sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SAUL E A PITONISA

Este, sem dúvida, é um dos textos mais polêmicos e obscuros da Escritura. Por isso, muitos preferem manter distância desse episódio tão confuso, evitando analisá-lo ou comentá-lo. Por outro lado, há quem goste da história, visto que, aparentemente, dá margem às práticas espiritualistas. Mesmo no âmbito do Cristianismo, há uma série de controvérsias a esse respeito. Uns esposam a ideia de que a vinda do profeta Samuel, no relato, se trata de uma manifestação demoníaca; outros, entretanto, defendem que Deus teria aberto uma exceção e permitido que o espírito de Samuel, de fato, falasse por meio da pitonisa. Contudo, a despeito das muitas interpretações relativas ao incidente narrado em 1Sm 28, pretendo neste artigo mostrar um perspectiva que faça justiça ao texto bíblico, levando em conta seu contexto imediato e situacional.
À primeira vista, o relato parece confirmar a vinda de Samuel do mundo dos mortos, atendendo ao chamado da pitonisa. No entanto, antes de qualquer assertiva temerária, é necessário entender qual a função do texto no seu contexto. Ora, 1Sm 28.3-25 tem como propósito comunicar uma vez mais a rejeição de Saul e reafirmar a escolha de Davi para substituí-lo. Isto fica bem claro quando, ao contrário de Davi, que nos momentos cruciais recebia a instrução de Yahweh (1 Sm 23.2.4.9-18; 30,7-20; 2 Sm 2.1; 5,19.23), Saul é abandonado (1Sm 28.6). Segundo o texto, o rei tentara de todas as maneiras ouvir a voz divina (sonhos, urim, tumim, profetas) sem lograr êxito. Entrementes, quando o texto assevera que Deus não respondeu aos apelos de Saul, o termo hebraico empregado (҅anah) aparece no tempo completo, transmitindo a ideia de uma ação já concluída. Isto é, Deus já decidira não respondê-lo. Portanto, dali para frente, de maneira alguma lhe daria resposta. Nem por revelação sacerdotal (Urim e Tumim), pessoal (sonhos) inspiracional (profetas), e, muito menos, espiritualista (pitonisa).
É necessário frisar também que o próprio Saul fora responsável pela eliminação dos meios de acesso ao divino, pois matara 85 sacerdotes de Yahweh (1Sm 22.6-19). Na verdade, ele eliminara toda e qualquer forma de comunicação com o sobrenatural, uma vez que até as  ҆oboth[1] e os yid ҅onim[2] (1Sm 28.3) foram expulsos em seu reinado. Além disso, o profeta Samuel já havia morrido. Isto é, as portas do sagrado estavam fechadas para Saul. É claro, porém, que, possivelmente, a expulsão dos adivinhos e encantadores fosse uma tentativa do rei de, em vão, buscar o favor divino (Dt 18.9-14).
Diante do silêncio divino, Saul decidiu, em um ato de desespero, lançar mão de um último recurso. Este, no entanto, ia de encontro à sua atitude anterior, visto que decidira consultar a classe que ele mesmo criminalizara. Para tanto, solicitou ajuda aos seus servos, pedindo que encontrassem mulher possuidora de um obh (1Sm 28.7). Aqueles, prontamente, lhe informaram sobre a notável médium que residia em En-Dor, cidade Cananeia pertencente ao território da tribo de Manassés, que distava cerca de 7 Km de Gilboa, onde o exército de Israel estava arregimentado. A mulher mencionada, certamente, tinha uma boa reputação no tocante ao contato com os mortos. Não foi à toa que seus criados a recomendaram. Saul, ansioso por ouvir alguma orientação do “mundo espiritual”, seguiu, então, rumo a En-dor, a fim de, mais uma vez, ouvir aquele que, por algum tempo, fora seu mentor.
É óbvio que, para não contradizer suas ordens, o rei precisou se disfarçar. Afinal, ele não queria ser visto pelo povo descumprindo uma de suas leis. Entretanto, isso não foi suficiente, pois o texto dá indícios de que a pitonisa, desde o princípio, desconfiou da verdade. É bem verdade que não seria muito difícil suspeitar, visto que um homem muito alto, disfarçado, acompanhado dos servos do rei, procurando-a na calada da noite, só podia ser o próprio monarca. Isto porque, como podemos ver em 1Sm 9.1,2 e 10.23, Saul era o homem mais alto dentre os israelitas. Além disso, assim que Saul chega, a mulher menciona a atitude do rei para com os necromantes, asseverando que não poderia fazer o que lhe fora pedido (1Sm 28.9). Ora, sem dúvida, ela devia consultar os mortos constantemente, independente do perigo de ser morta. Se não fosse assim, os criados do rei não a conheceriam (1Sm 28.7). Decerto, ela diz não ser possível realizar a consulta, por ter suspeitado que o “visitante misterioso” era Saul.
As suspeitas da pitonisa são confirmadas quando o próprio Saul garante que nenhum mal lhe sucederia (1Sm 28.10). Quem, senão o rei poderia garantir uma coisa dessas? Soma-se a isso o fato de Saul lhe pedir que fizesse subir a Samuel (1Sm 28.11). Porquanto, levando-se em conta que o relacionamento de Samuel e Saul era conhecido por todos, qualquer cidadão concluiria, naturalmente, que um homem alto, acompanhado dos servos do rei, que diz que quer falar com Samuel, e que garante a proteção e liberdade da necromante, era Saul. Tantas coincidências não poderiam ser aleatórias!
Mesmo assim, a pitonisa precisava que ele se revelasse, para garantir a sua segurança, pois sem a revelação não haveria compromisso. Isto é, se Saul permanecesse disfarçado, ela correria risco de morte. Sendo assim, sabendo que ele gostaria de falar com Samuel, ela arma uma cena (grita), dizendo que viu Samuel e declarando a Saul que sabe quem ele é (1Sm 28.12). Toda essa encenação tinha o propósito de isentá-la de qualquer punição, e dar credibilidade ao que estava fazendo.
Contudo, fica uma pergunta: Como explicar o fato de que o texto declara, literalmente, que a mulher “viu” Samuel? Para respondê-la, porém, é preciso analisar a expressão no idioma original, o hebraico. À luz deste, podemos concluir que a afirmação, de fato, é literal, porque o autor sacro utilizou o verbo hebraico rā ҆â, que significa ver, olhar, inspecionar, ter visão. A princípio, parece que essa informação reforça a ideia do diálogo entre o profeta e o rei. No entanto, segundo Philbeck Jr. (1986) alguns manuscritos gregos trazem Saul, em vez de Samuel. Isto é, dentro dessa ótica, a mulher teria se assustado ao perceber que estava diante do mesmo rei que havia proibido a prática necromante.
Inobstante, ainda que não se leve em conta a observação acima, precisamos concordar que a história descrita no texto fora relatada por uma testemunha ocular. De outra maneira, como poderíamos ter certeza dos fatos ali narrados? Ora, fora a pitonisa, estavam ali apenas o rei e seus criados. Com certeza, um deles contou o ocorrido a alguém. Esse relato, sem dúvida, foi influenciado por suas crenças, que não eram nem um pouco ortodoxas. Isto porque, o povo de Israel tinha uma forte inclinação ao paganismo. Por que Saul teve de expulsar os médiuns? Porque eles viviam tranquilamente entre o povo. Eles vivenciavam um sincretismo religioso. Ademais, a Bíblia relata que era comum a existência de estrangeiros dentre os servos do rei (1Sm 21.7; 26.6; 2Sm 23.25-39). Destarte, a única conclusão razoável é que o testemunho da Escritura expressa aquilo que a pitonisa disse ter visto, com o que, possivelmente, concordaram Saul e seus criados. Isto, no entanto, não enfraquece o texto bíblico. O episódio narrado é parte da revelação divina. Porém, tal como ocorre com os discursos dos amigos de Jó, as palavras de Satanás (Mt 4.1-11), a fala da mulher de Tecoa (2Sm 14.2-21), eram palavras e conceitos humanos. É Preciso considerar também a natureza do texto, ou seja, é uma narrativa, não um escrito doutrinário.
Quanto ao diálogo entre Samuel e Saul, o que supostamente é dito pelo “profeta”, todo mundo já sabia. A condição de Saul e o que Samuel pensava dele, era de domínio público. A pitonisa apenas repete aquilo que Samuel já havia falado (1Sm 15.22–28; 28.17). Além do mais, o próprio Saul diz a “Samuel” que os filisteus estavam guerreando contra ele. Diante disso, da loucura de Saul e do fato de que Davi já havia sido ungido rei, seria fácil prever o futuro. Em adição, vale salientar que é Saul quem “entende” que se trata de Samuel (1Sm 28.12). Isto é, o rei, sem vê-lo, concluiu que era Samuel. Até porque, conforme a narrativa, apenas a mulher diz que vê (1Sm 28.13,14). Ela simula um “transe” e representa uma espécie de psicofonia, dizendo ser Samuel o interlocutor. Uma completa farsa.
Visto isso, acredito que o episódio em pauta é um registro histórico da ação de mais uma charlatã. Isso fica bem claro quando analisamos as predições do suposto Samuel, uma vez que destoam frontalmente da realidade. Sua afirmação de que Saul seria entregue nas mãos dos filisteus, por exemplo, não se cumpriu, visto que 1Sm 31.4 a Escritura informa que Saul cometera o suicídio, e, em 31.11-13, é dito que o corpo de Saul foi parar nas mãos dos habitantes de Jabes-Gileade.
Não obstante, conquanto o relato contido em 2Sm 1.1-10 discrepe dos textos supracitados, é necessário frisar que o registro não expressa a realidade do que aconteceu a Saul em seus últimos momentos de vida. Trata-se, contudo, da reprodução da história inventada por um amalequita que esperava receber uma recompensa do novo rei e gozar de prestígio perante o povo por ter assassinado o rival de Davi. Possivelmente, o homem passara por perto do lugar onde Saul morrera e, reconhecendo o cadáver, furtou sua coroa e bracelete antes que os filisteus o encontrassem.
Outro erro do “fantasma Samuel” foi declarar que Saul e seus filhos morreriam no dia seguinte (1Sm 28.19). Isto porque, pelo menos três filhos do rei permaneceram vivos, a saber: Is-Bosete (2Sm 2.8-10), Armoni e Mefibosete (2Sm 21.7,8). Nem Saul morreu no dia seguinte conforme fora “profetizado” (1Sm 28.19). Sublinha-se, inclusive, que a mulher emprega o termo mahar, que significa, literalmente, amanhã. Não se tratava de um sentido figurado, mas do próximo amanhecer. Todavia, Saul morreu, mais ou menos, uns 17 dias depois. Esta assertiva é confirmada quando analisamos a história que se segue. Porquanto, no capítulo 29, o autor sacro destaca que, antes do ataque derradeiro, os filisteus despediram Davi, por pensarem que ele lutaria a favor de Israel (1Sm 29.1-11). Em seu retorno a Ziclague, Davi gastou 3 dias (1Sm 30.1) e mais um dia na preparação para a nova expedição; de Ziclague até o ribeiro de Besor, uma viagem de cerca de 30 Km, o filho de Jessé e sua tropa despenderam mais um dia. Além disso, em 1Sm 30.13 é dito que os amalequitas estavam três dias a frente de Davi e seus companheiros, visto que este era o tempo que o homem egípcio havia sido deixado para trás. Em adição, o texto afirma que um dia inteiro foi empregado na batalha contra os inimigos (1Sm 30.16,17). Em suma, três dias foram gastos até Ziclague, um dia de preparação, um dia até Besor, três dias até o acampamento amalequita, um dia de guerra e mais oito dias para retornar, totalizando 17 dias. Mais à frente, em 2Sm 1.1,2, o autor sacro assevera que a notícia a respeito da morte de Saul só chegou depois de três dias que Davi tinha retornado a Ziclague. Ora, a distância entre Gilboa e Ziclague era percorrida em três dias. Assim, a conclusão lógica é que, após 17 dias da “profecia”, Saul, enfim, morreu.
Portanto, não há como concordar com a interpretação de que Deus abriu uma exceção, permitindo que Samuel retornasse do “mundo dos mortos” só para repetir aquilo que já dissera a Saul. Qual teria sido a razão disso? Por que Deus faria Samuel contrariar a doutrina que ele mesmo pregara (1Sm 15.23)? Por que Samuel, conhecendo a lei (Lv 20.6, 27), teria participado desse evento? Além do mais, se Deus tivesse autorizado a manifestação, por que Saul morreria por ter feito algo que Deus aprovara (1Cr 10.13-14)? Alíás se fosse Samuel o veículo transmissor, seria o próprio Deus falando. Deus falaria através de um morto, mesmo proibindo essa prática (Dt 18.9-14)? Seria uma mediação dupla? Deus usa Samuel e Samuel usa a mulher. Que coisa esquisita!
Pr. Cremilson Meirelles


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KIRST, Nelson, et al. Dicionário hebraico-português e aramaico-português. 18 ed. São Leopoldo: Sinodal, 2004. 305 p.

PHILBECK JR., Ben. F. Comentário Bíblico Broadman: 1Samuel - Neemias. Tradução de Israel Belo de Azevedo. 2 ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1986.

SHIMIDT, Alaid Schiavone. Pequena Enciclopédia Bíblica de Temas Femininos. São Paulo: Arte Editorial, 2007.

SILVA, Ruben Marcelino Bento da. ASSOMBRAÇÕES NA BÍBLIA JUDAICA: Estudo classificatório sobre tradições folclóricas de demônios e fantasmas difundidas no Antigo Israel e subjacentes aos textos hebraicos canônicos. 2012. 122 p. Dissertação (Mestrado em Teologia) - Escola Superior de Teologia, São Leopoldo.





[1] Mulher que pressagia através de um obh (um demônio de adivinhação).
[2] Termo que ocorre, na maioria das vezes, em paralelo com obh, sempre em contextos que tratam do culto a outros deuses e a ídolos (Lv 19.31; 20.6, 27; Dt 18.11; 2Rs 21.6; 23.24; Is 8.19; 19.3).

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