sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

3 FORMAS DE ENXERGAR A REALIDADE

Mensagem pregada no dia 08/11/13 na PIB em Manoel Corrêa
Texto Base: 1 João 4.20
Será que todos nós vemos o mundo do mesmo jeito? Será que olhamos para as pessoas da mesma forma? Acredito que não. No texto em pauta, o apóstolo João trata exatamente dessa diferença de olhares. Ele olhava para o ser humano e via alguém que deveria ser amado, porém sabia que havia pessoas que, embora admitissem amar a Deus, não amavam o próximo. É justamente neste ponto que se encontra a maior dificuldade humana: o bom relacionamento. Isto porque, somos seres relacionais, ou seja, estamos sempre em relação com algo ou alguém. Ora nos relacionamos conosco, ora com as coisas, ora com o outro e ora com Deus. A maneira como enxergamos a realidade é que vai definir como se processarão essas relações. Quem é Deus pra mim? Quem é o outro pra mim? Quem sou eu? O que as coisas representam pra mim? Responder a essas perguntas é de suma importância para que possamos conduzir nossos relacionamentos de maneira agradável a Deus. Por isso, gostaria de apontar nessa mensagem três formas de enxergar a realidade.

1-     A PARTIR DO “EU”
Infelizmente, esta é a nossa inclinação mais forte. Tendemos a enxergar o mundo a partir de nós mesmos. É como se tudo estivesse circunscrito ao meu ego. Tudo e todos devem convergir para mim. O que não sou “EU” deve ser “MEU”. Esquecemos que quando dizemos “EU”, o “TU”, naturalmente está presente. De outra maneira, quem seria o receptor? Para quem se diria “EU”? Definitivamente, não há “EU” sem “TU”. A realidade relacional em que vivemos só existe a partir dessa dupla inseparável chamada “EU” e “TU”.
O grande problema é que não conseguimos reconhecer o outro como relevante, como ser independente. Normalmente, vemos o mundo a partir da perspectiva do “EU”. Isto é, o mundo é o “meu mundo”, a rua é a “minha rua”, o trabalho é o “meu trabalho”, a igreja é a “minha igreja”. Note bem. Excluímos o outro o tempo todo. Consideramos nossas experiências como padrão, como regra. Todos devem se enquadrar na nossa maneira de experimentar as coisas. Nossos pensamentos são sempre mais importantes do que o dos outros. Por isso, os impomos às outras pessoas. Nossos sentimentos são sempre mais preciosos, nossa experiência sempre mais veraz. Talvez, essa seja a causa do melindre e da hipersensibilidade de muitos, que entendem que tudo o que o outro faz é para feri-lo, ou que deveria ser feito para agradá-lo. O mais triste é que tudo isso nos faz sofrer. No final, somos nós mesmos que pagamos a conta.
Essa ideia de que o mundo é uma extensão de nós mesmos, de que tudo gira em torno de nós, é resultado do anseio, inerente a todo ser humano, de retornar ao estado primevo. Sabe, quando éramos bebês tudo girava em torno de nós: as pessoas nos paparicavam, brigavam para nos pegar no colo, para nos dar comida, disputavam para nos dar os melhores presentes. Em suma, vivíamos como reis. Contudo, aos poucos essa vida foi sendo tirada de nós. Primeiro alguém disse que devíamos andar; em seguida, nos mandaram comer sozinhos; depois, disseram que teríamos que fazer nossa higiene sozinhos; até que, um dia, nos cobraram um emprego. Mas o mais interessante é que passamos o resto da vida querendo voltar à antiga condição, isto é, a sermos bebês. Acredito, inclusive, que alguns nunca deixaram de ser. Mas a maioria de nós anseia por uma vida “perfeita” na qual terá pessoas para lhe servir, paparicar, não precisará fazer esforço, pois terá motoristas (pessoas que nos levarão, tal como faziam quando éramos crianças). O problema é que um dia voltamos a essa condição (na velhice, ou na enfermidade). É aí que percebemos o quão importantes são as pessoas. Passamos a vida toda pensando em nós mesmos, sem considerar o “TU” como um outro “EU”, achando que só a nossa existência é relevante. Tempo desperdiçado.
Amado, o mundo, a vida cristã, a família, a vida conjugal, não estão limitados ao seu ser. Na verdade, são muito maiores que isso. Há vida além de nós mesmos. Existe outra vontade além da minha. Não podemos exigir que as pessoas pensem como nós, não podemos obriga-las a fazer algo que elas não conseguem realizar. Precisamos amar alguém além de nós mesmos (Mt 22.39). Quando enxergamos o mundo a partir de nós mesmos, não conseguimos enxergar o próximo. O resultado é aquilo que João destaca no texto em questão: dizemos amar a Deus, que não vemos, mas não amamos o próximo, ao qual vemos.

2-     A PARTIR DO “TU”
Como falamos, o simples fato de proferirmos o pronome “EU” já pressupõe a presença do “TU”. Até porque, um não existe sem o outro. Eu sou o “TU” para o outro e o outro é o “TU” para mim. Entretanto, algo que nos inquieta é a limitação que o “TU” nos impõe. Não posso possuí-lo, não posso controlar sua vontade, seu pensamento, seus sentimentos. Ele escapa ao meu controle! É livre em relação a mim. Não posso mudar isso. Mesmo que o escravize, nunca conseguirei total controle sobre ele. Muitos tentaram fazê-lo sem êxito. Pela força, tentaram superar a limitação imposta pelo “TU”, mas falharam. Isto porque, os escravizados, os dominados, continuavam pensando livremente, sentindo e experimentando cada coisa do seu jeito. Isso ninguém pode mudar!
Nossa dificuldade de enxergar a realidade a partir do “TU” reside no sentimento de estranheza que ele causa em nós. Porquanto, de certa forma, a realidade fora do “EU” é estranha, perigosa. Por isso, tento moldá-la para que se pareça comigo, tento encontrar nela traços de mim mesmo para que, através da identificação, possa torná-la familiar. Ajo como se o outro fosse uma coisa, algo que posso manipular. Aliás, temos a tendência de preferir a relação com as coisas do que com as pessoas. Isto porque, com as coisas podemos manter uma relação unilateral, visto que elas não respondem. São apenas manipuladas, fazemos delas o que queremos. Esse “controle” nos acalma. Por isso, queremos fazer o mesmo com as pessoas. Isto é, toda decisão ou ação parte de mim. O outro nunca tem o direito de pensar, sentir ou decidir, e mesmo se o fizer não terá importância nenhuma para mim. Entretanto, precisamos entender que a coisa não é um outro “EU”. Não há reciprocidade entre mim e uma pedra, por exemplo, mas entre o “EU” e o “TU” há. Portanto, tratemos o outro com igualdade. Esse é o princípio básico do Cristianismo: “amar o próximo como a mim mesmo”. Em resumo: da mesma forma que eu me considero digno de ser amado, respeitado e reconhecido, devo considerar o próximo. Preciso entender que, assim como eu, ele enfrenta dificuldades, tem limitações e é tão carente da graça divina quanto eu. Isso é enxergar a realidade a partir do “TU”.
Ademais, não podemos esquecer que ao mesmo tempo que o outro é igual a mim, ele também é diferente. Por isso, eu não tenho que querer que ele seja como eu, que pense como eu, que sinta como eu. Ele é único, assim como eu. Quando digo “EU” reconheço que existo como ser, diferente do mundo à minha volta. Da mesma maneira, quando digo “TU” reconheço que o outro existe e é diferente de mim, pois se fosse igual seria “EU”. É necessário entendermos que vivemos em um universo plural, onde o objetivo deve ser viver a realidade do “NÓS”, ou seja, do bom relacionamento com essa pluralidade, não do egocentrismo tão alimentado por nossa sociedade.

3-     A PARTIR DO “ELE”
Tudo o que “EU” nomeio como “ELE” traz em si uma ideia de distanciamento, porque se fosse próximo seria “TU”. “ELE” é estranho para mim, não faz parte do grupo. Por isso, me causa desconforto. Todavia, à medida que alguém se aproxima, deixa de ser “ELE” e passa a ser “TU”. No entanto, inicialmente, todos para nós são “ELE”. Esse é o princípio que utilizamos para segregar. Só integramos alguém, só nos aproximamos quando há familiaridade, quando há identificação. Do contrário, não há relacionamento.
Com base nesse princípio, buscamos transformar “ELE” em “TU” através da imposição de nossos pensamentos e/ou comportamento. Forçamos o outro a falar como nós, a vestir-se como nós, a cortar o cabelo como nós. É isso que as “tribos” da juventude pós-moderna fazem. Infelizmente, até nós, como crentes, às vezes, agimos assim. Consideramo-nos detentores da verdade e excluímos aqueles que discordam dessa verdade. Precisamos amar mais, ver o outro como “TU” sem que seja necessária essa “adequação”. Se a pessoa vai mudar, o responsável por essa mudança é o Espírito Santo, não nós.
Outra forma de transição é a identificação. Isto é, só transformo “ELE” em “TU” quando percebo nele características do “EU”. Se isso não acontece, mantenho distância. Isso aconteceu entre negros e brancos durante muito tempo. O negro era “ELE” porque sua cultura e sua cor eram diferentes. Contudo, eu quero te dizer uma coisa: pra Deus você nunca foi “ELE”. Para Ele, você sempre foi “TU”. Desde o princípio, Ele buscou relacionamento conosco. Nos criou à sua imagem e semelhança para mostrar que há identificação entre Ele e nós. Ele se adequou ao nosso entendimento, utilizando uma linguagem humana para se revelar. Ele até mesmo se encarnou, adequando-se por completo à nossa realidade. Tudo isso, para que você o visse como “TU” e não como “ELE”.
Diante disso, eu pergunto: quem é Deus pra você? O “TU” eterno, o totalmente outro, diferente de tudo que você já viu, esse mistério tremendo e fascinante com o qual você se relaciona? Ou você o relegou à posição de “ELE” mantendo-se distante, procurando-o somente quando precisa? Sabe, às vezes, queremos fazer com Deus o que fazemos com o outro. Queremos que ele seja a extensão do nosso “EU”, que faça nossas vontades, que cumpra nosso querer. Todavia, se Ele fizesse isso, não seria Deus, seria “EU”. Temos de vê-lo como “TU”. Porquanto, o “TU” não está sob meu controle. Ele faz o que quer. Deus é plenamente livre. Não podemos dominá-lo. Temos, na verdade, que nos submetermos a Ele.

CONCLUSÃO


            Visto isso, concluímos que, embora os relacionamentos sejam difíceis, precisamos aprender com Cristo como devemos proceder para que eles sejam saudáveis. Não podemos enxergar o mundo a partir de nós mesmos. Isto nos faz desprezarmos o outro. De igual modo, olhar para o outro sempre como “ELE” nada tem a ver com a mensagem de Jesus. Segregação nunca fez parte do evangelho. Portanto, não pode existir no contexto da Igreja. Olhar a partir da perspectiva do “TU”, deve ser nossa meta. Até porque, acredito que foi assim que Jesus olhou para nós. Deixemos de lado os preconceitos, os prejulgamentos, e assumamos uma postura mais agregadora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário