus” (Sl 62.11). Jesus disse: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28.18); e completou: “e eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28.20). O Deus todo-poderoso está conosco, não precisamos ter medo do Diabo. Até porque, a Bíblia diz que “o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (1Jo 5.18).
Segundo a Escritura Satanás foi o primeiro Ser a ser destituído da glória de Deus (Is 14.12-15; Ez 28. 12-18; Ap 12.4). Em função disso, ele ganhou um passaporte garantido para o tormento eterno (Mt 25.41; Ap 20.10). Faça o que fizer, ele não pode mudar seu futuro. Isto revela a soberania de Deus e a pequenez do Diabo. Ao contrário do que muitos pensam, ele não pode fazer o que quer. Só pode transitar dentro dos limites que Deus lhe impôs. Por que temer quem está manietado (Mt 12.29)? As Escrituras declaram que Jesus veio “para desfazer as obras do Diabo” (1Jo 3.8), ou seja, nem as suas obras podem ser permanentes. Onde está, então, todo o poder que lhe atribuem? Simplesmente não existe.
A Bíblia nos ensina com clareza a postura que devemos assumir ante as astutas ciladas de Satanás. Vigilância (1Pe 5.8), resistência (1Pe 5.9, Tg 4.7), não dar lugar ao Diabo (Ef 4.27), orar (Ef 6.18), fé (Ef 6.16), sujeição a Deus (Tg 4.7), buscar forças no Senhor (Ef 6.10), etc. Em momento algum a Palavra de Deus nos diz para termos medo dele. Até porque, se Satanás está em derredor, Jesus está conosco (Mt 28.20). Não precisamos temer as macumbas, as feitiçarias, o endemoninhado, etc; não precisamos andar por aí repreendendo tudo, usando amuletos ou participando de rituais, afinal somos cristãos, não pagãos. O que realmente precisamos é ter mais contato com Deus e com sua Palavra.


Pr. Cremilson Meirelles
  


   
 
  
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: CPAD. 1995. 2012 p.
MITCHEL, Larry A. Estudos do vocabulário do Antigo Testamento. Tradução de Luiz Alberto T. Sayão. São Paulo: Vida Nova, 1996. 152 p.
SHEDD, Russel P. O Mundo, a Carne e o Diabo. São Paulo: Vida Nova, 1995. 126 p.



2 comentários:

  1. Gostei! O tema é bastante legal. Infelizmente ainda há crentes com medo do diabo isso porque os líderes que não ensinam.

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    1. Verdade. Muitos preferem não ensinar, e muitos preferem não aprender. A situação está cômoda.

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