sábado, 26 de julho de 2014

VERDADEIRO EVANGELHO? QUE NADA!

Ultimamente, tenho ouvido muitos dos que abandonaram a comunhão da igreja afirmarem que estão vivendo o verdadeiro evangelho. Quanto às suas antigas comunidades de fé, os dissidentes são unânimes ao dizer que são institucionalizadas, podres, idólatras, distantes dos princípios básicos da fé cristã, e irremediavelmente longe do verdadeiro evangelho. Contudo, quando analiso suas atitudes não consigo enxergar os traços do Jesus de Nazaré. Porquanto, seu “ministério”, se é que podemos chamar assim, consiste apenas em criticar tudo e todos. Ninguém presta, a não ser os ícones do desigrejamento, os quais são elevados ao mesmo nível dos tele-pastores. Isto é, seus ícones estão para eles tal como os "ungidos" estão para os neopentecostais. Até porque, conforme advogam, quem não pensa como eles ou é manipulado ou manipulador. Parafraseando o dito de  Natanael (Jo 1.46), os “verdadeiros servos de Jesus” entendem que nada pode vir de bom de “Nazaré”, ou seja, do ajuntamento chamado por eles de instituição.
Viver o verdadeiro evangelho, na concepção desses indivíduos, é ridicularizar os outros arrogando para si a propriedade do mais alto conhecimento bíblico e filosófico; é acusar os outros de imbecilização, é diminuir o próximo e superestimar o próprio ego. É mais ou menos assim: “quem não pensa como eu, é imbecil e manipulado”. Quanta santidade! Não consigo imaginar Jesus fazendo isso. Ele chamou sim os fariseus de hipócritas, mas nunca tentou ridicularizá-los ou colocar-se como super intelectual, reduzindo-os ao nível de Neandertais.
Será que isso é viver o verdadeiro evangelho? Abandonar os títulos eclesiásticos, mas fazer questão dos seculares, tais como escritor, líder de movimentos na internet, pensador, juiz, médico, etc. Não me lembro de Jesus incentivando esse tipo de coisa. Mesmo assim, todo mundo faz e não vê problema nenhum nisso. Problemático é só ser pastor, diácono ou qualquer outra coisa no contexto da igreja, ainda que esses títulos apareçam na Bíblia. Tudo é bom quando convém!
Criticam o clericalismo, mas não abrem mão do capitalismo, dos altos salários, etc. Estranho... Jesus viveria assim hoje? Pelo que me lembro, depois que iniciou Seu ministério, o Mestre não escreveu uma linha sequer, abriu mão de seu emprego, e passou o resto de seus dias na Terra propagando as boas novas. De igual modo, no livro de Atos, as pessoas vendiam suas propriedades ao invés de adquirir carros e casas luxuosas. Além disso, distribuíam tudo aos pobres. Quem faz isso hoje? Será que tem alguém vivendo como Jesus viveu? Nem os que alegam viver o “verdadeiro evangelho” o fazem! Por que não abrem mão de seus empregos, carros, casas, notebooks, tablets, I-phones, e doam tudo aos pobres?
Criticar é fácil. O mais difícil é amar as pessoas apesar de todas essas dificuldades. Foi para isso que Jesus nos chamou! Por isso, Ele mesmo reuniu um monte de problemáticos e denominou-os apóstolos. Justamente, para que pudessem aprender a amar a despeito das imperfeições. Pensando assim, consigo enxergar na “instituição religiosa” (maneira como os “verdadeiros cristãos” chamam a igreja) uma rica oportunidade de viver o evangelho genuíno. No meio de todos os problemas, amando todos aqueles imperfeitos, vivendo como Cristo, que não abandonou a comunidade judaica, antes, a priorizou na sua evangelização (Mt 10.6). O Mestre jamais abandonou o templo ou as sinagogas, só não fez deles o centro de sua vida. Lucas, inclusive, relata que era Seu costume ir à sinagoga aos sábados (Lc 4.16).
Se igreja é encontro, conforme advogam esses, porque não se encontrar com frequência para cultuar, como faziam nossos irmãos desde o primeiro século? De acordo com a Bíblia, eles se reuniam nos lares, mas também estavam juntos no templo (At 2.46). Muitas comunidades de fé observam essa prática nos dias de hoje: cultuam no templo aos domingos e durante a semana se reúnem nos lares, em pequenos grupos. Ah, mas isso também, como pensam os “verdadeiros cristãos”, faz parte de uma estrutura opressora e clericalista que quer somente manipular e usar os crentes a seu bel-prazer. Mesmo que essa “estrutura” ajude pessoas a serem inseridas, a se tornarem melhores seres humanos, continua sendo um instrumento “do mal”. Ainda que essa “estrutura” contribua com a saúde e a educação de nosso país, permanece sendo “maligna”. Eu hein! Que pensamento esquisito!
Por que será que a maioria dessas pessoas têm em comum o fato de terem sofrido decepções em relação às suas “instituições religiosas”? “Porque o sistema é falho, hipócrita e não vive o verdadeiro evangelho”, dirão eles. Então, por que muita gente permanece feliz nessas “instituições”? “Porque são imbecis e manipulados”, responderão. Mas, espera aí: só existem esses dois grupos? Imbecis e sabichões? Não existem pessoas que vivem o verdadeiro evangelho no contexto “institucional”? “Sim, mas é 0,00000001%, dirão eles”. Sabe, ninguém pode fazer esse tipo de leitura sem se colocar acima dos outros. Sinceramente, embora eu também seja um crítico do neopentecostalismo, reconheço que tem muito neopentecostal vivendo o evangelho muito mais do que alguns membros de igrejas históricas. Tem crente de verdade em todas as vertentes denominacionais. Não podemos nos considerar os únicos detentores de um conhecimento secreto que leva à salvação (gnosticismo?). Onde está a compreensão? Cadê a tolerância inerente ao amor?
No fundo, os propagadores desse “verdadeiro evangelho" são pessoas que não conseguiram conviver com os erros dos outros, que não conseguiram gerenciar suas emoções, e agora descontam nas instituições. O que eles queriam era não sofrer. Como sofreram, se voltaram contra os que lhes trouxeram o sofrimento. Isso é evidenciado pelas atitudes da maioria, que começa a se reunir nos lares, nas praças, nas salas de aula. O que eles queriam era se reunir com a igreja, mas do jeito deles. Como foram podados, se revoltaram e criaram seu novo grupinho, que no fim é uma reprodução do grupão do qual faziam parte, modificada para ser à sua imagem e semelhança.
O que mais me impressiona é que todo o conhecimento teológico que eles possuem, adquiriram com aqueles a quem eles se referem como “imbecis”, “manipulados”, “manipuladores”, “presos numa caixa”, “institucionalizados”, etc. Sem o “clericalismo” que tanto odeiam jamais poderiam ter estudado em uma instituição de ensino teológico (Ué, mas as instituições não são do capeta? Por que estudaram e estudam nelas?). É muita contradição para mim. Não dá para caminhar com esse povo.
Outra coisa que me intriga é que alguns dos que dizem que estão vivendo o verdadeiro evangelho enchem a cara de cachaça, fazem sexo fora do casamento, e são contra tudo e todos. Esse é o verdadeiro evangelho? Desculpa, mas se for isso, prefiro o “falso”; ou melhor, o que eles dizem que é falso. Sou feliz servindo a Cristo na minha “instituição”, “caixa”, “redoma”, ou seja lá como quiser chamar.
A propósito, quero ressaltar algo de suma importância a esse respeito: igreja não é encontro. É um organismo vivo! Encontro é algo efêmero. A igreja é perene, e é santa também. Não dá para enlarguecer o conceito de santidade a fim de legitimar a licenciosidade. Ser igreja não é só fazer ação social. Isso é parte da missão. É necessário anunciar a salvação. Jesus não veio só para dar um bom exemplo de comportamento. Ele veio para salvar a humanidade! Segui-lo sem anunciar isso, é negá-lo.
 Destarte, é melhor ficar na minha caixa do que viver esse “verdadeiro evangelho". Prefiro a bitolação à animosidade fomentada nesses grupos em relação às igrejas locais. Encontro muito mais amor nas “instituições” que nas palavras dos “verdadeiros” cristãos. Pelo menos lá, ninguém me chama de imbecil. E nem adianta vir com esse papo de que quem ama fala a verdade, porque eu posso muito bem falar a verdade sem ofender ou ridicularizar. Foi através da “instituição” que conheci Jesus, mas foi por meio dEle que conheci a graça. Então, olhei ao meu redor e só vi imperfeição. Foi aí que entendi a infinita dimensão do amor divino e o desafio proposto à igreja, de amar apesar dos erros, das falhas e das decepções. Portanto, agradeço a Deus pela “instituição” que Ele usou para me apresentar o evangelho, e louvo a Ele por permanecer nela.

Pr. Cremilson Meirelles

3 comentários:

  1. Muito bom! Argumentos perfeitos!

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  2. Shalom pastor, sou de uma igreja pentecostal e gosto do culto desse jeito, mas não discordo do Senhor.
    Gostaria de saber se, o sentir arrepiado, ficar trêmulo, rodopiar, dançar no 'mistério', isso chega a ser uma blasfêmia? Seria pecado?
    Pregamos o Evangelho com todo o Poder e autoridade que Jesus nos deu, almas são libertas através da pregação, pois temos pessoas com bastante conhecimento bíblico para isso e a glória de DEUS é manifesta.
    Então minha pergunta é?
    O movimento neopentecostal por se alegrar na presença do Senhor, através de tremedeiras, danças e rodopios, estamos pecando contra o Senhor?

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  3. Bem, uma coisa é certa: essas manifestações não têm amparo bíblico. Como herdeiro do protestantismo histórico, entendo que a experiência não pode nortear nossa conduta cristã. Isto se aplica a tudo o que fazemos, seja no momento de culto ou em outras ocasiões. A Bíblia deve ser nossa única regra de fé e prática.
    Jesus, a quem devemos imitar, não fez nada disso. Os apóstolos não rodopiavam, não se tremiam, não dançavam, e nem incentivavam ninguém a fazer isso.
    Não encontramos essas "manifestações" nem no culto judaico daquela época! Que dirá no culto cristão!
    O povo de Deus sempre se alegrou na presença de Deus sem precisar de "rodopios, tremedeiras ou danças". Não encontro uma só carta de Paulo que diga o contrário.
    Para sermos cristãos comprometidos com Deus e com intimidade com Ele, não precisamos dessas experiências extáticas (de êxtase). Só precisamos de Deus e de Sua Santa Palavra.

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