quarta-feira, 1 de abril de 2015

POR QUE NÃO FALAMOS LÍNGUAS ESTRANHAS? PARTE VI

Pastoral redigida para o Boletim Dominical da Primeira Igreja Batista em Manoel Corrêa
línguas estranhas
Havendo tratado das diversas ocorrências do dom de línguas no livro de Atos, resta-nos agora analisarmos o que o apóstolo Paulo fala sobre o assunto em sua primeira carta dirigida aos coríntios. Aliás, grande parte da prática e do pensamento a respeito das famosas “línguas estranhas” se baseia nessa epístola, mais especificamente no capítulo 14. Entretanto, antes de verificarmos o que o apóstolo disse no referido capítulo, é necessário elencar alguns aspectos peculiares da igreja de Corinto e do “falar em línguas”.
Em primeiro lugar, cabe salientar que, quando Paulo escreveu àquela igreja, o cenário era de desordem geral. Havia divisões na igreja (1Coríntios 1.10-13), o conhecimento era superestimado enquanto a experiência pessoal com Cristo era desprezada (1Coríntios 2.1-8), os cristãos coríntios não disciplinavam os pecados escandalosos praticados por seus membros (1Coríntios 5.1-5), moviam ações judiciais contra seus irmãos (1Coríntios 6.1-9), comiam alimentos sacrificados aos ídolos (1Coríntios 8.1-13), ofereciam sacrifícios aos deuses pagãos (1Coríntios 10.1-33), promoviam desordem na celebração da Ceia do Senhor (1Coríntios 11.17-22), além de descrerem em uma das doutrinas fundamentais do Cristianismo: a ressurreição. Por isso, Paulo escreveu 1Coríntios 15.  
Todas essas coisas refletem a falta de espiritualidade da igreja. Como, pois, poderíamos tomá-la como referência para nossa vida, uma vez que nem o apóstolo Paulo a tomou? Na verdade, a igreja de Corinto é um exemplo daquilo que não devemos fazer. Assim, ao tomar ciência de todos os seus problemas, Paulo os qualifica como carnais e meninos em Cristo (1Coríntios 3.1).
Os capítulos 12, 13 e 14 de 1Coríntios não fogem a essa realidade. Neles, o apóstolo busca corrigir os erros decorrentes da imaturidade e do entendimento equivocado a respeito dos dons espirituais. Porque, motivados por sua origem pagã (1Coríntios 12.1,2), os coríntios haviam deturpado o dom original manifestado em Atos 2, cujo propósito era viabilizar a comunicação do evangelho, vencendo as barreiras idiomáticas. As línguas dos coríntios, ao contrário, criavam ainda mais barreiras, visto que ninguém entendia o que era dito (1Co 14.2), uns eram considerados mais espirituais porque falavam as “línguas estranhas” e a edificação do Corpo (1Coríntios 14.12) não era alcançada (1Coríntios 14.4).
Além disso, é importante ressaltar que quase toda forma de paganismo, desde a Antiguidade, foi caracterizada por alguma forma de fala incompreensível produzida nos momentos de êxtase. Em Isaías 8.19, por exemplo, ao mencionar as práticas pagãs relacionadas à comunicação com os mortos e à adivinhação, o profeta destaca como característica desses grupos o chilrear, que no hebraico dá a ideia da emissão de ruídos incompreensíveis, possivelmente proferidos pelos feiticeiros. Outro exemplo histórico é encontrado no Egito antigo, em cerca de 1.100 a.C., quando um adorador do deus Amom ficou possesso e começou a proferir palavras incompreensíveis. De igual modo, a sacerdotisa do deus Apolo falava com sons estranhos durante os rituais. O filósofo Platão também descreve as “línguas incompreensíveis” em vários de seus diálogos. Portanto, definitivamente, essa não é uma prática cristã.
Pr. Cremilson Meirelles



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