quarta-feira, 7 de setembro de 2016

QUEM FOI MAQUIR?



Nas Escrituras Sagradas há alguns personagens acerca dos quais pouco se fala. Este silêncio dificulta muito o trabalho de quem busca produzir uma biografia. Mesmo assim, não são poucos os que enveredam por essa espinhosa seara. O grande problema, entretanto, é que, por conta da ausência de detalhamento bíblico, há quem reconstrua a história/identidade de alguns personagens a partir de informações duvidosas, oriundas de fontes incertas e questionáveis, o que conduz às mais esdrúxulas conclusões. Por conta disso, muitos acabam não se interessando por essa busca.

Contudo, às vezes, é necessário empreender esse tipo de investigação. Porquanto, existem questionamentos que só podem ser respondidos com base nos dados biográficos de um determinado personagem. Um exemplo disso é o caso de Maquir, indivíduo bastante citado nas pregações pentecostais acerca de Mefibosete e Lo-dᵉbar. Pois, diante das poucas informações a seu respeito, alguns sugerem biografias mirabolantes, chegando a asseverar que ele era um mendigo que vivia na cidade de Lo-dᵉbar. Isto, naturalmente, para reforçar a ideia de que Mefibosete sofreu muito antes de ser resgatado por Davi. Por outro lado, há quem afirme com veemência que o hospedeiro de Mefibosete era um homem rico. Seguindo essa linha, alguns afirmam que durante o período em que residiu em Lo-dᵉbar, o filho de Jônatas teria vivido regaladamente, e não em privações.

Assim, conquanto esse homem não goze de destaque nas Escrituras, a fim de resolver esse dilema (Mefibosete sofreu ou não em Lo-dᵉbar?), torna-se imperioso descobrir a identidade de Maquir. Esta, no entanto, não é uma tarefa das mais fáceis, haja vista que, para fazê-lo, é necessário identificar corretamente seu pai. Diante dessa assertiva alguém pode objetar, dizendo: - Ora, isso é muito fácil! O pai de Maquir é Amiel! Tá escrito em 2Samuel 9.4!

Quem dera que fosse tão simples assim... Que o nome do pai de Maquir é Amiel, é óbvio. Todavia, o mais difícil é saber a que Amiel o texto se refere. Isto porque, há três indivíduos com esse nome nas Escrituras! O primeiro deles é um homem da tribo de Dã, filho de Gemali, mencionado em Números 13.12. Este, sem dúvida alguma, não é o pai de Maquir. Até porque, para sê-lo teria de ter vivido mais de 400 anos! Afinal, ele foi um dos doze espias enviados à Canaã por Moisés. Seria um anacronismo defender que esse Amiel era o pai do hospedeiro de Mefibosete, uma vez que os fatos narrados em 2Samuel ocorreram séculos depois da tomada da Terra Prometida. 

O segundo homem com esse nome é o pai de Batseba, mãe de Salomão (1Crônicas 3.5). Acerca deste, é importante salientar que só o cronista o chama de Amiel. Em 2Samuel 11.3 seu nome é Eliã. É provável que isto seja resultado do erro de algum copista, que, ao copiar, inverteu a ordem das letras, visto que no texto massorético os dois nomes são grafados com os mesmos caracteres (ĕām e āēl). Porém, o mais importante a ser destacado é que esse homem também não pode ser o pai de Maquir, porque, ainda que a grafia do nome seja modificada em 1Crônicas, em 2Samuel a distinção entre os personagens é bem clara. O nome Amiel é atribuído ao pai de Maquir, enquanto Eliã é usado em referência ao pai de Batseba. É evidente que são pessoas diferentes.

O terceiro Amiel aparece em 1Crônicas 26.5, como o sexto filho de Obede-Edom, homem “geteu” (1Crônicas 13.13), isto é, da cidade de Gate[1], que foi abençoado por receber a arca da aliança em sua casa (2Samuel 6.10,11). Não obstante, embora este Amiel seja um forte candidato a pai de Maquir, ainda há dúvidas. Porquanto, é difícil saber de que Gate o texto fala ao mencionar a nacionalidade de Obede-Edom, haja vista que existiam em Israel duas cidades denominadas Gate-Rimom. Uma delas pertencia aos levitas coatitas (Josué 20.21-26) enquanto a outra era propriedade da tribo de Manassés.

Não obstante, conforme o relato de Josué 21.25, a Gate-Rimon pertencente à tribo de Manassés também foi doada aos levitas coatitas (Josué 21.25). Sendo assim, é bem provável que tanto Amiel quanto seu pai tivessem ascendência levítica. Talvez, por essa razão, em 1Cr 16.1-6, Obede-Edom seja contado entre os levitas. Se assim for, Maquir não pode ser neto de Obede-Edom, pois, definitivamente, não era levita, visto que a cidade de Lo-dᵉbar ficava no interior do território gileadita, na Transjordânia, o qual pertencia às tribos de Gade, Ruben e metade de Manassés. Possivelmente, ele descendia de uma dessas tribos. Além disso, se Maquir fosse levita, seria muito mais difícil esconder Mefibosete, uma vez que os levitas participavam ativamente da vida religiosa. Ademais, se fosse assim, isso teria sido mencionado pelas Escrituras.

Visto isso, a conclusão inevitável é que o pai de Maquir é um quarto Amiel, acerca do qual a Bíblia não fornece detalhes. Contudo, essa “falta de informação” elimina algumas possibilidades. Isto é, já sabemos que Maquir não era irmão de Batseba, nem descendente de Levi, e, muito menos, neto de Gemali. Outrossim, como vimos acima, é bem provável, em razão da localização de sua cidade, que Maquir pertencesse a uma das três tribos mencionadas (Gade, Ruben e Manassés).

Apesar disso, acredito que podemos delimitar ainda mais as possibilidades. Porquanto, embora o costume do nome patronímico[2] seja posterior, é possível que Maquir seja descendente de outro Maquir, filho de Manassés, mencionado em Gênesis 50.23. Porque, aos descendentes desse homem foi concedida a metade de Gileade. Ora, conforme explica Tenney (2008), a cidade que abrigou Mefibosete, a famosa Lo-dᵉbar, ficava em Gileade, perto do Jordão. Esta informação, de certa forma, aproxima o homem que acolheu o neto de Saul do filho de Manassés. Até porque, além de ter tomado a região das mãos dos amorreus (Nm 32.39), Maquir recebeu a terra de Gileade por determinação de Moisés (Nm 32.40), o que foi ratificado por Josué (Js 17.1). Em adição, é importante ressaltar que, em 1Crônicas 7.17, Gileade é apontado como filho de Maquir e patriarca de todo o clã que leva seu nome.

Todavia, conquanto essas evidências apontem para o vínculo de Maquir com os manassitas, cabe salientar que, de acordo com Baldwin (1997, p. 256), Lo-dᵉbar era uma “localidade geralmente identificada com Debir, no território de Gade (Js 13.26)”. Além do mais, como relata Flávio Josefo (2005), Maquir era um dos principais da província de Gileade, a qual ficava próxima de Manaaim (2Sm 17.27), o que associa essa região ao território pertencente aos gaditas (Js 13.26). Isto, aparentemente, distancia Maquir da tribo de Manassés.

Por outro lado, o fato de Gileade ser não apenas um território, mas um clã, leva-nos a concluir que, possivelmente, ali habitavam descendentes de Manassés. Somando a isso a possibilidade de patronímia na concessão do nome do filho de Amiel, e a afirmação de estudiosos de grande envergadura, como Champlim (2004) e Tenney (2008), de que o hospedeiro de Mefibosete descende do filho de Manassés, consideramos essa ideia razoável. Portanto, embora não seja possível fechar a questão, acreditamos que há grandes chances de Maquir ser de ascendência manassita.

Mas de uma coisa podemos ter certeza absoluta: Maquir não era um mendigo. Pois, se fosse, como poderia ter fornecido a Davi tudo o que é descrito em 2Samuel 17.27-29? Como teria conseguido sustentar um deficiente por tanto tempo? Por qual razão Josefo se referiria a ele como um dos principais da província de Gileade? Não há como responder a essas perguntas e ainda ser coerente com as Escrituras. Por isso, muito mais do que dar ouvidos às mensagens pré-fabricadas deste tempo, é hora de nos voltarmos para a Bíblia. Deus o abençoe!

Pr. Cremilson Meirelles





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



BALDWIN, Joyce G. 1 e 2 Samuel, introdução e comentário - Série cultura bíblica.
São Paulo: Vida Nova, 1997.



Bíblia de Estudo Arqueológica NVI. São Paulo: Editora Vida, 2013.



CHAMPLIN, Russel Norman, Ph.D. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2004. 4v.



JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. 9 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.



TENNEY, Merrill C. Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008. 2v.



TENNEY, Merrill C. Enciclopédia da Bíblia. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008. 4v.




[1] Os habitantes de Gate, de acordo com 2Samuel 15.18, eram chamados geteus.


[2] Costume de dar à criança o nome que havia tido seu avô, seu bisavô ou seu tio e, com menos frequência, o de seu pai.

3 comentários:

  1. Está bem claro que o Maquir da 2ºa Sm 9;4 é o mesmo de 2ºSm 17;27. Isso quer dizer que nem Maquir e nem Mefibosete eram mendigos,muito pelo contrario, eram muito bem de vida.

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