segunda-feira, 2 de maio de 2016

A BÍBLIA E O PASTORADO FEMININO - PARTE II


Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa


          


            Conforme vimos na pastoral anterior, há na Bíblia, pelo menos, três situações em que a mulher ensina: a mãe ensinando o filho (Provérbios 31.1), as idosas ensinando as mais novas (Tito 2.3-5), e uma mulher e seu marido ensinando um homem (Atos 18.24-26). Logo, concluímos que a afirmação de Paulo em 1Timóteo 2.12 (“não permito que a mulher ensine”) não diz respeito a toda e qualquer espécie de ensino ministrado por uma mulher, mas trata-se de uma declaração que visava uma situação específica. Mas, que situação era essa? É o que veremos nas linhas seguintes.
            Bem, para entendermos o versículo 12, é necessário, também compreendermos o versículo 11, o qual diz: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição”. Se tomarmos este texto isolado, à parte de seu contexto, inevitavelmente, concluiremos que a mulher não pode dar um pio nas reuniões de sua comunidade de fé. É exatamente o que alguns defendem, associando esta frase à de 1Coríntios 14.34: “As mulheres estejam caladas nas igrejas, porque lhes não é permitido falar”.
            Todavia, em 1Coríntios 11.5, vemos que o mesmo apóstolo ressalta que havia mulheres que profetizavam nas reuniões da igreja. Outrossim, em Atos 21.9, Lucas afirma que Filipe tinha “quatro filhas donzelas, que profetizavam”.  Ora, assim como ocorre com a questão do ensino, vemos claramente que 1Timóteo 2.11 e os textos citados acima tratam de situações diferentes. Do contrário, teríamos de admitir uma contradição bíblica! Como a Bíblia não se contradiz, sabemos que, conhecendo o contexto, podemos descobrir do que Paulo estava falando.
            O primeiro ponto que precisamos observar é o emprego da palavra traduzida como “silêncio”, em 1Timóteo 2.11. Situando-a  no contexto, percebemos que é usada para indicar a postura da mulher durante o aprendizado das Escrituras, o que pressupõe uma situação de ensino-aprendizagem. Isto revela algo bastante incomum naquela época: nos círculos cristãos, a mulher podia aprender! Era um avanço em relação ao judaísmo.
            Além disso, a palavra grega (hēsychia) traduzida como “silêncio”, na verdade, não aponta para um silêncio meramente verbal, mas dá a ideia de uma atitude de tranquilidade. Esse sentido da palavra fica evidente no versículo 2,onde o mesmo termo grego é traduzido como “sossegada”, na versão Revista e Corrigida, e “mansa”, na Revista e Atualizada. A partir daí, percebemos que o apóstolo tinha em mente a postura da mulher em relação ao aprendizado e ao ensino, pois, no versículo 12, mais uma vez ele utiliza o vocábulo grego hēsychia, contrapondo-o ao exercício da autoridade sobre o homem. Isto é, Paulo estava orientando as mulheres que não falassem de modo a questionar a autoridade do homem. Isto é, com calma, mansidão, tranquilidade.
            O homem a quem Paulo se refere não é o marido, como dá a entender a tradução da Almeida Revista e Corrigida, mas trata-se de um uso genérico do termo, ou seja, aponta para o homem de um modo geral. O próprio contexto sugere isso, pois, no mesmo capítulo, no versículo 8, o apóstolo referindo-se aos homens de um modo geral, orienta-os a orarem “em todo lugar, levantando mãos santas”. Em seguida, no versículo 9, ele faz uma referência às mulheres, também no sentido genérico, corroborando a ideia de que o versículo 12 trata do homem genérico, não do marido.
Perceba que o apóstolo vincula o ensino ao exercício da autoridade na igreja. Acerca disso, porém, é importante salientar que a melhor tradução para esse trecho do versículo 12 seria “nem exerça autoridade de homem”, e não “sobre o marido”, conforme  a tradução da Almeida Revista e Corrigida, haja vista que o termo grego anēr, traduzido como homem, está na sua forma genitiva, o que dá a ideia de posse, e corrobora a tradução da Almeida Revista e Atualizada: “autoridade de homem”. Isto é, a ideia transmitida pelo apóstolo é que a mulher não pode ensinar de modo que esse ensino a leve a exercer, ou dê a impressão de que ela está exercendo autoridade que compete ao homem.
A conclusão acima está em perfeita harmonia com o contexto, pois conforme é explicado no capítulo 3, a liderança da igreja é masculina. O único apto para exercer a autoridade que é vedada à mulher é o “bispo/presbítero”. Afinal, ele é o único que deve ser “apto para ensinar”. Nem dos diáconos isso é requerido. Aliás, as duas únicas coisas que não são requeridas dos diáconos, a aptidão para o ensino (1Timóteo 3.2) e o dom de presidir (1Timóteo 5.17), e que, portanto, os diferenciam dos bispos/presbíteros, são as mesmas que não são permitidas às mulheres. Diante disso, a conclusão inevitável, é que Paulo está dizendo que a mulher não pode ser pastora, bispa, presbítera ou apóstola.
Continua...
Pr. Cremilson Meirelles


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