segunda-feira, 6 de outubro de 2014

COISAS DE OVELHA

Sermão pregado na PIB em Manoel Corrêa, Cabo Frio.

Texto Base: Mateus 25.31-46
Ao ler esse texto, dificilmente pensamos a respeito da razão pela qual o pastor aparta dos bodes as ovelhas. Na verdade, a maioria das pessoas nem sabe a diferença entre bode e ovelha. É claro, entretanto, que não tenho a intenção de tratar dos detalhes que diferenciam um do outro. Contudo, é importante ressaltar que a ovelha é a fêmea do carneiro e o bode é o macho da cabra. Embora se pareçam, trata-se de espécies distintas. Com base nessa informação, podemos deduzir o porquê de separar as ovelhas dos bodes. 
Ora, já que pertencem a espécies diferentes, o resultado do cruzamento dos dois seria um animal híbrido, que não poderia se reproduzir. Além disso, experiência tem demonstrado que o mais comum é que esses filhotes nasçam mortos. A partir dessa observação, fica mais fácil compreender a razão da separação: nenhum pastor gostaria de ter ovelhas prenhas gerando filhotes natimortos.
A despeito desses aspectos, na comparação utilizada por Cristo os homens são identificados com base em seu relacionamento com Deus e com o próximo. As realizações elencadas pelo Mestre identificam as ovelhas e denunciam os bodes, evidenciando que, assim como bodes e ovelhas, há duas espécies de seres humanos: filhos de Deus e criaturas de Deus. Seguindo esse raciocínio, pretendo, neste sermão, pontuar as atitudes que caracterizam a filiação divina, ou seja, que mostram quem, de fato, são as ovelhas. Chamarei esses aspectos de “coisas de ovelha”.

1 – AJUDAR OS NECESSITADOS
            Ao proferir seu discurso escatológico, Jesus mostra que há lugar no Seu Reino para aqueles que não fizeram coisas consideradas extraordinárias pelos homens, tais como cantar, pregar, ou qualquer outra atividade realizada no interior do templo. As realizações que o mestre atribui aos que estão à Sua direita nada têm a ver com as atividades realizadas pelos soberbos de Mateus 7.22,23, que se gabam de suas obras. Cristo não exalta Suas ovelhas por terem profetizado, expulsado demônio ou feito maravilhas. Ele apenas destaca que seus grandiosos feitos eram praticados fora das dependências do templo, e dos olhares dos religiosos. Isto é, ao contrário dos bodes, elas se preocuparam em viver o cristianismo genuíno, e não apenas momentos no templo.
Repare que as ovelhas são inconscientes de terem realizado boas obras. Isto porque, elas não fizeram com a intenção de obter o reconhecimento humano e nem ganhar pontos com Deus. Foi exatamente isso que tornou as obras tão boas: sua espontaneidade. Tanto, que elas se espantaram. Ou seja, fizeram o que fizeram por amor ao próximo, diferente dos fariseus, que davam esmolas para serem vistos pelos homens (Mateus 23.5).
Os que estarão à direita de Cristo, naturalmente, ajudam os necessitados, pois não conseguem ver pessoas padecendo, privadas das necessidades básicas, e não atendê-las. É disso que Jesus fala. Ele ressalta que as necessidades básicas do ser humano: fome, sede e vestuário; foram integralmente supridas por suas ovelhas. Com isso, redireciona o foco, tirando-o do “eu” e apontando para Deus e o próximo. Porque, ao fazer bem ao outro, as ovelhas mostram seu amor por Jesus.
No dia do juízo, cada pessoa saberá imediatamente se é salva ou condenada. Naquela ocasião, o Rei dos reis destacará o que fizemos em nossa vida e conduta diárias, a fim de mostrar que nas pequenas coisas fornecemos prova de que somos verdadeiros discípulos do Senhor. Por isso, nos chamará de benditos. Isto nos leva a concluir que a justiça que Cristo nos imputou mediante a fé (Romanos 5.1) precisa ser comunicada, isto é, demonstrada através de atitudes. Afinal, como diz a Bíblia, “a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tiago 2.17).
Precisamos evidenciar que somos ovelhas através das obras. Temos de ajudar os que perecem, os que passam fome, os que não têm o que vestir. Até porque, “aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4.17). Não podemos fechar os olhos para os que sofrem. Talvez, haja pessoas próximas de nós precisando dos itens básicos mencionados por Cristo. Quem deve ajudar? Nós. Eu e Você. Não transfira a responsabilidade. Seja ovelha. Quem não ajuda porque não quer, das duas uma: ou é bode ou ainda não entendeu o que significa ser servo do Senhor.

2 – ACOLHER O DIFERENTE
Na cultura judaica, a hospitalidade era um dever sagrado. Receber um hóspede era uma honra disputada. Isso facilitava bastante as viagens. Inclusive, de acordo com a tradição judaica, o forasteiro podia desfrutar da hospitalidade por três dias. Depois disso, deveria se retirar e seguir viagem.
Não obstante, após o período intertestamentário, por terem sofrido tanto com a opressão estrangeira, os judeus passaram a ver os gentios com desconfiança. Por isso, ao falar sobre a hospitalidade, Jesus usa o termo Xenós, que significa estranho, estrangeiro, e que nas versões latinas do Novo Testamento foi traduzido pelo latim Hostis, palavra que significa inimigo, o que reflete a postura judaica em relação aos estrangeiros, vistos por eles como inimigos. Isto porque, adoravam outros deuses e observavam costumes diferentes. Agindo assim, os judeus contrariavam a Lei. Porquanto, em Deuteronômio 10.19, o próprio Deus disse: “amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito”.
No texto em pauta, Jesus faz alusão à hospitalidade, prática tão venerada na história judaica, ressaltando a atitude das ovelhas, que receberam os estrangeiros, diferente dos hipócritas, que afirmavam servir a Deus, mas desprezavam o próximo. Mais uma vez os que estão à sua direita se espantam. Isto porque, tudo o que fizeram foi espontâneo. Jesus tocou na ferida de seus ouvintes. Ele afirmou que sua igreja deveria acolher todo o tipo de gente. Para a glória de Deus, o sermão surtiu efeito. A igreja primitiva se tornou uma comunidade acolhedora, recebendo tanto judeus como gentios, vencendo o preconceito. Assim, rapidamente, os gentios se tornaram maioria.
Apesar disso, com o passar do tempo, o problema da discriminação voltou. A igreja, que outrora foi acolhedora, passou a ser discriminadora. O preconceito entre brancos e negros separou os cristãos durante muitos anos. Nos Estados Unidos, por exemplo, além de existir banheiros específicos para negros, havia também igrejas separadas para negros. O pior de tudo é que isso ainda existe. Recentemente, em 2011, uma mulher foi disciplinada em sua igreja porque levou o namorado negro ao culto.
Se isso nos espanta, deveríamos olhar para nós mesmos, pois, às vezes, com nossos grupos fechados, com nossas panelas, criamos barreiras para a integração de quem chega de fora. Não conversamos com os visitantes, só com nossos amiguinhos. Isso afasta as pessoas. Achamos que integrar as pessoas é tarefa exclusiva do pastor, mas não é. Quando Jesus fala sobre isso, não separa os pastores das ovelhas. Todos são apresentados no mesmo nível. Isto é, Ele ressalta que o acolhimento é responsabilidade de todos, e não só dos líderes religiosos.
Às vezes, estamos tão preocupados com nossa própria vida, com as bênçãos que queremos receber, que nos esquecemos de acolher o outro. Queremos ser acolhidos, mas não queremos acolher. Por conseguinte, surge uma multidão de pessoas carentes, que só encontram o suprimento de sua carência em uma única pessoa: o pastor. Isso é muito ruim, porque a igreja deveria ser uma comunidade terapêutica, onde todos se preocupassem uns com os outros, e não apenas consigo mesmo. Não basta somente cumprimentar as pessoas, é necessário dar atenção, ouvi-las, se interessar, se preocupar com elas, ainda que não façam parte do nosso grupinho.
Tem tanta gente sedenta por atenção, por igualdade... Não podemos rejeitar ninguém. Gays, prostitutas, traficantes, todos devem ser bem-vindos e tratados da mesma forma que os demais.   

3 – VISITAR
            Esse ponto é um dos mais mal entendidos na igreja moderna. Isto porque, há uma tendência de transferir essa responsabilidade para os pastores. Entretanto, Jesus se dirige a todos os que estão à sua direita. Ele não faz distinção entre pastores, diáconos e ovelhas. Todos são ovelhas aos olhos do Todo-poderoso. Portanto, a todos cabe a responsabilidade de visitar. Afinal de contas, a visita é a expressão da comunhão. É a atitude de quem tem tudo em comum. Há momentos em que no templo não há comunhão. As pessoas chegam atrasadas para o culto, saem mais cedo, e não falam com ninguém. Contudo, nos lares a comunhão é possível.
            Se negligenciarmos esse aspecto da nossa espiritualidade, estaremos agindo como os fariseus, que viviam uma religiosidade vazia, centralizada no templo, mas não punham em prática a essência das Escrituras. Precisamos tirar o foco do templo e entender que temos de ser igreja dentro e fora do templo. Se somos ovelhas, temos de agir como um rebanho e permanecermos juntos.
            O problema é que acabamos terceirizando essa tarefa, achando que, se damos o dízimo, o pastor tem o deve de realizar aquilo que nos cabe, nos eximindo das responsabilidades. Assim, começamos a supervalorizar a visita pastoral. Até porque, se como pensam alguns, visitar é tarefa exclusiva do pastor, a visita dele se torna mais importante que a de qualquer outro. Pensando assim, muitos ficam choramingando querendo receber visitas pastorais. É claro que isso é um absurdo! Não há visita mais importante do que a outra. Todos somos iguais. O pastor não é um super-homem, é humano. Toda ovelha deve visitar, e toda visita deve ser vista igualmente. Haja vista que o pastor sozinho jamais dará conta de visitar todos sempre.
            Passamos o tempo todo cumprindo ritos, buscando bênçãos, querendo ser visitados pelo pastor (como se o pastor fosse um deus) e esquecemos de fazer a nossa parte. Ser igreja é estar junto nas casas também. É visitar os enfermos, os encarcerados, e todos aqueles que padecem. Às vezes, usamos uma série de justificativas para não visitar: “não aguento vê-lo nessa situação”, “não sei o que falar”, “não tenho tempo”, etc.
            É necessário romper as barreiras e cumprir nossa missão. Vamos visitar uns aos outros. Visitemos os novos convertidos para que possam se firmar na fé. Visitemos os enfermos a fim de levar um pouco de alegria aos seus corações. Porque, se estivéssemos no lugar deles, era exatamente isso que gostaríamos que nos fizessem. Lembremos de Mateus 7.12: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas”.

CONCLUSÃO
Não dá para dizer que somos ovelhas enquanto agimos como bodes, negligenciando nosso dever maior de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Isso é hipocrisia! É autoengano! É o que os bodes fazem. Enganam a si mesmos. Acham que são Filhos de Deus, mas não fazem a vontade do Pai. Seguem suas vidas achando que estão bem em relação a Deus, mas trilham o caminho espaçoso que conduz à perdição.

Se somos ovelhas, devemos ajudar os necessitados, acolher o diferente, e visitar as pessoas. Terceirizar isso é reconhecer que não temos a natureza adequada para realizar tais tarefas; é afirmar que somos bodes; indignos da morada celeste. “Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (1João 4.20). Portanto, amemos as pessoas e não somente “o ser amado por elas”; tiremos o foco do “eu”, e olhemos mais para eles: Deus e o próximo.

Pr. Cremilson Meirelles

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