sábado, 1 de julho de 2017

NÃO SIGA O HOMEM DO CÂNTARO



Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
A interpretação dos textos bíblicos é, sem dúvida, um grande desafio. Porquanto, requer análise dos aspectos gramaticais e literários, bem como o conhecimento do pano de fundo histórico e cultural dos episódios narrados. A inobservância de um desses elementos pode levar o intérprete a conclusões equivocadas, as quais trazem consigo o risco de se tornarem heresias. Mesmo assim, não raro deparamo-nos com pregadores que deliberadamente negligenciam esses princípios, produzindo interpretações que modificam o sentido pretendido pelo autor sacro. Contudo, como geralmente esses indivíduos gozam de popularidade, suas declarações facilmente adquirem status de norma. Por isso, aos olhos do povo, quem contraria suas idéias incorre em grave transgressão.  
            O equívoco mais comum desses pregadores é a alegorização de textos narrativos. Isto é, eles costumam defender a existência de significados ocultos nos relatos históricos da Palavra de Deus, apontando os personagens e os objetos do texto como representações simbólicas de verdades mais profundas. Com isso, a função dos personagens e o propósito do texto são alterados. Um exemplo disso é a interpretação popular do relato registrado por Lucas da preparação da última ceia (Lucas 22.7-13). Pois, aqueles que desconsideram as regras da hermenêutica, tiram Jesus do centro e destacam o homem que carregava o cântaro de água (Lucas 22.10), afirmando que o mesmo representa o Espírito de Deus. Isto porque, de acordo com esses intérpretes, a água é o símbolo do Espírito Santo. Além disso, apontam o fato de ele guiar os discípulos até a casa na qual seria realizada a ceia, como mais uma “evidência” de que ele representa a terceira pessoa da Trindade. Afinal, a próprio Jesus asseverou que o Consolador guiaria os discípulos: “mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade” (João 16.13). Não satisfeitos com essa “tipologia”, alguns pregadores vão ainda mais longe e dizem que o grande cenáculo cedido pelo anfitrião (Lucas 22.12) é, na verdade, uma representação da igreja; ou seja, um ambiente amplo, onde cabem muitas pessoas, e elevado (pois o cenáculo era um salão que ficava acima do andar térreo da casa), isto é, acima do mundo.  
            Não obstante, essa “representação” não existe. Para defendê-la é preciso abandonar uma das principais regras da hermenêutica gramático-histórica, a saber: “as Escrituras interpretam as Escrituras”. Ora, não há um texto bíblico sequer que fundamente essa interpretação! Não é porque Jesus usou o jorro das águas como metáfora para referir-se ao Espírito Santo, que sempre que a água aparecer na Bíblia será, automaticamente, uma “representação” do Consolador. Se assim for, devemos alterar a interpretação de inúmeros textos. Em Lucas 8.23,24, por exemplo, quando o barco enchia-se de água, Jesus não deveria ter acalmado a tempestade; afinal, o barco estava sendo cheio do Espírito de Deus! De igual modo, Pilatos, ao realizar o famoso ato de “lavar as mãos” (Mt 27.24), na verdade, estava limpando as mãos com o Espírito Santo. Você percebe o absurdo desse pensamento? Não tem lógica! Mas, mesmo assim, muitos o veem como evidência de conhecimento e espiritualidade.
            No entanto, as narrativas bíblicas só podem ser alegorizadas pelos autores inspirados. Logo, se eles não o fizeram, como podemos fazê-lo? Simplesmente, porque achamos que é assim? É óbvio que não! As Escrituras dizem claramente: “não ultrapasseis o que está escrito” (1Coríntios 4.6). Portanto, não devemos ficar buscando significados ocultos, mas sim permanecer dentro dos limites do que foi revelado. Pois, do contrário, estaremos a um passo da heresia.
Pr. Cremilson Meirelles
           

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