quinta-feira, 7 de novembro de 2013

IGREJA X INSTITUIÇÃO




Após muita relutância, decidi escrever algo sobre a relação entre instituição e igreja. Isto, com o fito de responder a alguns questionamentos suscitados por defensores de um pensamento anti-institucionalista, cuja posição tem se mostrado contrária a toda e qualquer estrutura religiosa hierarquizada e burocratizada. Reconheço, entretanto, que muitos deles têm o desejo sincero de servir a Cristo integralmente, e até concordo com algumas de suas colocações. Discordo apenas da aparente animosidade demonstrada pelos mesmos quando se trata das igrejas locais e das denominações evangélicas, além de divergir de alguns de seus conceitos. Antes, porém, quero sublinhar que não nutro nenhum ressentimento em relação a eles. Por isso, quero manter essa discussão no campo das ideias. Não tenho a intenção de criticar pessoas, mas sim de refletir acerca do relacionamento entre igreja e instituição.
Ao tratar de um tema tão controverso, creio que o primeiro passo deve ser a conceituação. Até porque, como discorrer sobre aquilo que não sabemos o que é? Muitos erros, inclusive, decorrem justamente do entendimento equivocado de alguns termos. Esta, na verdade, não é uma deficiência de alguns, mas uma dificuldade inerente a toda humanidade. Há um abismo entre nós no tocante à comunicação. Tentamos transpô-lo por meio das palavras. Contudo, estas nem sempre expressam com precisão o que pensamos. Às vezes, queremos dizer uma coisa, mas o receptor compreende outra totalmente diferente. Assim, com o escopo de viabilizar um melhor entendimento, começaremos trilhando a senda etimológica.
O termo instituição origina-se do latim institutio, derivado de institutus, particípio passado de instituere, que dá a ideia de definir, estabelecer. A palavra é formada do prefixo latino in (em) somado ao verbo statuere (fazer ficar em pé)[1].  O sentido original da expressão evoca a noção de fundar ou principiar algo. Esse “algo” sempre teve um caráter coletivo, ainda que não se tratasse, necessariamente, de uma estrutura organizacional. Este conceito parcial de instituição, na verdade, foi posteriormente atribuído à palavra. Porquanto, na sua essência, o termo não aponta exclusivamente para um espaço físico, uma entidade, estabelecimento ou organização pública ou privada, mas diz respeito às normas e regras que cosem a tessitura da sociedade. Esses preceitos, costumes ou leis duradouras, estabelecidos formal ou informalmente, com efeito, estruturam as relações sociais, sendo, por conta disso, sancionados pela sociedade. No entanto, em virtude de seu caráter coletivo, as instituições, podem ser vistas como expressão da cultura de um povo, variando, por conseguinte, geográfica e cronologicamente.
De acordo com Roland de Vaux (2004, p.15), renomado historiador e arqueólogo francês, “instituições de um povo são as formas de vida social que esse povo aceita por costume, escolhe livremente ou recebe de uma autoridade”. Dando sequência ao raciocínio, de Vaux afirma que “os indivíduos se submetem às instituições, mas estas, por sua vez, não existem senão em função da sociedade que regem, quer se trate de uma sociedade familiar, política ou religiosa”. Em suma, instituições são estruturas cognitivas que regulam as relações humanas, em suas dimensões políticas, religiosas, familiares, econômicas, etc.
À luz desse pensamento, percebemos claramente que não há como nos desvencilharmos das instituições, pois elas são o cimento da vida social. A família, o casamento, os ritos sociais e religiosos, a divisão do tempo, a metrologia, são exemplos de instituições de um povo. Trata-se de instâncias que antecedem a existência do indivíduo, sendo, portanto, exteriores a este. Isto é, já nascemos ligados à realidade institucional. Somos inseridos coercitivamente nessa realidade assim que chegamos ao mundo. Até porque, as instituições são veículos para a satisfação das necessidades humanas. Logo, negá-las, como diria Durkheim (2002), é negar o fato social, e, consequentemente, a própria sociedade, pois aquelas são mecanismos protetores desta.
Conforme explica o Dr. Huáscar Fialho Pessali, professor da UFPR, para identificar uma instituição é necessário observar três elementos fundamentais: “uma ação regular; o estabelecimento ou ajuste de regras ou normas que geram repetição, estabilidade e uma ordem previsível; e um senso geral explicando, justificando ou legitimando as atividades e as regras”. Ao observar esses elementos, percebo a presença de cada um deles no ajuntamento dirigido por Jesus de Nazaré. Porquanto, o mestre galileu tinha o ensino e a proclamação como a ação regular de seu ministério. Além disso, Ele mesmo propôs a seus discípulos que houvesse reuniões (Mt 18.20) e que estas fossem regulares (Lc 22.19). Outrossim, Cristo, quando instituiu o batismo e a ceia e ordenou a proclamação, estabeleceu regras que geraram repetições, estabilidade e uma ordem previsível. Ademais, sua ressurreição foi o fato que se tornou senso geral entre os discípulos, servindo para explicar e legitimar as atividades e as regras.
O movimento fundado por Jesus também pode ser enquadrado na perspectiva institucionalista de Thorstein Veblen, o qual aponta a estabilidade e a permanência como pressupostos da instituição (SILVA, 2010), além de elencar a homogeneidade como uma de suas qualidades. Ora, estabilidade, permanência e homogeneidade são aspectos que Jesus buscou implementar em seu ministério terreno. Ele encorajava seus discípulos a perseverarem (Mc 13.13) na observância da fé por Ele propagada, o que evidencia seu desejo de um grupo homogêneo (a mesma fé), perpétuo (até o fim) e estável. Porque, mesmo que, diante de algumas palavras de Cristo muitos o abandonassem (Jo 6.66), os doze sempre permaneciam (Jo 6.67,68), o que denota a estabilidade do grupo. O simples fato de alguns elementos do ensino de Jesus se manterem em todos os segmentos cristãos, denota a perpetuidade daquilo que o mestre instituiu, bem como uma homogeneidade elementar.
Da mesma forma, é possível verificar no ajuntamento cristão primevo o conceito defendido por de Vaux. Isto porque, os discípulos passaram a experimentar uma nova forma de vida social com base naquilo que receberam de Jesus, a quem reconheciam como autoridade. Aliás, foi o próprio Messias quem escolheu seus líderes, chamados apóstolos; confiou a um deles a tarefa de cuidar das finanças (Jo 12.1-6); e estabeleceu regras de conduta para seus discípulos (Mt 5.1 - 7.29). Em adição, vale salientar que o termo grego (ekklesia) empregado pelo Filho de Deus para referir-se aos seus seguidores tem origem em uma reunião institucional, caracterizada por convocações com intervalos regulares. “Sua esfera de competência incluía decisões quanto às sugestões para mudanças da lei, às nomeações para posições oficiais e – pelo menos no seu apogeu – quanto a toda questão importante da política interna e externa” (COENEN; BROWN, 2000, p. 984). A cada cidadão era reservado o direito de falar e propor assuntos durante a reunião. A ekklesia estava intimamente ligada à religiosidade do povo. Tanto, que suas sessões eram abertas com orações e sacrifícios aos deuses locais. Ora, à época havia outras palavras gregas que poderiam ter sido empregadas com referência ao corpo de Cristo, tais como thiasos (assembleia cúltica para adorar um deus), eranos (fraternidade que celebrava festas, para a qual contribuía cada participante), koinon (aquilo que é comum), synodos (grupo de pessoas que seguiam no mesmo caminho) e synagoge[2] (comunidade cúltica).
Naturalmente, diante dessas asserções, alguém pode objetar argumentando que Jesus falava aramaico, não grego. Logo, possivelmente, o termo usado por Ele foi o hebraico kahal. Porém, ressalto que, na Septuaginta, utilizou-se ekklesia para traduzir o termo kahal. Mesmo assim, é necessário frisar que nos trechos em que kahal é traduzido como ekklesia, “indica a assembleia do povo ou uma assembleia jurídica (e.g. Dt 9.10;23.3 e segs. Jz 21.5, 8; Mq 2.5), o corpo político (e.g., os exilados que voltaram: Ed 10.8, 12; Ne 8.2, 17)” (Op. Cit. p. 988). Ao passo que, especialmente em Crônicas, diz respeito à assembleia do povo para a adoração (2Cr 6.3; 30.2, 4, 13, 17). Por outro lado, o termo também fora utilizado para traduzir o hebraico kahal quando este apontava para a assembleia do povo de Deus reunida para atender a convocação de Iahweh. Assim, acredito que se os evangelistas utilizaram tal termo, só o fizeram porque entenderam que essa era a ideia que mais se aproximava do que Cristo falara.
Todavia, mesmo após essa exposição, pode ainda pairar uma dúvida relativa à parca utilização de ekklesia nos evangelhos, visto que o termo está praticamente ausente dessas narrativas. Só aparece em Mt 16.18 e 18.17. Inobstante, como afirma Augustus H. Strong, “a igreja existia em germe antes do Pentecostes. De outro modo, aqueles que se converteram não podiam ser acrescentados a nada (At 2.47). [...] Para todos os efeitos e propósitos, constituíam uma igreja, embora a igreja não estivesse ainda completamente equipada para a sua obra pelo derramamento do Espírito Santo [...]” (STRONG apud SOARES, 1987, p. 23).  
Em virtude dos fatos apresentados acima, não só estou certo de que Jesus fundou uma instituição chamada igreja como também vejo nitidamente a fundação de instituições dentro dessa instituição. Batismo e Ceia são exemplos claros disso. Afinal, Ele “instituiu” a ambos. Porém, não quero afirmar com isso que Jesus elaborou uma estrutura organizacional burocratizada, tal como a que vemos hoje, com CNPJ, conta bancária, piso salarial, estatuto, regimento interno, etc; mas penso que, sem dúvida, seu ajuntamento não era anárquico nem desorganizado. De outra maneira, para que teria gasto tempo formando líderes?
Observando as páginas do Novo Testamento, fica bem claro que o termo “igreja” não era empregado exclusivamente como referência à “universal assembleia” (Hb 12.23), isto é, à igreja invisível, chamada Corpo de Cristo. As reuniões regulares restritas a espaços geográficos também eram denominadas assim. Isso é patente nas epístolas paulinas. Ao remeter-se aos Coríntios e Tessalonicenses, por exemplo, Paulo saúda-os como “igreja (ekklesia) de Deus que está em Corinto” (1Co 1.2; 2Co 1.1) e “igreja dos tessalonicenses em Deus” (1Ts 1.1), conferindo, indiscriminadamente, ao ajuntamento local de cristãos o título “igreja”. Em outras passagens vemos o apóstolo afirmar que, em um mesmo local havia várias “igrejas” (Rm 16.4,16; 1Co 11.16; 14.33; 16.19; 2Co 1.1; 8.1; Gl 1.2,22). Igualmente, ao escrever à Filemon Paulo faz menção da igreja que havia em sua casa. Com certeza ele não estava se referindo à totalidade dos salvos, mas à igreja local. Em Rm 16.1-16, a mesma ideia aparece, pois Paulo fala da “igreja” que estava em Cencreia (v. 1), da “igreja” que estava na casa de Priscila e Áquila (v. 3-5), além de mencionar “as igrejas dos gentios” (v. 4) e “as igrejas de Cristo” (v. 16). Ao escrever a Timóteo, Paulo chama a igreja de “casa de Deus” referindo-se a ela como um espaço geográfico onde os crentes se reúnem (1Tm 3.15). Mantendo essa linha, o apóstolo João, seguindo orientações do próprio Cristo, destina, no livro do apocalipse, sete cartas a sete “igrejas”. Por que Paulo e João fariam uma coisa dessas se não pudéssemos chamar nossos ajuntamentos locais de “igreja”? Por que as igrejas seriam identificadas com lugares se, de fato, não houvesse reuniões regulares em um mesmo local?
Decerto, os textos supracitados respaldam o pensamento tradicional de que há uma igreja local, delimitada geograficamente, e uma igreja universal, constituída de todos os salvos, em todos os tempos e lugares. A existência de uma não elimina a outra, mas, ao contrário, a primeira é parte da última. Antes, as igrejas são parte do reino espiritual de Deus. Não há como separá-las do mesmo.
O aspecto institucional da igreja de Cristo fica bem nítido no cristianismo primitivo. Havia eleição de líderes (At 1.15-26; 14.23; Tt 1.5), costumes litúrgicos consensuais (1Co 11.1-16; 14.26-39), ortodoxia teológica (At 2.42; Gl 1.8) exposta, inclusive, por meio de canções (Rm 11.33-36; Fp 2.6-11) e cartas doutrinárias, convocação de Concílio (At 15.1-29), prestação de relatórios (At 11.1-18). Além disso, o próprio Jesus, em Mt 18.17, aponta para essa dimensão física da igreja, reconhecendo a autoridade da congregação, composta de joio e trigo, para tratar de atritos entre irmãos, atuando como uma instância superior ao indivíduo. É evidente que o Filho de Deus não tinha em mente a igreja universal, seu ensino contempla a comunidade cristã local, a qual Ele chama de igreja. Esta, para que pudesse agir segundo a direção dada pelo mestre, fornecendo orientações salutares ao agressor, precisaria, certamente, de uma postura uniforme em relação aos delitos. Uma espécie de posicionamento ético-doutrinário, uma ação conjunta da ekklesia. É exatamente essa posição que Paulo requer dos coríntios diante do escândalo produzido por um dos membros daquela igreja (1Co 5.1-13). Semelhantemente, em Atos 6.2,5 a igreja, mais uma vez, age conjuntamente por ocasião da escolha dos diáconos, e, no capítulo 14 do mesmo livro, a igreja reuniu-se para ouvir o relato de Paulo e Barnabé.
Portanto, “a igreja numa cidade ou numa casa é simplesmente a manifestação local da igreja universal e dela deriva a sua dignidade” (STRONG, 2003, p. 643). Corroborando essa asserção, Andrews declara: “a ‘igreja’ é a fonte de todas as ‘igrejas’ locais. ҆ekklesia em At 9.31 = a igreja representada naquelas províncias. Seu sentido é universal e local, como em 1Co 10.33. A igreja local é um microcosmo, uma localização especializada do grupo universal (STRONG, 2003, p. 643). Destarte, a estrutura organizacional construída em torno das pessoas e pelas pessoas, simboliza e expressa a união interior do ser humano com Cristo e de um indivíduo com o outro.
Não obstante, a igreja de Cristo, por ser composta de seres humanos, é marcada pela imperfeição desde a sua fundação. Entre os discípulos de Jesus havia discriminação (Lc 9.51-56), competição (Mc 10.35-45), furto (Jo 12.1-6), traição (Mt 26.14-16), incredulidade (Jo 20.24-29), entre outros problemas. O que me alegra, entretanto, é que, diante de todas essas imperfeições, Jesus mostrou um amor inextinguível, mesmo àqueles que o abandonaram, assim como àquele que o traiu. Por isso, embora faça minhas críticas aos movimentos contemporâneos, procuro amar mais os imperfeitos. Por mais que discorde, teologicamente, dos pentecostais e neopentecostais, considero-os meus irmãos em Cristo. Por mais que veja imperfeições nas igrejas históricas continuo amando meus pares e transmitindo a mensagem de Cristo através dessa "instituição" imperfeita. Até porque, onde há seres humanos, onde há carne, sempre haverá imperfeição. Só na eternidade as lágrimas serão enxugadas de nossos olhos. Até lá, será imperfeição sobre imperfeição. Nós e nossas igrejas continuaremos defeituosos. Mesmo assim, “[...] Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”.
A igreja, assim como a família, é instituição divina, seja encarada sob o ângulo físico ou espiritual. Não se trata apenas de uma mera fundação, como uma ONG. É mais que isso. Não é à toa que, na Escritura, a designação “igreja de Deus” é atribuída também às comunidades cristãs locais (1Co 1.2). No entanto, como afirma Strong (2003, p. 642), “a igreja, diferente da família e do Estado, é uma sociedade voluntária”. Não há nela o caráter coercitivo e hereditário presente nas demais instituições, uma vez que o ingresso no Corpo de Cristo antecede a adesão à igreja local. Por conseguinte, a religião espiritual não pode ser inimiga da institucional, pois aquela é essência desta.
Sei que as atitudes de alguns líderes, às vezes, nos magoam. Essas mágoas levam alguns a criticarem toda a estrutura. Eu procuro não fazer isso. Até porque, foi através dessa estrutura considerada "hipócrita", "imperfeita", "farisaica", que eu conheci a Cristo. Ele usou aqueles irmãos defeituosos para me apresentar o evangelho, tal como fez com os apóstolos. Logo, não posso deixar de louvar a Deus por aquelas vidas. Além disso, é essa mesma instituição que continua enviando missionários pelo mundo a fim de cumprir o ide de Jesus. Procuro não enxergar somente a partir das lentes de minha confissão doutrinária. Vejo que as diversas denominações têm contribuído de alguma maneira para propagação do Evangelho. Isto, na verdade, é o que considero mais importante: anunciar a Palavra. "É verdade que alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade. Estes o fazem por amor, sabendo que aqui me encontro para a defesa do evangelho. Aqueles pregam a Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade, pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso. Mas, que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato, continuarei a alegrar-me [...]" (Fp 1.15-18).
Por outro lado, penso que essa animosidade relativa às estruturas organizacionais é um dos problemas que caracterizam a pós-modernidade. Corroborando essa asserção, Bauman (2004, p. 65) assevera que “nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante. Essa razão nega direitos aos vínculos e liames, espaciais ou temporais”. Alavancados por essa tendência pós-moderna, muitos rotulam como opressora ou vilã toda estrutura organizada e duradoura, enxergando o pertencimento a uma instituição como alienação ou submissão a um regime manipulador. Nesse contexto, a instituição é vista como adúltera, pois teria traído o Cristianismo original. Pensando assim, seus adeptos usam uma linguagem pejorativa para referir-se à estrutura que rejeitam, indo de encontro ao ideal propagado por Jesus.
Há quem diga que as críticas são dirigidas exclusivamente aos erros da instituição. Porém, suas diatribes levam qualquer um a pensar que estão confundindo os erros com a estrutura. Além disso, o tempo que poderia ser gasto com a evangelização acaba sendo empregado na elaboração de comentários mordazes, fornecendo, inclusive, munição para os inimigos da cruz de Cristo. Em adição, vale ressaltar que, ao invés de contribuir para a agregação dos “sem-igreja”, dão a eles subsídios para permanecerem distantes do aprisco. Se a instituição tem uma parcela de culpa na evasão eclesiástica, a outra, sem dúvida, é responsabilidade desse discurso anti-institucionalista.
Criminalizar toda e qualquer estrutura organizacional é um erro que Jesus nunca cometeu. O Mestre nunca criticou a estrutura física, nem a teologia farisaica, mas a hipocrisia daqueles homens (Mt 23.3). Ele não condenou nem os segmentos que brotaram como produto de seus ensinos. Quando apareceu um homem que expulsava demônios em seu nome (Mc 9.38-40), Jesus não o repreendeu. Ora, por que aquele homem não andava com Jesus? Talvez divergisse de seus discípulos, mas o fato é que ele acreditava em Jesus, pois expulsava em seu nome. No entanto, ele fazia parte de outro segmento, andava sozinho, pensava diferente. Pensar diferente não é pecado. O que precisamos entender é que nossa lealdade, em primeiro lugar, é a Cristo. Se não estamos contra Cristo, o que inclui seus ensinos, estamos a seu favor. Partindo dessa ótica, não importa se somos presbiterianos, congregacionais, batistas ou assembleianos. O importante é se somos de Cristo. E se somos dEle, não há como vivermos uma religiosidade autônoma, divorciada do outro.
Acredito que essa perspectiva que foca os erros eclesiásticos, decerto alicerça-se em decepções e mágoas geradas no interior da instituição. Talvez com um líder, com a teologia, ou com o sistema de governo. Todavia, o grande problema, é que muitos não compreendem que as igrejas não gerenciam suas ações do mesmo jeito. Algumas adotam, por exemplo, o governo monárquico, onde há um líder supremo do qual todas as ordens são emanadas (Católica, IURD); outras optam pelo episcopal, no qual o bispo exerce uma autoridade normativa gerenciando diversas igrejas, podendo, inclusive, remover o pastor de uma congregação sem consultar o Sínodo (Luterana, Anglicana) ou Concílio (Metodista); existe também o sistema presbiteriano, também chamado de oligárquico, um grupo pequeno formado composto de um pastor e alguns presbíteros representa a congregação na gerência dos interesses da comunidade; outro tipo, praticado por congregacionais e batistas, é o sistema conhecido como congregacional, onde cabe à congregação o direito de gerir seus negócios democraticamente. A igreja, reunida em assembleia, toma suas decisões mediante o voto.
Ademais, vale salientar que não existe sistema perfeito. Todos eles possuem falhas. Mesmo assim, entendo que, alguns, favorecem mais erros do que os outros, pois dão margem à opressão que tanto magoa as pessoas. Por isso, muitos acabam generalizando, atribuindo erros que caracterizam o tipo de governo de sua denominação a todos as outras, porque acham que todas as igrejas procedem da mesma forma.
Tudo isso é perfeitamente compreensível, mas não justifica a redução da igreja local a uma mera instituição religiosa evangélica. A dissociação proposta por alguns, distinguindo instituição e comunidade cristã me parece o mesmo que separar o Hulk do Bruce Banner. É impossível! Eles são a mesma pessoa. Ainda que nos gibis isso já tenha acontecido, é claramente algo irrealizável. O Hulk é o Bruce metamorfoseado, não outro ser. Da mesma forma, a comunidade cristã e a instituição são a mesma entidade. Afinal, aquela só existe por causa desta. Onde quer que a comunidade cristã se reunir, haverá institucionalização. Isto porque, como cristãos, sempre desejaremos fazer o bem às pessoas, divulgar nossa fé e nos reunirmos para cultuarmos.
Vamos supor então que eu e você decidimos viver um cristianismo afastado do ambiente institucional. A primeira coisa que faríamos, com certeza, seria encontrar um lugar para nos reunirmos, fosse embaixo de uma árvore, à beira de um rio, ou nos lares. Uma vez que, seguindo o exemplo de At 2, procuraríamos estarmos juntos com a maior frequência possível. Como bons seguidores de Cristo, seríamos naturalmente  levados a ajudar os necessitados. Nesse contexto, surgiria, inevitavelmente, a necessidade de dinheiro, visto que, nessa sociedade capitalista, como ajudar o próximo, tal como fez o bom samaritano, sem dinheiro? Como pagar a hospedagem? Como cuidar dos ferimentos sem a medicação adequada? Como alimentar os famintos sem comida? É... tudo isso requer dinheiro. Havendo uma arrecadação financeira, precisaríamos de alguém para gerir esses bens. Uma espécie de tesoureiro, tal como Judas. Outrossim, embora seja algo novo na história universal, diante das exigências sociais precisaríamos de um CNPJ para agirmos comunitariamente no emprego desse numerário. Cabe ressaltar, no entanto, que toda essa estrutura não sobreviverá sem liderança. E um líder só não será suficiente à medida que o grupo aumentar. Precisaremos também estabelecer um dia e um horário para as reuniões, seja para culto ou para traçar as metas. Mais à frente, com o aumento do grupo, será necessário um lugar para nos reunirmos e para recebermos as pessoas. Até porque, sabemos que podem ocorrer variações climáticas que inviabilizarão reuniões externas. Mesmo assim, alguém pode objetar: por que não nos reunimos nas casas como faziam os discípulos originalmente? Ora, se estamos pregando, ajudando o próximo, fazendo a obra de Deus, naturalmente, o grupo vai aumentar. Como abrigar, confortavelmente, todas as pessoas em uma residência? Daí surge a necessidade de edificar um prédio ou alugar um espaço maior. Pronto, já temos uma sede. Espera aí! Temos sede, arrecadação, reuniões regulares, liderança, divulgamos o evangelho, quem somos nós? Três opções: a) um time de futebol? b) Um partido político? c) Uma instituição conhecida como igreja? É óbvio que “c” é a reposta certa!
Tendo em vista que as reuniões seriam realizadas em um local separado exclusivamente para esse fim, para viabilizar a frequência dos idosos, deficientes e demais visitantes, seria imprescindível realizar algumas melhorias, a saber: a construção de acessos para cadeirantes, aquisição de assentos acolchoados, para que os idosos ou os que sofrem de dores na coluna possam se sentir confortáveis, construção de banheiros adequados aos deficientes físicos, rampas de acesso, salas de aula para ensino do evangelho com ênfases distintas, dependendo da faixa etária, instalação de bebedouros para facilitar a vida de quem sofre de doenças renais ou diabetes, aparelhagem de som, mesmo que seja simples, para que todos possam ouvir a o ensino da Palavra. Caramba! Igualzinho às nossas igrejas!
Toda essa estrutura contribui para o bom andamento da obra de Deus. Não posso dizer que todo esse aparato nada tem a ver com a obra do Senhor. O que precisamos entender é que, mesmo que o templo caia, que sejamos despejados daquele local, a igreja continua, porque ela não é de pedra, mas de carne e osso. Entretanto, se podemos dispor dessa estrutura, por que não usá-la em favor do Reino de Deus? Por que ficar no meio da rua, perto de rios, nos lares ou nas catacumbas, se temos liberdade para nos reunirmos em um ambiente separado para esse fim? A igreja primitiva se reunia nos lares, perto de rios, porque havia perseguição, mas, em muitos textos, vemos Jesus e seus discípulos indo às sinagogas e ao templo.
Embora até aqui esteja saindo em defesa da igreja, enquanto realidade histórica e institucional, não estou, em momento algum, prescindindo do caráter universal e invisível da igreja de Cristo. Nem haveria como fazê-lo, tendo em vista que o Novo Testamento testemunha abundantemente a seu respeito (Mt 16.18; Ef 1.22,23; 3.10; 5.24,25; Cl 1.18; Hb 12.23), identificando-a, inclusive, com o reino espiritual de Deus. Porém, quero deixar claro que a igreja local é parte integrante do Corpo de Cristo. Pois, por mais que saiba que o Rol de membros não é o Livro da Vida, quando olho para aqueles que frequentam o templo não me considero competente para identificar quem pertence e quem não pertence ao Corpo de Cristo. Essa identificação, na verdade, é prerrogativa divina (Mt 13.35-41). O fato de não convertidos fazerem parte do ajuntamento cristão, não o faz deixar de ser igreja. Paulo pensava assim. Porquanto, ao dirigir-se aos coríntios, grupo caracterizado por uma série de pecados, chamou-os de igreja (1Co 1.1,2). Acho muito angustiante ficar sempre desconfiado, pensando que a pessoa que está do meu lado não faz parte do Corpo de Cristo. Quem somos nós para fazermos esse tipo de julgamento? Jesus nunca nos ensinou a fazermos isso. Ao contrário, o mestre nos ensinou a amarmos uns aos outros, aceitando-nos mutuamente. “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13.35).
Não estamos autorizados a fazermos esse tipo de segregação, visto que, se o fizermos, estaremos negando a vocação cristã da inclusão. Até porque, por mais que saibamos que em nossas igrejas há pessoas que podem furtar bolsas, é nossa missão integrá-las. Elas precisam estar conosco e nós precisamos estar com elas, pois é no convívio com o diferente, com o excêntrico, com o agressivo, que nós temos a oportunidade de pregar e viver o evangelho, é nesse contexto que temos a oportunidade de perdoar, de amar aquele que nos faz mal, de sermos imitadores de Cristo. Destarte, vivamos plenamente o evangelho de Jesus Cristo na instituição que Ele fundou, fazendo a diferença no mundo que Ele criou através do amor.

Pr. Cremilson Meirelles



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Trad. Gordon Chown. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000. 1 v.

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Editora Martin Claret, 2002.

PESSALI, Huáscar Fialho. Uma conversa sobre instituições: o que são, como surgem e importância têm. Disponível em: http://www.academia.edu/4350909/Uma_conversa_sobre_instituicoes_o_que_sao_como_surgem_e_mudam_que_importancia_tem. Acesso em: 04 nov. 2013.

SOARES, Ebenézer. Manual da Igreja e do obreiro. 5. Ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1987.

SILVA, Vagner Luís da. Fundamentos do institucionalismo na teoria social de Thorstein Veblen. Política e Sociedade. Nº 17, volume 9, outubro de 2010. p. 289-323

STRONG, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003. 2 v.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.








[1] Informação disponível em: http://origemdapalavra.com.br/pergunta/etmologia-da-palavra-instituicao/ Acesso em 04 nov. 2013.
[2] Esta última, porém, deve ter sido rechaçada por causa de sua natureza judaica.

5 comentários:

  1. Parabéns pelo blog, pastor!
    Abraço!
    Elildes Junio

    ResponderExcluir
  2. Excelente artigo. O desigrejamento precisa, de fato, ser confrontado. Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Excelente texto. Quer oportunidade maior de amar e praticar os ensinamentos de Cristo que conviver, em união, com o diferente? Atualmente, temos disseminado que existe um tipo de igreja pra cada tipo de membro."É só se empenhar um pouco e encontrar a sua!". Verdadeiramente, um pensamento egoísta... Eu, eu e mais eu... E Satanás continua agindo com seu plano faccioso de discórdia, colocando o "Eu" acima de Deus e seus institutos. Estava precisando dessa palavra. Obrigado, pastor! Que Deus abençoe.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amém! Fico feliz em poder contribuir para reflexão e edificação!

      Excluir