segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A ESCRAVIDÃO NA BÍBLIA- PARTE VII

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
 

            Certamente, você deve ter percebido que os textos citados com referência à escravidão trazem, em algumas versões, o termo “servo” ao invés de escravo. Talvez, por isso, alguém pense que há distinção entre uma palavra e outra. Porém, ao analisar os textos em seu idioma original, constatamos que, tanto no hebraico (}eḇed) quanto no grego (doulos), as palavras usadas significam escravo.
            O uso desses termos, no entanto, não constitui, em si, uma apologia à escravidão. Isso pode ser depreendido do contexto em que essas palavras são utilizadas. Porquanto, muitas vezes, sobretudo no Novo Testamento, elas aparecem nos conselhos dados pelos apóstolos em relação à conduta cristã. Afinal, havia convertidos em todas as camadas sociais. O que eles deveriam fazer? Se rebelar? Conduzir uma revolta armada? É óbvio que não! Os discípulos de Jesus devem promover a paz (Mt 5.9). Portanto, deveriam, antes, envidar esforços para apresentar o evangelho aos seus senhores.
            Não obstante, ao contrário do que pensam alguns, os princípios exarados nas Sagradas Escrituras expressam claramente o repúdio divino à escravidão opressora e desumanizante que sempre caracterizou os povos sem Deus. Senão vejamos: em 1Timóteo 1.9,10, Paulo coloca os “raptores de homens” (traficantes de escravos) entre os “transgressores e rebeldes”, ao lado dos homicidas, matricidas e parricidas. Da mesma forma, o apóstolo João, no livro do apocalipse, inclui os mercadores de escravos entre os amantes da grande Babilônia (Ap 18.8-13), sistema dirigido por Satanás, o grande dragão vermelho (Ap 12.3,9). Além disso, diante de um auditório composto de pagãos, Paulo nivelou todos os homens, ao afirmar que todos somos “geração de Deus” (Atos 17.29).
Assim, embora a história testemunhe que muitos cristãos defenderam ideais escravagistas, é evidente que quem o fez estava distante das Sagradas Escrituras. Pois, o próprio Espírito Santo não fez essa diferença entre os homens: “pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Coríntios 12.13). Logo, já não há distinção entre “judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre; mas Cristo é tudo em todos” (Colossenses 3.11).
A respeito desse nivelamento espiritual, vale ressaltar que tal perspectiva constituía uma inovação na Antiguidade. Porque, de acordo com o pensamento aristotélico, o escravo e a mulher eram dotados de uma alma inferior. Outrossim, seguindo esse raciocínio, o filósofo defendia que quem estava debaixo da escravidão havia sido destinado a isso pela própria natureza: “A natureza, por assim dizer, imprimiu a liberdade e a servidão até nos hábitos corporais. Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários” (ARISTÓTELES, 2002, p. 15).
A Palavra de Deus, ao contrário, desde o início sublinhou a igualdade entre os homens, declarando que Deus criou o homem à sua imagem, tanto o macho quanto a fêmea (Gênesis 1.27), e ordenou-lhes que dominassem “sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gênesis 1.28), mas nunca lhes disse para dominar uns sobre os outros. Na verdade, acerca disso Jesus disse: “Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja vosso serviçal; e qualquer que, entre vós, quiser ser o primeiro, que seja vosso servo” (Mateus 20.25-27). Destarte, após toda essa argumentação, a única conclusão lógica é que A Bíblia apregoa a liberdade, e não a escravidão.
Pr. Cremilson Meirelles







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES. Política. Coleção a Obra prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2002.

BANZOLI, Lucas. A Bíblia e a Escravidão. São Paulo: Clube de Autores, 2017.

DEMAR, Gary. A Bíblia apoia a escravidão? Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/etica_crista/biblia-defende-escravidao_GaryMar.pdf

BARBOSA, João Cândido. O Trabalho e a Escravidão na Visão do Apóstolo Paulo. Goiânia: Fragmentos de Cultura, v. 24, n. 3, p. 403-411, jul./set. 2014.

GEISLER, Norman. Ética cristã. São Paulo: Vida Nova, 1984.

________________. Manual popular de dúvidas, enigmas e contradições da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.

LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do Cristianismo: volume II: 1500 a.D. a 1975 a.D. São Paulo: Hagnos, 2006.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.
 












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