sábado, 12 de julho de 2014

PRECAUÇÕES PARA EVITAR QUE SEJAMOS OBJETO DE ESCÂNDALO

Sermão pregado no dia 06/07/2014, na PIB em Manoel Corrêa
Texto Base: Lucas 17.1-6

No texto que lemos, vemos o Senhor Jesus fazendo uma afirmação que nem sempre levamos em conta: os escândalos são inevitáveis. Mas por que ainda nos espantamos com eles? Por que muitos deixam de frequentar o templo, de desfrutar da comunhão da igreja por causa deles? Ora, se sabemos que eles acontecerão, por que se indignar diante deles?
Embora as palavras do Mestre ressaltem a inevitabilidade dos escândalos, elas também apontam o prejuízo deles. Até porque, no texto grego, o termo que Jesus (skándalon) usa dá a ideia de algo que causa tropeço, que leva uma pessoa a cair no pecado. Nisto está incluído o falso ensino, mas também as atitudes impensadas, as palavras duras, e diversas outras atitudes que levam o outro ao tropeço.
Por isso, Jesus declara que seria melhor que o indivíduo que praticasse tais atos contra o próximo, tivesse morrido. E a morte sugerida por Ele é extremamente desonrosa, haja vista que o indivíduo deixaria de ser sepultado, o que era vergonhoso na época. Portanto, aos olhos de Cristo, ferir ou desencaminhar alguém voluntariamente, levando-o a afastar-se da comunhão, é um crime hediondo. O interessante é que sua afirmação diz respeito a todo ser humano, e não somente às crianças. Porquanto, ao usar o termo “pequeninos”, se refere aos membros da comunidade considerados insignificantes e de somenos importância.
Destarte, ainda que Jesus tenha asseverado que os escândalos são inevitáveis, precisamos evitar que eles venham através de nós. Para tanto, é necessário tomar algumas precauções, as quais são pontuadas pelo Mestre no texto em pauta e pretendo compartilhar com você neste sermão.
    
1 - Cuidar de si mesmo
Este primeiro tópico parte da declaração inicial de Cristo, no versículo 3, a qual, na verdade, é a conclusão do que fora dito nos versículos 1 e 2. Ao traduzir o discurso de Jesus para o grego, o evangelista usou a expressão prosécho (estar preocupado, ser cuidadoso, estar vigilante) heautoîs (pronome reflexivo que diz respeito ao próprio, à você mesmo). Com isso, Ele estava dizendo a seus discípulos que, para evitar os escândalos, deveriam ser cuidadosos com eles mesmos.
Em princípio, isso parece fácil, mas na prática não é tão simples assim. Cuidar de si mesmo fisicamente já é um pouco difícil para alguns, imagine socialmente e espiritualmente! A tendência humana é sempre cuidar mais dos outros que de nós mesmos. Estamos sempre preocupados com a vida dos outros, com o que eles fazem e o que deixam de fazer. Nossas vidas seguem focadas no outro, mesmo que não reconheçamos isto. Criticamos, apontamos erros, elogiamos, amamos, mas sempre o foco é o outro. Isto se aplica até àqueles que se consideram autossuficientes, melhores que todos, pois estes precisam de uma plateia para sua arrogância, de alguém para pisar.
O grande problema é que todos temos telhado de vidro. Isto é, podemos incorrer amanhã nos mesmos erros que condenamos hoje. Por isso, a orientação de Jesus é assaz pertinente. Precisamos cuidar de nós mesmos! Se teu irmão adulterou, cuidado! Se você não fizer a manutenção do seu casamento e do seu relacionamento com Deus, pode ser o próximo! Se alguém se afastou do convívio da igreja por causa de uma palavra dura que ouviu, não critique o irmão que a proferiu. Ao contrário, seja vigilante para que você não provoque o mesmo resultado. Refreie sua língua! Controle seu linguajar, porque ao usar palavrões, certamente você causará escândalos, levando outros a tropeçar.
Todavia, sabemos que o que mais escandaliza não são palavras, mas atitudes, tais como: desonestidade, agressão física, fornicação, adultério, etc. É bem verdade, no entanto, que algumas dessas atitudes são postas em práticas, muitas vezes, por intermédio de palavras. Não obstante, o que quero salientar é a necessidade de estarmos preocupados com nossa conduta, lembrando que tudo o que fazemos afeta, direta ou indiretamente, o próximo. Até mesmo a falta de cuidado com a própria saúde atinge outras pessoas. Porque, se não nos cuidarmos hoje, amanhã as pessoas que amamos sofrerão, tendo que cuidar de nós ou lidando com a dor da perda. Por isso, é de suma importância dar ouvidos a Jesus e cuidar de nós mesmos.
Alguém, entretanto, pode retrucar: “ué, mas a Bíblia não diz que Deus cuida de nós? Por que tenho de cuidar de mim mesmo”? A estes digo: o fato de Deus cuidar de nós não nos exime do cuidado pessoal. Se não fosse assim, por que haveria mandamentos? A resposta é fácil: pelo simples fato de que Deus não fará tudo por nós. O bom andamento das relações interpessoais é responsabilidade nossa! Nem Deus nem o pastor podem nos forçar a tomar certas atitudes. Até mesmo na manutenção de nosso relacionamento com o altíssimo a responsabilidade é nossa. O Senhor não te força a orar ou ler a Escritura, apenas te concita a fazê-lo. É claro que a inobservância dessas práticas, naturalmente, nos enfraquece. Daí a necessidade desse cuidado pessoal.
Não permita que sua vida influencie outras negativamente. Seja um bom exemplo! Ore, leia a Bíblia todos os dias, ame as pessoas como Jesus amou, se preocupe com elas, compartilhe as boas novas. Em suma, viva o evangelho! Esse é o cuidado que Cristo espera que você tenha em relação à sua vida. Só assim o impacto causado será positivo.
           
2 - Perdoar
Definitivamente, esta é uma das atitudes mais difíceis não só no contexto da igreja, mas em todo relacionamento humano. Muitos, na verdade, não querem fazê-lo; acham que é humilhação, rebaixamento. Por conta disso, a maioria prefere a primeira orientação de Jesus em relação ao pecado de um irmão, a saber: “repreende-o” (v. 4). Alguns, inclusive, fazem isso com prazer: chamam a atenção, brigam, esbravejam, e até agridem.
Porém, certamente, não foi isso que Jesus quis dizer com “repreende-o”. Nós é que damos vazão à carnalidade e fazemos acusações e exigências quando alguém erra conosco. O que Cristo recomenda é que exponhamos o problema ao ofensor e expressemos o desejo de restaurar a comunhão.  Até porque, o objetivo dessa atitude é a solução do problema, e não aumentá-lo, provocando um escândalo.
Apesar disso, a maior dificuldade no tocante à prática do que Jesus falou é que o perdão é sempre algo que esperamos do outro: ou exigimos que eles nos peça, ou pedimos que ele nos perdoe. Creio, inclusive, que esse é um dos maiores problemas da igreja. Grande parte dos membros das comunidades de fé deste tempo têm questões mal resolvidas no que tange ao perdão. Há pessoas que passam a vida toda na igreja sem perdoar, abrigando o ódio e mágoa em seus corações. O pior de tudo é que, às vezes, o objeto do ódio já até faleceu, mas o indivíduo ainda não perdoou.
É triste, mas isso causa não só sofrimento à pessoa que mantém o ressentimento no coração, mas produz escândalo. Isto porque, na maioria das vezes, essas pessoas exercem cargos na igreja. Assim, vendo-as, alguns questionam: “como é que pode?!?! O camarada canta, prega, dirige cultos, mas não fala comigo”?!?! Muitos têm tropeçado por causa desses maus testemunhos... O pior de tudo é que tem gente que nem tenta perdoar. Simplesmente tenta justificar sua postura apontando o temperamento ruim do outro. Alguns ainda tentam se justificar usando as palavras de Jesus, dizendo: “ora, como Jesus disse, eu só tenho que perdoar ‘se ele se arrepender’. Tá vendo aí? Não estou errado, ele não se arrependeu”.
No entanto, quero chamar sua atenção para um detalhe no texto que lemos. Jesus nos manda irmos ao encontro do ofensor. Isto é, a iniciativa de buscar a reconciliação deve ser nossa. Ora, se você vai ao encontro de alguém a fim de se reconciliar, pronto a perdoar se ele se arrepender, é porque no seu coração já há a disposição de deixar de lado a ofensa, ou seja, no seu interior você já perdoou, só falta agora a verbalização do perdão. Além disso, quando analisamos o texto paralelo de Mateus 18.15-17, vemos que a coisa se intensifica mais ainda se a pessoa não se arrepender. Porquanto, o Mestre diz que se o ofensor não se arrepender devemos considerá-lo como gentio ou publicano. Diante disso, eu pergunto: como Jesus tratava os gentios e publicanos? Como amor ou com desprezo? É claro que a resposta é: com amor. Jesus se assentava com eles, os acolhia, apresentava-lhes o evangelho. Logo, se a pessoa não se arrepender, é seu dever amá-la ainda mais, tal como Jesus fez com os gentios e publicanos.
Precisamos abrigar em nossos corações o desejo da reconciliação, não da vingança. Como a Bíblia diz, “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor” (Rm 12.19). Confie na justiça divina. Isso compete a Ele, não a você. Não permite que a mágoa, a amargura, o ressentimento tomem conta do seu coração. Inevitavelmente, isso atingirá outros. Não é à toa que a Escritura adverte: “tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem” (Hb 12.15).
           
3 - Ter fé
             Ao ouvir as palavras do Mestre, os discípulos, impressionados com seus ensinamentos, clamam: “aumenta-nos a fé” (v. 5). Sem dúvida alguma, a reação deles demonstra seu espanto em relação àquilo que Cristo estava requerendo. Afinal, os padrões estabelecidos por Ele estavam, claramente, acima da capacidade humana. Tratava-se de algo que nunca lhes fora ensinado. Por isso, se espantaram e pensaram: “precisamos de mais fé”.
Contrariando o pensamento dos discípulos, Jesus explica que a questão não é ter uma fé maior ou menor, mas ter alguma fé. Para exemplificar isso, Ele usa o grão de mostarda, uma semente de dimensões ínfimas. De acordo com Cristo, bastaria que eles tivessem fé, mesmo pequena, pois a menor quantidade de fé já é suficiente para realizar feitos extraordinários. Tão extraordinários quanto perdoar alguém 7 vezes no mesmo dia, ou 490 vezes, como vemos Mateus 18.21,22. A imagem da amoreira mostra exatamente isso. Jesus não estava falando, literalmente, da remoção de uma planta; a ideia que Ele quer transmitir é que até mesmo a falta de perdão, a mágoa, o ódio, podem ser removidos por Deus de uma vez por todas. Basta ter fé.
 O que Jesus destaca ao usar a figura da planta atirada ao mar é mais profundo do que parece, visto que traz à lume uma de nossas características mais gritantes: cremos que o mar abriu, que Cristo ressuscitou, que pessoas podem ser curadas de enfermidades físicas ainda hoje, que Deus pode resgatar pessoas dos vícios, mas quando se trata da mágoa que carregamos em nossos corações achamos que Ele dificilmente removerá aquilo que nos impede de perdoar.
A fé da qual Jesus fala no texto não se resume a crer em milagres. Isso não é fé. O termo grego traduzido como fé, dá a ideia de confiança, fidelidade, não de crença em milagres. Porquanto, crer em milagres muitos creem, até os demônios (Tg 2.19). Ter fé é mais do que isso; é confiar no Senhor, é entregar a vida nas mãos dEle, como fizeram os heróis da fé de Hebreus 11, é depender dEle em tudo. Só assim, o que nos impede de perdoar será completamente removido. Creia que Deus é capaz de fazê-lo. Até porque, o propósito dEle é muito maior do que realizar curas de doenças físicas. O que Ele quer é transformar os corações.
Quando mostrarmos essa fé, aquele nos ofendeu se escandalizará positivamente, pois perceberá que algo além da capacidade humana foi realizado. Isto só pode vir de Deus. É disso que o mundo precisa: de graça! Cristo mostrou graça em todo o seu ministério terreno. Agora, após a Sua ascensão aos céus, cabe ao Seu Corpo fazê-lo. É tarefa da igreja mostrar graça neste mundo corrompido pelo pecado. Temos de lembrar que só nos tornamos família de Deus porque fomos alvo de um amor incondicional. É nosso dever levar esse mesmo amor aos outros, a fim de que, por intermédio de nossas vidas, conheçam a Cristo.
Deixe Deus trabalhar em seu coração, levando-o a amar até mesmo àqueles que te fizeram mal. “Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo”? (Mt 5.46). Só assim, nossa fé em Deus evitará o escândalo negativo e influenciará positivamente os que nos rodeiam.

CONCLUSÃO

            Como vimos, conquanto os escândalos sejam inevitáveis, podemos evitar que eles venham através de nós. Por isso, eu te convido a seguir os parâmetros aqui expostos, não porque fui eu quem os expôs, mas porque Cristo nos ensinou assim. Portanto, cuide do seu relacionamento com Deus e com o próximo. Não transfira essa responsabilidade para o pastor ou para Deus, ela é sua. Preocupe-se com seu testemunho pessoal. Não seja instrumento de tropeço, mas de agregação. Peça a Deus que remova aquilo que te impede de perdoar, pois só assim você poderá seguir em frente, sendo bênção no contexto da igreja. O perdão é terapêutico, precisamos dele.

            Tudo isso só será possível, entretanto, se você tiver fé. Ela é o marco zero da vida cristã. Tudo o que fazemos como cristão tem por base a fé. Logo, se você quer ser objeto de um escândalo positivo, tenha fé. Confie no Senhor! Ele é plenamente capaz de mudar teu coração, levando-o, inclusive, a perdoar quem te magoou, te espancou, quem abusou de você. Deus pode fazer isso! Tenha fé! 

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