quinta-feira, 20 de junho de 2013

A IGREJA E SEUS RELACIONAMENTOS

Você já ouviu, em algum lugar, a palavra hebraica “shalom? Sabe o que ela significa? Popularmente, o termo “shalom” tem sido traduzido como paz, porém seu significado é muito mais amplo. Ele deve ser compreendido a partir de sua raiz – shlm – que dá a idéia de tranqüilidade, prosperidade, êxito, saúde, bem-estar, incolumidade, relacionamento próspero, amizade, amabilidade, estar inteiro, intacto, ileso, etc. A partir daí, podemos perceber que o termo, na verdade, representa um estado de integridade, harmonia, inteireza e unidade. Refere-se, portanto, ao círculo de idéias relativas ao bem-estar social.
Esse significado fica patente no salmo 122.6, onde o salmista pede que os leitores orem pela paz (shalom) de Jerusalém. No texto, não está em foco uma paz privada, restrita aos limites da cidade, mas uma paz extensiva ao espaço público, contemplando toda a nação de Israel. Decerto, o salmista, vendo as multidões que afluíam à Jerusalém para cultuar a Deus, em função das festividades anuais, desejou que a cidade perdurasse para sempre. Entretanto, para que isso acontecesse, a paz (shalom) precisava prevalecer. Invasores estrangeiros, como os babilônios, tinham de manter-se afastados. Por conta disso, ele concita seus leitores a orarem pela paz (shalom) de Jerusalém. Isto é, pela integridade, prosperidade e tranquilidade da cidade.  Até porque, o bem-estar de Jerusalém garantiria a paz em todo o país, visto que a cidade era a capital de Judá e a sede de seu reino. Logo, essa paz redundaria em prosperidade espiritual e material para todo o país.
O desejo de uma paz que abranja tanto o espaço privado quanto o público fica evidente ao longo de todo o salmo. Isto é evidenciado tanto pelo seu texto quanto pelo seu uso, pois o salmo em questão faz parte do grupo dos chamados “Cânticos dos Degraus” ou “Cânticos de Romagem, os quais eram entoados pelos israelitas por ocasião de sua peregrinação rumo à Jerusalém. Essa longa caminhada era realizada em grupo, ou seja, ninguém ia à Jerusalém sozinho. A viagem era feita em caravanas, as quais, algumas vezes, continham homens, mulheres e crianças[1] (Lc 2.41). Ora, a maior parte do culto era realizado no espaço público, antes de chegar à cidade.
Outrossim, no salmo propriamente dito, vemos desde o primeiro versículo, a valorização da vida no espaço público. Porque, quando o salmista declara: “alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor” [2]; deixa transparecer a idéia de que, conquanto seja muito bom estar na casa do Senhor, melhor ainda é poder estar com alguém antes, durante e depois. Isto é, o salmista se alegra antes de comparecer ao local de adoração. Um simples convite para o culto lhe proporciona essa alegria. Sabe por quê? Porque ele sabia que estaria na presença de Deus, mas também reconhecia a importância de estar com seus irmãos. Até porque ele diz: “[...] quando me disseram [...]”. O uso do plural mostra que ele foi convidado por mais de uma pessoa, e isso lhe trouxe alegria. Ademais, no versículo 4 o texto mostra que as tribos de Israel subiam até a cidade de Davi para cultuar a Deus. Isto é, ele ficou alegre por saber que estaria exercitando a comunhão com Deus, mas também com seus irmãos. Em adição, cabe ressaltar que o verbo hebraico empregado para informar que lhe “disseram”, dá a idéia de algo que foi dito pessoalmente, não um mero recado enviado, o que implica relacionamento. Isto é, quem convidou o salmista entendia que embora eles já fossem um grupo, esse grupo não seria completo sem ele. Da mesma forma, a fé cristã não pode ser vivida de maneira privada, é necessário ir ao encontro do outro, não somente para convidá-lo para um culto, mas para fazer parte do grupo.
Receber aquele convite significou muito para ele, visto que trouxe grande alegria ao seu coração. Foi tão boa a experiência de receber os irmãos em sua casa para lhe convidar, para dizer que ele era importante, que ele quis compartilhar com outras pessoas, mostrando seu desejo de ver outros experimentando tal sentimento. Que exemplo maravilhoso! O salmista compreendeu que melhor do que a alegria só em seu coração era alegria no coração dos outros. Por isso ele escreveu o salmo. Diante desse quadro cabe-nos refletir a respeito de como temos vivido o cristianismo. Temos levado alegria aos corações? Temos ido aos lares buscar os ausentes? Temos mostrado que nossos irmãos são importantes para o grupo? Temos compartilhado nossas experiências na Casa de Deus ou temos apenas criticado a Igreja do Senhor?
Às vezes deixamos de ganhar almas para cristo porque não vivemos a realidade compartilhada pelo salmista. Nos preocupamos mais com cargos, programações e esquecemos do indivíduo, do ser social que está inserido em um mundo marcado pela injustiça, intolerância, ódio e desamor. Essa postura produz muito mais pessoas decepcionadas com o Evangelho do que Cristãos genuínos. É necessário que abandonemos por um momento o nosso ego[3] para nos dedicarmos ao álter[4]. É preciso fazer como os companheiros do salmista, ou seja, ir ao encontro do outro, visitá-lo, inseri-lo no grupo. Isso, de fato, é ser igreja.
Tal atitude só é possível quando há amor. O problema é que nem sempre o amor que nos move é semelhante ao de Jesus. Muitas vezes o sentimento que predomina é o amor éros, o qual era considerado pelos antigos cristãos como sinal de se colocar o outro como mediação para meu projeto (é a amizade hedônica ou de prazer, em que coloco o outro como meio para meus gozos). Nós agimos assim quando damos importância a um templo cheio para que nossa programação seja prestigiada, e não para nos confraternizarmos com os irmãos. O outro é apenas alguém que vai preencher um lugar no banco. O fato de estarmos juntos, em pequeno ou grande número deve nos alegrar, tal como aconteceu com o salmista. O texto mostra que ele é convidado por mais de uma pessoa, mas não diz se era uma multidão. De qualquer maneira isso trouxe alegria ao seu coração.
Outra maneira de manifestarmos o amor éros é cobrarmos perfeição do outro naquilo que ele executa para que isso nos traga prazer. Um exemplo clássico disso são as equipes de louvor de nossas igrejas. Há indivíduos que, mesmo em um contexto carente de recursos humanos qualificados para esse ministério, exigem que a equipe execute o período de cânticos com perfeição, dividindo vozes, diversificando os instrumentos, etc. Estes criticam qualquer tipo de “falha”, não só dos músicos, mas dos pregadores e demais participantes, pois só se satisfazem com a perfeição.  Não levam em conta o fato de que as pessoas não estão ali para satisfazê-lo, mas para exaltar a Deus.
Outro tipo de amor bastante freqüente nas igrejas é a filia, isto é, o amor de iguais. Para os gregos e romanos só podia haver amor entre iguais. Amar o pobre, o miserável, era desprezível e depravava quem assim amava. Em nossas igrejas vemos muitas vezes uma atmosfera excludente, quase impenetrável evidenciada nos grupos que se unem em função de suas afinidades, os quais são vulgarmente denominados de panelas. Os que agem assim, só mantêm um relacionamento próximo com quem pensa como eles, os demais são evitados. Tal comportamento faz com que o outro se torne invisível, o que dificulta o acesso do novo crente. Este, recém chegado na igreja, precisa de todo o apoio, porém onde a filía predomina esse suporte inexiste. O neoconverso precisa se esforçar para ser inserido em um grupo. Do contrário, continuará solitário em um ambiente repleto de pessoas.
Quando a filía é adotada como perspectiva, a evangelização acaba sendo prejudicada, pois as pessoas passaram a encarar a igreja como um lugar de encontros, tal como um clube. Sair desse ambiente confortável para ir ao encontro de indivíduos carentes da graça do Senhor está fora de cogitação. É mais fácil transferir essa responsabilidade para outro. Por isso, muitos dos que pensam assim preferem contribuir fielmente para missões a falar do amor de Deus.
Para Jesus (Lc 11.42; Jo 13.35; Mt 24.12) e Paulo (1Co 13.1-13) o amor cristão deve ser o agápe, que se trata de um amor muito especial. Não é amor a si mesmo, é amor ao outro como outro, por ele mesmo e não por mim. Isto é, um sentimento que independe de afinidades, mas que atenta para o fato de que, assim como eu, o outro também é criatura de Deus, um ser humano que possui necessidades físicas, psicológicas e espirituais.
Em função desse sentimento, Jesus não apenas comunicava o Evangelho, Ele vivia. Ele não encarava o ser humano apenas como uma alma que necessita de salvação, mas também como um indivíduo que possui um corpo e está inserido no tempo, habitando em mundo caído, onde há uma série injustiças, onde há dor, lágrimas. Por conta disso, Jesus não parava na comunicação do Evangelho. Ele ia ao encontro dos excluídos, a fim de lhes devolver a dignidade. Os milagres realizados por Jesus, além de autenticarem seu ministério, eram um meio de promover a reintegração social dos indivíduos desprezados pela sociedade. Por isso, seu ministério se desenvolvia muito mais nas ruas do que dentro das sinagogas.
Um exemplo dessa ação reintegradora de Jesus é a restauração da visão do filho de Timeu, um homem desprezado pelos seus, vivendo às margens da sociedade. O homem conhecido como o “cego de Jericó”, mendigava nas proximidades da cidade que o desprezava. Jericó era uma cidade rica, pois era cuidada por Herodes. Qualquer um naquela cidade poderia ajudar o cego, no entanto esse tipo de enfermidade era considerada fruto do pecado. Assim, o filho de Timeu não poderia permanecer no interior da cidade, visto que, dessa maneira, traria maldição para sua família e, consequentemente, para seu povo. Jesus, conhecendo esse pensamento, contrariou a multidão que tentava calar o cego (Mc 10.48), foi ao encontro daquele homem e o curou, viabilizando sua inclusão social.
No salmo abordado inicialmente, o salmista, ainda que limitado pelo entendimento veterotestamentário, apresenta uma visão semelhante a de Cristo, no que tange à inclusão social. Isto fica patente em seu pedido por Jerusalém, porquanto, como falamos, ele contempla uma realidade que abarca toda a nação. Ele compreende que a comunhão, a alegria e o bem-estar desfrutado por ele e seus companheiros, não poderia ser restrito aos limites do templo, nem mesmo aos limites da cidade. Até porque, ainda que estar lá com seus compatriotas e irmãos lhe trouxesse alegria, ele não podia esquecer que estava inserido em contexto social totalmente diferente daquele, assim como seus conterrâneos.
Isto é confirmado no versículo 8, quando o salmista explica que seu clamor pela paz é motivado pelo amor aos seus irmãos e amigos. O interessante nesse trecho é que a expressão hebraica traduzida como “Por causa de” na Almeida Revista e Corrigida, pode também significar “por amor de”, tal como aparece na Revista e Atualizada.  Todavia, a expressão “os irmãos” é uma referência aos habitantes de Jerusalém, enquanto “os amigos” são os peregrinos que estavam ali para participar das festividades. Pensando nesses dois grupos, os quais englobavam todos os israelitas, o salmista invoca a paz sobre a cidade.
Tal invocação revela o desejo do salmista de ver o bem-estar social de sua nação, o que, naturalmente, alcançaria os indivíduos. A Igreja de Cristo precisa ter essa perspectiva, precisa amar a todos, os que servem e os que não servem. Esse amor precisa nos levar a contribuirmos para melhorar as condições sociais em nosso país. Tal como Cristo, não podemos nos limitar à comunicação verbal do Evangelho. Precisamos, por amor das pessoas que estão dentro e fora da Igreja (irmãos e amigos), promovermos a paz, isto é, o bem-estar social, de modo que toda a nação possa viver melhor, e, nesse ínterim proclamarmos que só Jesus salva.             



Pr. Cremilson Meirelles


[1] Os membros masculinos das tribos de Israel eram obrigados por lei (Dt 16.16,17) a ir a Jerusalém três vezes por ano, para as principais festividades religiosas, a Páscoa, o Pentecostes e os Tabernáculos. A partir dos doze anos os meninos eram inseridos nesse contexto.  
[2] Sem dúvida, este convite diz respeito a uma das festividades anuais. 
[3] Do latim ego, que significa eu.
[4] Do latim alter, que significa outro.

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