quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

É DEVER DOS EVANGÉLICOS ORAR CONTRA A MARCHA PARA SATANÁS?

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
 

Há mais ou menos três meses atrás, surgiu na internet uma convocação, no mínimo estranha. Um indivíduo, usando um perfil fantasioso no facebook, convidava todos os insatisfeitos com o Cristianismo a participarem de um evento que ele chamou de “marcha para Satanás”, o qual, obviamente, seria uma paródia da “marcha para Jesus”. Originalmente, a marcha ocorreria apenas em São Paulo, na Avenida Paulista. Contudo, rapidamente a ideia se multiplicou, e, em vários estados brasileiros, marchas para Satanás foram marcadas para o mesmo dia e horário, a saber, 17 de janeiro de 2016.  
No entanto, o mais impressionante nisso tudo não foi a marcha em si, mas a reação dos evangélicos ante a mobilização satânica. Convocações para orações contrárias à “marcha” inundaram as redes sociais. Em razão disso, grupos católicos e evangélicos intimaram seus pares a iniciarem campanhas de oração para pedir a Deus que o evento não acontecesse. Alguns, inclusive, se programaram para orar exatamente no horário marcado para a tal “marcha”.
Diante disso tudo comecei a questionar: é realmente necessário orar para que um evento, seja dedicado ao Diabo ou outra entidade, não aconteça? Não consigo encontrar na Bíblia nenhum trecho que fundamente essa atitude. Os apóstolos de Jesus Cristo nunca oraram, e nem solicitaram que outros discípulos orassem, por exemplo, para que a Saturnália (festa romana celebrada em honra ao deus Saturno, cheia de orgias e bebedeiras) não ocorresse. Nem mesmo no Antigo Testamento, vemos tal solicitação em relação às orgias realizadas nos cultos prestados a Baal.
Ao contrário, o Novo Testamento relata que o paganismo foi duramente atingido com a proclamação do Evangelho. Isto fica evidente no livro de Atos, o qual narra um episódio ocorrido após o apóstolo Paulo ter, ao longo de dois anos, divulgado as boas novas em Éfeso (Atos 19.8-10). De acordo com Lucas, o resultado daquela proclamação foi um grande número de pagãos convertidos ao Cristianismo (Atos 19.18-20). Estes, de imediato, se desfizeram de seus livros de magia, queimando-os numa grande fogueira. Acerca disso, é importante ressaltar que ninguém orou para que os livros fossem queimados, bastou que ouvissem a pregação e fossem convencidos pelo Espírito Santo. Porque o Evangelho “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê” (Rm 1.16).
Por conseguinte, ao invés de orar para que a “marcha para Satanás” não ocorra, deveríamos proclamar o Evangelho a todos que conhecemos e não conhecemos. Só assim o número dos que “marcham” diminuirá, pois todos os dias há pessoas marchando para o inferno, lideradas pelo próprio Diabo, visto que “o mundo jaz no maligno” (1João 5.19). Isso não acontece somente numa mobilização de rua. Agora mesmo, há indivíduos participando dessa “marcha”. Porquanto, como diz a Sagrada Escritura, “aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus. Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo: todo aquele que não pratica justiça não procede de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão” (1João 3.8-10).
Observando outro aspecto dessas convocações, podemos perceber a incoerência  do movimento. Pois, quando recebemos notícias de que pessoas são brutalmente assassinadas em países como a Coréia do Norte, não vemos a mesma mobilização para frear o avanço daqueles que marcham com o propósito de ceifar vidas. Outrossim, missionários são mortos o tempo todo por aqueles que marcham para o Diabo, mas poucos se unem para interceder em favor de suas vidas.
Na verdade, essas campanhas de oração contrárias à “marcha para Satanás” dão a impressão de que seus organizadores creem que, de alguma maneira, tal evento poderia conceder “mais poder” ao Diabo, uma vez que a “marcha” seria uma espécie de “ato profético” (eu hein!), que liberaria o poder das trevas. Por conta disso, os cristãos deveriam impedi-lo com suas orações. Mais ou menos como uma luta do bem contra o mal. Parece coisa de cinema, não é? Mas nas mentes de muitos evangélicos é assim que a coisa funciona. No entanto, onde está o amor e a compaixão pelos participantes? O objetivo é apenas impedir o evento?
Sinceramente, penso que todo o alarde em torno dessa famigerada passeata, apenas facilitou a divulgação dos ideais dos organizadores do evento, e contribuiu para a agregação de mais seguidores; ou seja, os evangélicos, no afã de praticar seu misticismo gospel, em vez de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, acabaram promovendo a causa do capirôto.   
Será que essas pessoas não conseguem compreender que marchas para Satanás estão sempre acontecendo? Afinal, toda vez que passeatas e movimentos populares propagam o pecado e ideologias contrárias às Escrituras Sagradas, temos uma marcha para Satanás. O próprio carnaval é um tipo de marcha para o Diabo. Porque, quem participa, conscientemente, se entrega à carnalidade, cometendo tudo aquilo que desagrada o Senhor. Não dá para parar isso! Inevitavelmente, embora muitos sejam chamados, poucos serão os escolhidos (Mateus 22.14).
Olhando por esse prisma, não faz sentido algum orar para impedir uma manifestação de caráter religioso, ainda que contrarie nossos valores e princípios. Jesus nunca ensinou isso! Na verdade, seu ensino caminha na contramão desse pensamento. Porquanto, Ele disse: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do Pai que está nos céus” (Mateus 5.44,45). Qualquer atitude diferente dessa deve ser revista, haja vista que cumprir o mandado do Mestre, como Ele mesmo destaca, é a evidência de que somos filhos de Deus. Isto é, ao invés de orar para que marchas como essa não ocorram, deveríamos interceder pelos participantes, e pregar-lhes o Evangelho, a fim de que se convertam. Até porque, o cancelamento do evento não muda a condição espiritual de seus adeptos. Só Deus pode fazê-lo; e o meio através do qual Ele o faz é a proclamação das boas novas. Portanto, pregue a Palavra, em tempo e fora de tempo (2Timóteo 4.2).
Pr. Cremilson Meirelles

3 comentários:

  1. As pessoas passam anos e anos em uma "igreja" e não amadurecem. Talvez nós, faço questão de me incluir nisto, estejamos falhando feio no discipulado.

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  2. As pessoas passam anos e anos em uma "igreja" e não amadurecem. Talvez nós, faço questão de me incluir nisto, estejamos falhando feio no discipulado.

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  3. Concordo. Contudo, sempre há aqueles casos que a gente explica, mas alguns, ouvindo, não ouvem.

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