sábado, 5 de julho de 2014

RUMO AO $HEXA$

Embora o título acima pareça favorecer a campanha em prol do hexacampeonato da seleção brasileira, definitivamente, a intenção não é essa. Na verdade, o foco deste artigo são os cifrões que ladeiam o “hexa”. Isto porque, ainda que a esmagadora maioria seja aficionada no futebol, penso que o esporte mais popular do Brasil traz em seus bastidores uma história de manipulação de resultados, que beneficiam uma minoria endinheirada e atendem aos interesses políticos e econômicos da nação.
Com base nesse raciocínio, sou levado a crer que a seleção brasileira sagrar-se-á campeã da competição que ora disputa. Não digo isso porque reconheço que possuímos um bom time (nem estou acompanhando os jogos), mas por acreditar que há interesses maiores envolvidos. Uma derrota brasileira, sem dúvida, causaria um forte impacto político e econômico no país. O clima de insatisfação paira no ar já há algum tempo. Os protestos e as greves são a evidência disso. Ora, se a situação já estava tensa antes da copa, imagine se o Brasil perder! A oposição teria um prato cheio em suas mãos. Aí sim o governo estaria em maus lençóis. Por isso, acho que a coisa já está arranjada para a conquista do hexa. É claro que isso é só uma teoria. Além disso, mesmo o que foi previamente combinado pode falhar. Contudo, tenho de admitir: essa tese faz muito sentido! Basta olhar o histórico da corrupção no  futebol mundial!
O grande problema é que o fanatis... ops, o amor ao time, faz com que muitos não vejam o que está diante de seus olhos. Estes são ludibriados tal como ocorre com os expectadores de um show de mágica: o “mágico” os engana diante de seus olhos, manipulando sua percepção. Assim, inocentemente, continuam depositando sua fé em um sistema tão falho quanto todos os outros.
Todavia, ao contrário do que se pensa, corrupção não é coisa só de político ou de policial, ela faz parte do gênero humano desde há muito tempo. Porquanto, com a entrada do pecado no mundo todos nos tornamos corruptos e depravados. Logo, não deveria causar espanto, o fato de que existem falcatruas em toda atividade em que o homem está envolvido. Até mesmo no futebol!
Ah... mas como é difícil admitir isso! As pessoas brigam, discutem, esbravejam, mas não reconhecem as falhas do sistema. Elas querem acreditar porque isso alimenta algo que perderam quando lhes contaram que Papai Noel não existia. Isso me lembra o diálogo entre o Neo e o Morpheu no filme Matrix, onde, em dado momento Morpheu diz: “você tem que entender, que a maioria destas pessoas não estão prontas para serem desplugadas. E a maioria delas estão tão inerentes, tão irrevogavelmente dependentes deste sistema, que lutarão para defende-lo”. Infelizmente, tal como disse o “profeta” do cinema, a maioria prefere não enxergar; e ainda lutam pelo direito de continuar cegos.
Ao ouvir essa argumentação, os apaixonados pelo futebol tentam contra argumentar apontando situações que supostamente desmentem a teoria da “armação” dos jogos. Em relação à Copa do Mundo, por exemplo, alguns têm respondido que se, de fato, há alguma falcatrua para favorecer o Brasil alguém se esqueceu de avisar isso à seleção do Chile, pois no finalzinho do jogo eles acertaram uma bola no travessão. Se a bola entrasse, defendem eles, o Brasil estaria eliminado.
Conquanto reconheça o esforço e a sinceridade com que os advogados do futebol lutam para conservar a estrutura simbólica que lhes proporciona uma boa dose de dopamina[1], não vejo esses episódios, tal como o “quase” gol do Chile, como indícios da honestidade do sistema. Ao invés disso, vejo essas ocorrências como evidência da boa índole de um ou dois indivíduos, mas não do sistema. Até porque, em todo sistema comprado, há sempre pessoas honestas, que não se vendem. Isto acontece na política, na polícia e nas atividades comerciais. Sempre há alguém honesto. Estes, às vezes, complicam os corruptos. Acredito que esse foi o caso do Chile. Além do mais, como ressaltamos acima, se os "mágicos" profissionais conseguem nos enganar diante de nossos olhos, penso que simular um sufoco não deve ser tão difícil assim. Basta pensarmos um pouquinho.
Ora, todos admitem que existe corrupção na polícia, no congresso nacional, em algumas igrejas e diversos estabelecimentos comerciais. Até o cidadão comum se corrompe, fazendo “gato” de luz, água, TV por assinatura, dando propina a policiais, sonegando impostos, furando filas, etc. Pensa bem: se nos mais diversos setores da sociedade há corrupção, por qual razão no futebol, onde circulam montanhas de dinheiro, não haveria? Não creio que uma competição dessa monta seja isenta de fraudes. Há muita coisa em jogo (muito mais que uma bola). Há interesses políticos, econômicos e sociais. Para vencer uma copa ou jogo, muitos pagam. A copa de 98 levou muitos a refletir sobre isso. As apostas são milionárias! Se o Brasil ganhar, muita gente ganha. Por isso, acredito que a copa já está comprada.
Quem comprou não sei, mas não consigo olhar para o futebol, de um modo geral, e manter a inocência de alguns. É só pesquisar um pouco que encontramos os indícios de que a coisa não é tão “séria” quanto se pensa. Na edição 1924 da revista Veja, por exemplo, em novembro de 2005, foi exposta a “máfia do apito”, na qual o então árbitro da FIFA, Edilson Pereira de Carvalho, recebia cerca de R$ 15.000,00 por jogo “vendido”. Segundo a revista, a máfia envolvia

um grupo de empresários, donos de bingos em São Paulo e Piracicaba (no interior paulista) e o árbitro Edilson Pereira de Carvalho, um dos dez juízes brasileiros pertencentes aos quadros da Federação Internacional de Futebol (Fifa), que reúne a elite da arbitragem mundial. Com os resultados acertados com o juiz, a quadrilha lucrava em apostas milionárias em sites de jogatina na internet (RIZEK, 2005, p. 72).


No mesmo artigo, outras fraudes futebolísticas foram apresentadas. O que chama atenção, porém, é que elas não se limitam ao Brasil. Porquanto, também em 2005, o árbitro alemão Robert Hoyzer foi acusado de manipular resultados de jogos da segunda e terceira divisão e da Copa da Alemanha. E não para por aí. A coisa não envolve só juízes, mas atletas também. Recentemente, por exemplo, o clube espanhol Hércules foi acusado de comprar resultados para ascender à primeira divisão. Para tanto, um dos acionistas do time teria oferecido dinheiro ao goleiro da equipe adversária para que este entregasse o jogo[2]! Sinto muito, mas não dá para depositar fé nesse sistema.
            Outro ponto assaz importante para esta discussão é o livro, lançado este ano, escrito pelos repórteres Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha e Tony Chastiner, cujo título (Jogo Sujo) expressa claramente seu conteúdo e corrobora muitas das palavras ditas até aqui. De acordo com o site R7, “a obra mostra a trama de propinas, negociatas, traições e escândalos que envolvem Ricardo Teixeira e João Havelange no comando da CBF e da Fifa, respectivamente”[3].
Isso não é novidade nenhuma, pois, já em 1982, na edição 648 da revista Placar uma das maiores fraudes do futebol brasileiro foi posta às claras, a saber, a máfia da loteria esportiva. Esta, de acordo com a reportagem,

consistia em um esquema que “fabricava” resultados dos jogos de futebol visando beneficiar apostadores da loteria esportiva. A Loteca tinha 13 jogos por rodada e o apostador marcava em uma ou duas opções: sobre o time vencedor ou empate. Uma agência de notícias enviava à Caixa Econômica uma sugestão de partidas para serem inscritas nos bilhetes da Loteca. Cabia à CEF apenas pagar os vencedores. A reportagem deixa clara a lisura do órgão. O radialista e testemunha-chave, também: “A loteria esportiva é séria até a bola rolar”. Esse jornalista trabalhou durante sete anos no esquema. Apostadores de todo o Brasil o procuravam para sugerir as partidas que já haviam “fabricado” o resultado. Para essa produção, os apostadores – que eram desde empresários a cartolas, bicheiros e principalmente donos de lotéricas – subornavam árbitros, jogadores, técnicos e dirigentes (MAGAGNIN, 2009).


Há ainda outro livro, publicado em 1998, sob o título “como eles roubaram o jogo”, onde um jornalista inglês coloca em dúvida a honestidade das instituições que comandam o futebol em todo o mundo, sobretudo a FIFA. De acordo com o autor, um dos grandes maestros da corrupção no âmbito do futebol foi o brasileiro João Havelange, que presidiu o futebol mundial por 24 anos.
Isto, no entanto, é só a ponta do iceberg. Como esses, há muitos outros casos, só não foram descobertos. Por isso, há muito tempo deixei o romantismo de lado. Não torço mais. Não perco mais meu tempo vibrando por cidadãos que, cheios dos milhões, pouco se importam conosco. Para essa indústria somos somente “pagantes”. É assim que eles nos chamam. E tem gente que ainda briga por eles.
A coisa é tão gritante, que Ralf Mutschke, diretor de segurança da FIFA declarou publicamente que estava declarando guerra à manipulação de resultados das partidas de futebol em todo o mundo. Mutschke sublinhou que está, inclusive, sendo ajudado pela Interpol para a detecção das fraudes. Isso prova que o negócio existe mesmo. Até a instituição que coordena as competições mundiais reconhece isso! Por que muitos não enxergam?
A paixão pelo time é tão forte que alguns chegam a dizer que tem corrupção nos jogos de todos os outros clubes, mas quando o dele joga, é só honestidade. Uns poucos até admitem a manipulação, mas creem que só ocorre nas finais. Quanta inocência! As apostas são feitas ao longo de todo o campeonato! Logo, os corruptos vão tentar manipular tudo que for possível.
Ademais, não só os resultados são objeto de manipulação. O povo também é. Digo isso, em tese, mas é o que penso. Acredito que o futebol é mais um instrumento de manipulação das massas. O objetivo é manter o povo sem cultura, desejando mais ser jogador de futebol do que médico ou professor. É assim que a elite faz a manutenção de sua condição e nós fazemos a manutenção da nossa. Acerca disso, Schlatter (2009) salienta que “O futebol é um elemento marcante na trajetória política brasileira, tendo sido em diversos momentos usado como ferramenta por estadistas, que aproveitaram seu apelo popular como meio de manipulação e condução das massas”. Isto, sem dúvida, ocorreu não apenas no Brasil. Há registros históricos da utilização de conquistas esportivas para manipulação do povo em todo o mundo. Em 1934, por exemplo, o ditador italiano Benito Mussolini, aproveitou a conquista da Copa do Mundo pela Itália para divulgar o fascismo.
Estão nos dando “pão e circo” como faziam os imperadores romanos, e nós estamos gostando disso. Nossos filhos estão imitando o andar malandro e o corte de cabelo dos jogadores, achando que basta jogar futebol para vencer na vida. É uma propaganda anti-educação, uma estratégia que promove a imbecilização do povo, que visa manter-nos exatamente onde estamos. Quanto mais peões melhor. Que tristeza!
Em virtude disso, prefiro assumir uma posição de indiferença frente às competições profissionais. Não torço por nenhum time. Tenho mais o que fazer do que gastar meu tempo sofrendo, com os nervos à flor da pele, por causa de pessoas que nem sabem que eu existo. Considero que vivo melhor assim. Não discuto com ninguém por causa de futebol, não dou meu dinheiro suado para essa indústria milionária, e passo muito mais tempo com minha família. Não estou dizendo para você fazer o mesmo, só te convido à reflexão. Deus o abençoe!

Pr. Cremilson Meirelles 




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MAGAGNIN, Anna Catarina Lucca da Cunha. Reportagens Investigativas no Jornalismo Esportivo. Porto Alegre, 2009. Monografia (Graduação em Comunicação Social) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

RIZEK, André; OYAMA, Thaís. Jogo Sujo. Revista Veja. Rio de Janeiro: Abril, n. 1924, p. 72-80, 2005.

SCHLATTER, Bruno Belloc Nunes. Futebol e populismo: o esporte das multidões e a política das massas. Revista Historiador. Número 02. Ano 02. Dezembro de 2009. Disponível em: http://www.historialivre.com/revistahistoriador

YALLOP, David A. Como eles roubaram o jogo. Rio de Janeiro: Record, 1998.





[1] A dopamina é comumente associado com o sistema de prazer do cérebro, proporcionando sensações de prazer e de reforço para motivar uma pessoa proativa para realizar determinadas atividades.
[2] Disponível em http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,hercules-da-espanha-e-acusado-de-suborno-para-garantir-acesso,589778
[3] Disponível em http://esportes.r7.com/futebol/livro-que-denuncia-corrupcao-no-futebol-mundial-ganha-destaque-na-midia-17052014

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