terça-feira, 6 de agosto de 2013

O FOGO VAI DESCER?



Dentre as inúmeras expressões características da cultura evangélica contemporânea, acredito que uma das mais conhecidas é a frase acima. Isto porque, predomina em alguns contextos o entendimento de que “fogo” é sinônimo da ação do Espírito Santo. Entretanto, o que se entende por manifestação do Espírito é, na verdade, um distanciamento da doutrina bíblica. Porquanto, quando “o fogo desce”, as pessoas começam a tremer como se estivessem recebendo uma descarga elétrica, rodopiam, gritam, etc. Não consigo encontrar nada parecido na Bíblia. Jesus não agiu assim, muito menos Paulo. De onde vem essa doutrina então? A resposta é simples: de interpretações equivocadas do texto bíblico.
Ora, o fogo na Escritura está muito mais ligado ao juízo (Lv 10.1,2; Nm 11.3; 16.35; 2Rs 1.9-12) do que a um transe extático. Em Mateus 3.10-12, por exemplo, fica bem claro que o “fogo” que João Batista fala é uma referência ao juízo divino. No v.10 fala-se que a árvore que não desse bom fruto seria lançada no fogo e no v. 12 diz-se que a palha seria queimada com o fogo que nunca se apaga, por que só no v. 11 é que o fogo seria bênção? É óbvio que o batismo com fogo mencionado no texto diz respeito ao juízo. Até porque, a palavra batismo significa mergulho, como pois mergulhar no fogo seria bom? Na verdade, o texto está afirmando que os que recebessem a Cristo seriam batizados no Espírito Santo enquanto aqueles que o rejeitassem seriam batizados com fogo, isto é, seriam punidos.
Há quem diga, todavia, que Deus sempre se manifestou através do fogo. Para isso, citam textos como Êx 3.2, Êx 13.21, Êx 19.18 e Êx 24.17. Porém, em nenhum desses textos o “fogo” concede bênçãos especiais ou faz alguém ficar com tremeliques. Na sarça Deus apenas fala com Moisés, não lhe dá poder através do fogo. Moisés nem toca o fogo. A coluna de fogo também nem toca o povo, só protege.
Na verdade, no texto em questão (Êx 3.2), a “chama” que consumia a sarça deve ser entendida como alguma forma de luz e manifestação resplandecente, e não chamas de fogo físico. Algo semelhante ocorre em Êxodo 19.18 e 24.17, visto que Deus se manifesta como envolto por chamas. Isto, no entanto, serve para ressaltar a santidade divina, pois não é possível aproximar-se dele. Daí a impossibilidade do povo de Israel aproximar-se dEle. Deus é quem, por sua graça, permite a aproximação. Ademais, a Bíblia mostra que Deus também se manifestou por meio de nuvem (Dt 31.15) fumaça (Is 6.4, Ap 15.8). Por que ninguém roga pela vinda desses elementos? Estranho, não? Além disso, em 2Cr 7.1-3 vemos que há uma clara distinção entre o fogo e a glória do Senhor.
Se a doutrina do fogo fosse tão importante, Jesus teria dito alguma coisa sobre ela, teria incentivado a busca pelo “fogo sagrado”. Contudo, Ele nunca tratou desse assunto. Além disso, embora João Batista tenha dito que Jesus batizaria com o Espírito Santo e Com fogo, quando Jesus fala com os discípulos Ele só aponta o Batismo no Espírito Santo (At 1.5). Onde foi parar o fogo? Apagou?
Amado, pedir que o fogo desça é o mesmo que rogar pelo juízo de Deus sobre sua vida, tal como ocorria no Antigo Testamento, quando Deus enviava fogo para consumir o holocausto como salário do pecado (2Cr 7.1). O fogo destruía o animal morto! Se o fogo de Deus descer sobre você, o mesmo acontecerá! No texto de Atos 2.1-4, não há fogo descendo do céu, mas “línguas como que de fogo”. Foi uma aparição especial de Deus como na sarça ardente (Êx 3.2), na qual ninguém rodopiou, se tremeu ou entrou em transe. Portanto, tais manifestações carecem de respaldo bíblico. Por isso, abandone essa ideia de vez por todas e siga o Evangelho genuíno, sem fogo e sem enxofre. Deixa isso para o diabo e seus anjos.

Pr. Cremilson Meirelles

2 comentários:

  1. Como fica 1 Coríntios 3:11-15 ?
    O fogo mencionado nessa passagem significa benção (ser purificado do pecado) ou juízo (condenação do pecador) ou provação (Deus provando o homem)?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na verdade, o fogo aponta para o juízo aplicado sobre as obras dos crentes (1Co 3.13). Até porque, a expressão "o dia" é uma clara referência ao "dia do juízo". Perceba que Paulo não está falando de salvação e condenação, mas de recompensa pelas obras. Ele sustenta a sua convicção de que os homens não são salvos através da qualidade do seu trabalho, mas através da generosidade da graça de Deus. Tanto, que ambos são salvos: os que têm obras de ouro, prata e pedras preciosas, e os que têm obras de palha. Porquanto, ambos edificam sobre o único fundamento da igreja: Jesus Cristo. Os crentes das obras de palha são os negligentes, e os das obras de ouro e prata são os diligentes.

      Excluir