sexta-feira, 23 de agosto de 2013

AS CONSEQUÊNCIAS DA IRRESPONSABILIDADE - Análise de 2Rs 4.1-7


            A história do azeite da viúva é uma das mais conhecidas no meio evangélico. Qual o pregador que nunca preparou uma homilia com base em 2Reis 4.1-7? Qual o crente que nunca ouviu uma mensagem sobre a referida passagem? Sem dúvida, tais indagações, dificilmente, encontrarão uma resposta diferente de “nenhum”. Não obstante, por causa da influência de algumas pregações, a maioria dos leitores, ao deparar-se com a história, só consegue identificar um personagem principal, a saber, o azeite. Isto fica evidente quando alguém busca referir-se ao episódio, pois, naturalmente, a referência será ao “azeite” da viúva, assim como eu mesmo o fiz no início do parágrafo e você, imediatamente, soube do que se tratava. Isto porque, com o advento do movimento pentecostal, a personalização desse elemento tornou-se bem mais frequente, deixando de ser o mero produto da oliveira para tornar-se o próprio Espírito Santo. A partir daí, surgiram as mais variadas aplicações, os vasos se tornaram pessoas, e o texto que, inicialmente, tinha a finalidade de atestar o ministério de Eliseu passou a compor o conjunto de trechos utilizados pelos defensores da teologia da prosperidade.
            Todavia, acerca do tão falado “azeite”, protagonista de tantas pregações, é necessário fazer um questionamento: será que o azeite, em todos os textos simboliza o Espírito Santo? É óbvio que não. O uso figurado do azeite é bastante variado no contexto bíblico. Em Pv 21.17, por exemplo, aparece como símbolo da extravagância; em Sl 45.7 é usado para simbolizar a alegria; em  Jl 1.10, a ausência do azeite é símbolo do desprazer divino; por outro lado, em Jl 2.24 sua abundância é vista como símbolo do favor do Senhor; em Lv 8.10-12, o azeite representa a consagração de pessoas e objetos a Deus (até porque, o Espírito Santo não viria sobre objetos); em Lc 7.38, vemos que o óleo é usado em um gesto de boas-vindas (não como derramamento do Espírito Santo).
Diante dessas informações, não dá para entender porque alguns pregadores transformam todo o azeite da Escritura no Espírito Santo. Isso é um homicídio hermenêutico! O texto de 2Reis 4.1-7, por exemplo, não dá nenhuma indicação de que o azeite simboliza o Espírito Santo. Nem no Novo Testamento encontramos algo que justifique tal interpretação. Isto porque, na verdade, naquele contexto, o azeite era simplesmente azeite. A única coisa que fica evidente é que, a partir da ação de Deus através da instrumentalidade de Eliseu, o azeite se tornou o meio pelo qual a mulher teria sua dignidade de volta, pois, comercializando-o, poderia obter a quantia necessária para quitar a dívida do marido e viver com o restante.
            Por isso, neste artigo, conquanto saiba que a narrativa tem como figura central o profeta Eliseu, quero chamar sua atenção para as circunstâncias em que o milagre ocorre, visto que ele foi motivado pela dificuldade enfrentada pela viúva, cuja origem está na inconsequência de seu falecido esposo. Porquanto, a dívida que a viúva precisava saldar não fora contraída por ela, mas sim herdada de seu marido, o qual, para conseguir o empréstimo, penhorou seus próprios filhos. Acerca disso, porém, é necessário sublinhar que, embora seja algo absurdo, a prática de usar os filhos como penhor era bastante comum naquela época. Se porventura a dívida não fosse paga, os dependentes do devedor se tornariam escravos do credor.
            O curioso nesse episódio, entretanto, é que, com base no fato dos dois filhos serem requeridos para o pagamento da dívida, é possível ter uma noção do valor devido, visto que o escravo era vendido por 30 siclos de prata. Ora, se eram dois, provavelmente, o débito era de 60 siclos de prata, um valor relativamente alto. Em contrapartida, quando observamos o relato com mais atenção, não encontramos razão para tal dívida, pois na casa do falecido não havia nada além de uma botija de azeite. O camarada pegou o dinheiro emprestado para nada!
            Ao contemplar esses aspectos, é impossível não associar a história em pauta à vida de algumas pessoas que conhecemos, as quais contraem inúmeras dívidas, comprometem seus vencimentos com vários empréstimos, mas não possuem nada que justifique tais atitudes. Com isso, quem acaba sofrendo é a família, visto que é ela que passa pelas privações decorrentes das loucuras de seu chefe e acaba sendo exposta diante da comunidade, como aconteceu com a mulher e seus filhos, que tiveram o desprazer de serem visitados pelo credor. Com certeza, em um ambiente comunitário (tal como o local onde a viúva residia) coisas desse tipo facilmente se tornam públicas. Até porque, todos sabiam que a mulher ficara viúva, pois seu marido se destacava na vida religiosa da comunidade (era discípulo dos profetas e servo de Eliseu). Além disso, mesmo que ninguém soubesse, no momento em que os filhos da viúva começaram a bater de porta em porta pedindo vasos, a situação caiu na boca do povo.
            Ainda que o ato de pedir vasos aos vizinhos fosse o cumprimento da determinação de Eliseu e visasse a realização do milagre da multiplicação do azeite, se o esposo daquela mulher tivesse se precavido a fim de deixar sua família em boas condições financeiras, decerto não haveria necessidade nem de desespero nem de milagre, visto que estes só são necessários porque há adversidade. Ora, nesse caso, a adversidade poderia ter sido evitada, porque foi provocada pela irresponsabilidade de um homem. Quantos “homens de Deus”, obreiros na igreja, deixam a desejar nesse aspecto, contraindo dívidas e mais dívidas, fazendo sua família sofrer por causa de seu descontrole em relação às finanças.
            Contudo, a tragédia que foi provocada pela irresponsabilidade de um, foi revertida pela compaixão de muitos. O primeiro deles foi o profeta Eliseu, que conquanto soubesse que não poderia fazer nada por ele mesmo se dispôs ajudar a pobre viúva. Em seguida, vemos a solidariedade da comunidade, que prontamente empresta os vasos à mulher. Eles poderiam ter negado, mas decidiram ajudar. Todos foram instrumentos de Deus para que o quadro vivido pela viúva fosse modificado.
            Não obstante, mesmo diante dessa bonita história de superação e solidariedade, há quem defenda o falecido, afirmando que, segundo o historiador judeu Flávio Josefo, em sua obra denominada Antiguidades Judaicas, ele seria Obadias, o mordomo de Acabe, acerca do qual é dito, em 1Rs 18.1-4, que sustentara cem profetas com pão e água quando Jezabel intentava matá-los. A esse respeito Josefo afirma:

A viúva de Obadias, mordomo de Acabe, veio dizer ao profeta que não tendo meios de restituir o dinheiro que seu marido havia emprestado para alimentar os cem profetas que, como Eliseu devia saber, ele salvara da perseguição de Jezabel, os credores queriam tomá-la como escrava e também aos seus filhos (JOSEFO, 2005, p. 433)


Ora, com base nisso alguns sustentam que a irresponsabilidade do marido morto é justificada pelo propósito que motivou o empréstimo. Isto é, o sustento dos homens de Deus. Diante dessa argumentação, os manipuladores têm uma poderosa arma para ludibriar os incautos. Porquanto, basta usar a história mencionada para levar os fiéis a dar tudo o que têm para o sustento dos homens de Deus. Entretanto, é necessário frisar que na apresentação da obra citada, Claudionor de Andrade faz uma observação que joga por terra essa teoria.

É claro que, nas Antiguidades Judaicas, Josefo não agiu propriamente como historiador. Dando asas à imaginação, coletando o exotismo do folclore judaico e aferrando-se à hermenêutica dos anciãos, narrou a seu modo os fatos que compõem a história do Antigo Testamento. Na Guerra dos Judeus, porém, escreveu o que testemu­nhara ele ocularmente, pois atuou como um de seus personagens (JOSEFO, 2005, p. 67).


Mesmo assim, vamos supor que, de fato, o falecido fosse Obadias. Você acha que vale a pena sustentar os profetas e penhorar seus filhos? Você acha certo sustentar os profetas e deixar sua esposa com uma mão na frente e outra atrás? Será que é isso o que Deus quer? Por mais que Obadias temesse muito ao Senhor, não poderia ter deixado sua família em uma situação tão crítica. Ele deveria ter pensado no futuro! O próprio Jesus deu essa orientação em Lucas 14.28-30. Além disso, a Bíblia diz que o marido deve amar a esposa a ponto de se entregar por ela (Ef 5.25).
            Infelizmente, são abundantes os exemplos de indivíduos que se dedicam extremamente à igreja e aos líderes e esquecem os seus familiares. Quem está de fora jamais irá imaginar uma coisa dessas, mas acontece. As boas obras para com os de fora não definem o tratamento dispensado aos de dentro. Obadias não pode ser visto como isento de erros só porque ajudou os profetas. Afinal, todos todos pecamos (Ec 7.20). Não devemos, portanto, idolatrá-lo por seus acertos, nem condená-lo por seus erros, mas precisamos usar tanto um lado quanto o outro como exemplo para nossas vidas, do que deve e do que não deve ser feito.

Pr. Cremilson Meirelles    


  
BIBLIOGRAFIA

CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo:
volume 6: dicionário – A – L. 2 ed. São Paulo: Hagnos, 2001.

DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2004.  
           
JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. 9 ed. Rio de Janeiro: CPAD. 2005.



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